Coreia do Norte aceita suspender programa nuclear em troca de comida

Diplomacia atômica. Após negociação com EUA, Pyongyang diz que interromperá testes nucleares e o enriquecimento de urânio, além de permitir o retorno dos inspetores da ONU; em troca, Washington enviará 240 mil toneladas de alimentos ao país comunista

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2012 | 03h01

A Coreia do Norte concordou ontem em suspender seus testes nucleares, além do enriquecimento de urânio, e finalmente permitir a volta dos inspetores internacionais a suas instalações atômicas. Os compromissos foram alcançados em um acordo com os EUA, que, em contrapartida, fornecerão 240 mil toneladas de alimento aos norte-coreanos.

A notícia do pacto foi inicialmente divulgada pela imprensa estatal de Pyongyang e, em seguida, confirmada pelo Departamento de Estado dos EUA - os dois países vinham negociando a portas fechadas na China. O compromisso alcançado pode pôr fim a anos de um impasse que permitiu aos norte-coreanos prosseguir com seu programa nuclear livres de controles externos.

O governo Barack Obama qualificou os novos passos como "importantes, mas limitados". As autoridades americanas destacaram que o avanço poderá começar a desatar o nó do programa norte-coreano dois meses após a morte do ditador Kim Jong-il. O líder de Pyongyang foi substituído por seu filho Kim Jong-un, de 28 anos, e Washington vinha acompanhando de perto a sucessão para saber se a mudança teria efeitos no comportamento do regime.

A Coreia do Norte concordou também com uma moratória nos lançamentos de mísseis de longo alcance. Os disparos criavam forte tensão nos dois principais inimigos de Pyongyang no Extremo Asiático, a Coreia do Sul e Japão.

No passado, o regime norte-coreano chegou a concordar com uma suspensão do seu programa nuclear, mas sempre voltou atrás, exigindo novas concessões ou acusando os EUA de não cumprirem suas promessas. Segundo o comunicado feito ontem pela agência de noticias norte-coreana, os líderes de Pyongyang cumprirão suas promessas "desde que as conversações prossigam de modo frutífero".

Inspeções. A permissão para inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) retornarem ao país é uma concessão importante. Em 2006 e 2009, depois de anos de negociações, a Coreia do Norte expulsou os funcionários e levou adiante seus testes nucleares. Integrantes da inteligência dos EUA acreditam que o país tem combustível nuclear suficiente para seis a oito bombas.

Em Washington, a possibilidade de a Coreia do Norte cumprir o acordo e parar com o enriquecimento de urânio ajudaria a tranquilizar a Casa Branca num momento em que, sob a pressão eleitoral, tenta lidar com a crise nuclear iraniana.

Em Pyongyang, o acordo pode ser crucial para o jovem e inexperiente ditador consolidar seu poder e garantir o apoio de um Exército poderoso, dizem analistas na Coreia do Sul. Ele precisa mostrar nos seus primeiros meses que está procurando melhorar a vida da população depois de anos de escassez de comida e de fome devastadora. A chegada de 240 mil toneladas de alimento dos EUA deverá ajudá-lo.

A ocasião é também importante para o jovem Kim, pois seu pai havia declarado que este seria um ano excepcional para a Coreia do Norte, quando a economia deslancharia e o país seria palco de grandes celebrações, marcando a data em que completaria 100 anos Kim Il-sung, o fundador da nação e avô de Kim Jong-un. A ajuda alimentar e a melhora das relações internacionais podem dar ao novo líder condições de organizar uma festa abundante, o que ajudaria a manter a fé da população na dinastia. / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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