Copa será decisiva para futuro de Zuma

Além dos altos índices de criminalidade e do caos nos transportes, falhas na organização no Mundial que começa em junho prejudicariam líder sul-africano

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

Ninguém torce tanto pelo sucesso da Copa do Mundo quanto o presidente da África do Sul, Jacob Zuma - com 67 anos, 5 casamentos, 20 filhos e algumas amantes. O aumento do desemprego e a notória falta de liderança, segundo analistas, consumiram a paciência de setores importantes do Congresso Nacional Africano (CNA), o partido governista. Mal começou seu segundo ano de mandato, Zuma já enfrenta a pior crise de seu governo.

"A sobrevivência política do presidente depende do sucesso da Copa", disse ao Estado Anthony Butler, diretor do Departamento de Estudos Políticos da Universidade de Witwatersrand, de Johannesburgo. "Qualquer sinal de fracasso pode lhe custar o cargo."

Para azar de Zuma, o sucesso do torneio não depende só do desempenho dos Bafana Bafana, a seleção local. O que pode arruiná-lo é o gargalo nos transportes, a criminalidade e um papelão da organização do Mundial, que para muitos representaria a humilhação internacional do país.

Como exemplo, Butler cita a seleção brasileira, que jogará duas vezes em Johannesburgo, cidade mais violenta da África do Sul, e uma em Bloemfontein, que fica a 400 quilômetros dali. "As viagens são longas e a ligação aérea é precária. O Brasil arrasta um séquito de torcedores e jornalistas. Como será o deslocamento deles?", questiona. "Além disso, se houver casos de violência, assaltos ou morte de estrangeiros, Zuma terá problemas para manter-se no poder."

A frustração parece certa em pelo menos um aspecto. Os 500 mil turistas estrangeiros não virão - serão apenas 200 mil, segundo as últimas estimativas. A criminalidade, a crise financeira internacional e a falta de voos fizeram muita gente cancelar as reservas de hotel. Dos US$ 7 bilhões de receita previstos pelo governo, devem vir apenas US$ 3 bilhões.

De acordo com o analista político Allistar Sparks, depois da euforia virá a cobrança. "Quando a Copa acabar, o país voltará a ter os mesmos problemas de antes", disse. "A África do Sul continua desigual e Zuma não tem nenhuma solução social ou econômica para combater a pobreza."

Zuma até que começou bem. Eleito com dois terços dos votos, respeitou a independência do Judiciário e a liberdade de imprensa, prometeu combater a aids e a corrupção e não mudou a política econômica austera de seu antecessor, Thabo Mbeki, o ex-presidente almofadinha que ninguém mais suportava.

Como antítese de Mbeki, Zuma chegou a ter 77% de aprovação popular no ano passado. Desde então, deu tudo errado. Em janeiro, ele se envolveu em outro escândalo sexual. Zuma é polígamo e, no ano passado, casou-se pela quinta vez. Ele permanece casado com três mulheres, pois duas se divorciaram. Em janeiro, porém, os sul-africanos descobriram a existência de uma amante presidencial, com quem ele teve um filho algumas semanas antes do terceiro casamento.

Pegou mal. Não pelo filho - ele tem 20, segundo a imprensa local -, mas pela amante. Para a maioria dos sul-africanos, que são protestantes, poligamia é uma coisa, promiscuidade é outra. Principalmente em um país com 5,5 milhões de portadores de HIV, a população mais infectada do mundo.

Mas não só a vida pessoal ameaça a reputação do presidente. Os sindicatos e os comunistas, principal base de Zuma, estão insatisfeitos com a política econômica liberal e exigem mais voz no governo.

Além disso, a violência não diminuiu. Todos os dias, 50 pessoas são assassinadas na África do Sul - cerca de duas por hora. Diariamente, são registrados 100 estupros e cerca de 700 assaltos. Zuma também não conseguiu combater o desemprego. Em 2009, 1 milhão de pessoas perderam o trabalho e quase metade da população negra está desempregada.

Risco. Zuma também é acusado de omissão. A estratégia de ser condescendente com os adversários começa a ser confundida com hesitação, o que afeta sua autoridade. "O manual de sobrevivência de Zuma é simples: sentar em cima do muro e não dizer o que pensa", afirmou o comentarista político Mphatjie Monareng. "Ele nem esquentou a cadeira e os estragos que já fez à imagem da presidência são monumentais."

Em setembro, o humor do CNA poderá ser sentido na reunião do conselho-geral do partido, em Durban. "Se a Copa for um desastre, ele sofrerá pressões de todos os lados. Não acho que ele caia em setembro, mas a cúpula do partido, segundo seus estatutos, pode pedir para que ele se afaste da presidência a qualquer momento", disse Butler.

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