Coréia do Norte admite seqüestro de japoneses

Em uma surpreendente concessão em uma reunião de cúpula com o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, o líder norte-coreano, Kim Jong Il, confirmou nesta terça-feira que espiões da Coréia do Norte seqüestraram japoneses há décadas e disse que pelo menos quatro deles estão vivos. Após anos de negativas, Kim admitiu que aproximadamente uma dezena de japoneses foram seqüestrados pelos agentes norte-coreanos. Ele disse que isto era "lamentável e nunca mais voltará a acontecer" e acrescentou que os responsáveis serão castigados. Os comentários de Kim abriram as portas para que o Japão e a Coréia do Norte iniciem as adiadas conversações para estabelecer relações diplomáticas. Kim e Koizumi anunciaram em uma declaração conjunta que as conversações serão retomadas em outubro. "Protesto energicamente pelos seqüestros", disse Koizumi em entrevista à imprensa, e acrescentou que Kim se desculpou. "Kim disse que os seqüestros foram feitos por elementos dos meios militares, e que está sendo feita uma investigação". "Achei que tínhamos que iniciar conversações para melhorar as relações entre o Japão e a Coréia do Norte. Mas meu coração se aflige quando considero como devem sentir-se as famílias (dos seqüestrados)", disse Koizumi.O Japão sustenta que pelo menos 11 pessoas foram seqüestradas para treinar os agentes norte-coreanos em cultura e idioma japoneses. Durante a cúpula, Kim disse que os que estavam vivos poderiam ser autorizados a regressar ao Japão, disseram funcionários de ambas as partes. Na declaração conjunta, a Coréia do Norte prometeu continuar até 2003 uma moratória sobre testes de mísseis e permitir as inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O Japão prometeu sua cooperação econômica e se desculpou por atrocidades durante a Segunda Guerra mundial. A declaração não deu detalhes. "Isto aconteceu durante décadas de relações hostis e desejo falar desse tema com franqueza", disse Kim a Koizumi, segundo um funcionário da delegação japonesa que falou aos repórteres. "Desejo desculpar-me e jamais se permitirá que isto volte a ocorrer". Foi confirmado que seis dos 11 - os quais Tóquio vinha insistindo há muito tempo que haviam sido seqüestrados - morreram, enquanto que um deles nunca chegou ao país. A Coréia do Norte admitiu que também morreram outros dois que desapareceram na Europa. Embora uma das vítimas, Meruim Yokota - que desapareceu quando tinha apenas 13 anos - também tenha morrido, confirmou-se que sua filha estava viva em Pyongyang, disse o funcionário. Kim reconheceu que no passado algumas pessoas mal orientadas em seu país perpetraram os seqüestros para aprender o idioma japonês e assumir a identidade das vítimas, disse o funcionário. "Estou assombrado. Quando penso nos sentimentos das famílias, a dor é insuportável", disse Koizumi a Kim, segundo se informou. Não ficou claro como morreram os seqüestrados, e o Japão exigiu uma investigação minuciosa a respeito. Muitas outras questões irritantes - incluindo o suposto desenvolvimento de armas nucleares e supostas atividades de espionagem norte-coreanas diante das costas japonesas - estavam presumivelmente no temário da cúpula de um dia, primeira entre os mandatários das duas nações. Mas para o público japonês - e a carreira política de Koizumi - a questão mais delicada era assegurar o retorno dos 11 supostos seqüestrados pela Coréia do Norte nas décadas de 70 e 80. "Nós a consideramos muito seriamente", disse em uma declaração um porta-voz da Chancelaria norte-coreana, segundo informou a Agência de Notícias Central da Coréia do Norte. "É lamentável que estas questões tenham aflorado no passado como produto da relação anormal entre o Norte e o Japão. Impediremos que ocorram essas coisas no futuro". O porta-voz, que não foi identificado, disse que a Coréia do Norte está disposta a ajudar os sobreviventes a se reunirem com seus familiares e funcionários japoneses, e a tomar medidas para permitir-lhes que regressem a seu país ou visitem suas cidades natais, se o desejarem". O Japão e a Coréia do Norte nunca tiveram relações diplomáticas, e as gestões de normalização fracassaram há dois anos devido à questão dos seqüestrados.

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