Coreia do Norte admite que foguete caiu e ONU promete resposta a lançamento

Com exceção de um anúncio de 48 segundos na TV estatal, a Coreia do Norte ignorou em público o fracasso no lançamento do foguete Unha-3, que caiu no mar logo depois de ser disparado. Nenhuma autoridade apareceu para dar explicações aos cerca de 150 jornalistas estrangeiros que estão no país. A confirmação oficial da queda veio só quatro horas e meia depois de ela ter sido divulgada por EUA, Japão e Coreia do Sul.

CLÁUDIA TREVISAN, LISANDRA PARAGUASSU, ENVIADAS ESPECIAIS / PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h04

Os membros do Conselho de Segurança da ONU "deploraram" o lançamento norte-coreano em uma nota conjunta. Eles acusaram Pyongyang de violar as duas resoluções, de 2006 e 2009, adotadas contra o programa nuclear do país asiático. O conselho disse ainda estar em consulta para definir "a resposta apropriada".

Os EUA anunciaram que não enviarão ajuda alimentar à Coreia do Norte. Os suprimentos eram parte de um acordo segundo o qual a Coreia do Norte suspenderia seu programa nuclear.

Em Pyongyang, uma entrevista coletiva chegou a ser anunciada aos jornalistas estrangeiros, mas não ocorreu. Os repórteres foram informados de que seriam levados a um local "extremamente importante" às 13h45. A equipe de segurança montou um detector de metais e uma máquina de raio-X para análise dos equipamentos e bolsas. O processo de checagem de todo o grupo demorou duas horas e meia. Era proibido levar computadores, iPads e isqueiros - os celulares já haviam sido deixados no aeroporto assim que todos desembarcaram em Pyongyang.

Os jornalistas esperavam ser levados ao encontro de uma autoridade do primeiro escalão, que pudesse falar sobre o disparo para o qual a Coreia do Norte diz ter se preparado durante anos. O tema havia dominado a agenda dos jornalistas nos dias anteriores, em visitas à plataforma de lançamento do foguete e ao centro de controle do satélite, além de entrevistas com responsáveis pelo programa.

Os repórteres realmente viram - à distância - a maior autoridade do país, Kim Jong-un, mas o evento não tinha nenhuma relação com o satélite. Centenas de milhares de pessoas se reuniram em frente ao Museu da Revolução Coreana para a inauguração de uma estátua de Kim Jong-il, o pai de Kim Jong-un, que morreu em dezembro. Sua imagem foi colocada ao lado da estátua de 20 metros de altura de seu pai, Kim Il-sung, o fundador do país venerado como um semideus. Ao verem as imagens de seus "eternos" líderes, os norte-coreanos abanaram flores e cantaram.

Depois das duas horas e meia de checagem de segurança e perambulação de ônibus para um destino desconhecido, os jornalistas foram deixados às 16 horas na praça Kim Il-sung, a cerca de um quilômetro do local do evento. Lá, foram guiados até uma colina, de onde podiam ver a multidão. Minutos depois, foram transferidos a outro lugar, do qual as câmeras de televisão não poderiam registrar imagens das estátuas e muito menos de Kim Jong-un. Meia hora mais tarde, foram levados de volta ao local original, onde esperaram até as 18 horas pela aparição do "comandante supremo".

Sem celulares, jornalistas de redes de TV globais ficaram desconectados de suas redações até o início da noite, impossibilitados de transmitir qualquer informação sobre o país que estava no foco das atenções.

Celebração. A multidão de norte-coreanos que ocupava a imensa área aplaudiu assim que Kim Jong-un apareceu na plataforma sobre a qual estão as estátuas. Houve silêncio absoluto quando a população se curvou em reverência diante das novas imagens.

Fogos de artifício, balões coloridos e flores artificiais chacoalhadas pela multidão deram o tom festivo ao evento, do qual o fracasso da manhã ficou distante. Não havia gritos, confusão ou gente correndo. No final da festa, não havia papéis no chão, latinhas, garrafas ou qualquer outro tipo de lixo.

Kim não fez nenhum pronunciamento durante o evento, comandado por Kim Yong-nam, chefe da Assembleia Suprema do Povo. "Quando olhamos para as grandes imagens do presidente Kim Il-sung e do general Kim Jong-il, sentimos a grande fortuna de nossa grande nação, abençoada com grandes líderes geração após geração", disse Kim Yong-nam. Segundo ele, Kim Il-sung sempre compartilhou alegrias e sofrimentos com a população e fez dos norte-coreanos "o povo mais digno e civilizado do mundo".

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