Corações e mentes na luta aos jihadistas

Emir de Dubai prega destruição física do grupo Estado Islâmico e principalmente de sua ideologia tortuosa e violenta

MOHAMED BIN , RASHID AL-MAKTUM, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2014 | 02h02

A crise financeira global ensinou ao mundo o quão interdependentes se tornaram as nossas economias. Na crise de extremismo de hoje, devemos reconhecer que somos igualmente interdependentes no que se refere à nossa segurança, como o demonstra a luta atual para derrotar o grupo fundamentalista Estado Islâmico (EI).

Para impedir que os jihadistas do EI nos ensinem essa lição da maneira mais cruel, temos de admitir que não podemos apagar o incêndio do fanatismo exclusivamente por meio da força. O mundo deve se unir em torno de um movimento holístico para desacreditar a ideologia que confere poder aos extremistas, e restaurar a esperança e a dignidade àqueles que eles pretendem recrutar.

O EI certamente pode ser - e será - derrotado militarmente pela coalizão internacional que está se formando e os Emirados Árabes Unidos apoiam ativamente. Mas a contenção pelas armas é apenas uma solução parcial. A paz duradoura exige a presença de três outros elementos: ganhar a batalha das ideias, aperfeiçoar a governança fraca e promover o desenvolvimento humano das bases.

Essa solução deve começar com uma vontade política internacional coordenada. Nenhum político da América do Norte, da Europa, da África ou da Ásia pode se permitir ignorar os atuais acontecimentos no Oriente Médio. Uma ameaça globalizada exige uma resposta globalizada. Todo o mundo sentirá o calor, porque essas chamas não conhecem fronteiras; de fato, o EI já recrutou integrantes de pelo menos 80 nacionalidades.

O EI é uma organização bárbara e brutal. Não representa nem o Islã nem a maioria dos valores fundamentais da humanidade. Ainda assim, surgiu, se espalhou e resiste aos que se opõem a ele. O que nós estamos combatendo não é apenas uma organização terrorista, mas a personificação de uma ideologia maligna que deve ser derrotada no plano intelectual.

Considero essa ideologia o maior perigo com que o mundo se defrontará na próxima década. Suas sementes estão brotando na Europa, nos EUA, na Ásia e em toda parte. Com implicações religiosas deturpadas, essa franquia do ódio está disponível a todos os grupos terroristas que a queiram adotar. Tem o poder de mobilizar milhares de jovens desesperados, rancorosos ou irados e usá-los para atacar os alicerces da civilização.

A ideologia que alimenta o EI tem muito em comum com a da Al-Qaeda e suas afiliadas na Nigéria, no Paquistão, na Somália, no Iêmen, no Norte da África e na Península Arábica. Mais preocupante é que, há dez anos, essa ideologia era tudo o que a Al-Qaeda precisava para desestabilizar o mundo, até mesmo a partir de uma base primitiva nas cavernas do Afeganistão. Hoje, no EI, os seus membros têm acesso a tecnologia, finanças, uma enorme base terrestre e uma rede internacional de jihadistas. Longe de ser derrotada, sua ideologia da raiva e do ódio tornou-se mais rígida, mais perniciosa e mais difundida.

A destruição de grupos terroristas não é suficiente para garantir uma paz duradoura. Devemos atacar as raízes para privar sua ideologia perigosa do poder de ressurgir entre as pessoas que se tornaram vulneráveis em razão de um ambiente de desespero e ausência de esperança. Sejamos positivos a esse respeito.

A solução tem três componentes. O primeiro consiste em contestar as ideias malignas com um pensamento inspirado, mentes abertas e uma atitude de tolerância e aceitação. Essa abordagem faz parte da nossa religião islâmica, que apela para a paz, a honra e a vida, valoriza a dignidade, promove o desenvolvimento humano e nos orienta a fazer o bem aos outros.

Somente uma coisa poderá deter um jovem suicida que está pronto a morrer pelo EI: uma ideologia mais forte que o guie no caminho certo e o convença de que Deus nos criou para melhorar o mundo e não para destruí-lo. Podemos nos espelhar nos nossos vizinhos da Arábia Saudita com seus grandes sucessos na tarefa de desestimular a radicalização de muitos jovens graças à ação de centros e programas de aconselhamento.

Nessa batalha das mentes, os mais preparados para liderar o ataque são os pensadores e cientistas de estatura espiritual e intelectual entre os muçulmanos.

O segundo componente será o apoio às iniciativas dos governos para a criação de instituições estáveis que possam prestar serviços concretos aos seus povos. Deveria estar claro para todos que o rápido crescimento do EI foi alimentado pelos fracassos dos governos sírio e iraquiano: o primeiro trava uma guerra contra seu próprio povo e o segundo promoveu uma divisão sectária. Quando os governos não procuram sanar a instabilidade, atender a reivindicações legítimas e combater graves e persistentes desafios, eles criam um ambiente propício à incubação de ideologias odiosas - e a possibilidade de organizações terroristas preencherem o vazio de legitimidade.

O componente final é preencher com urgência os buracos negros do desenvolvimento humano que afligem muitas áreas do Oriente Médio. Essa não é uma responsabilidade exclusiva dos árabes, mas uma responsabilidade internacional, pois, na medida em que se proporcionarem oportunidades às bases e uma melhor qualidade de vida aos povos dessa região, será possível atenuar nossos problemas comuns de instabilidade e conflito. Temos uma necessidade crucial de projetos a longo prazo e de iniciativas para eliminar a pobreza, melhorar as áreas de educação e saúde, construir infraestrutura e criar oportunidades econômicas. O desenvolvimento sustentado é a resposta mais sustentada ao terrorismo.

Nossa região tem uma população de mais de 200 milhões de jovens. Nós temos a oportunidade de inspirá-los com a esperança e de orientar suas energias para que melhorem sua vida e a dos que estão ao seu redor. Se fracassarmos, os abandonaremos ao vazio, ao desemprego e às ideologias malignas do terrorismo.

A cada dia que dermos um passo para promover o desenvolvimento econômico, criar empregos e elevar o padrão de vida, estaremos minando as ideologias do medo e do ódio que se alimentam da desesperança, estaremos matando as organizações terroristas tirando-lhes a razão de existir.

Sou otimista, porque sei que o povo do Oriente Médio tem o poder da esperança e o desejo de estabilidade e prosperidade que são mais fortes e duradouros do que ideias oportunistas e destrutivas. Não há poder mais forte do que o da esperança numa vida melhor. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É VICE-PRESIDENTE E PREMIÊ

DOS EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

E EMIR DE DUBAI

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