KCNA via REUTERS
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Coreia do Norte anuncia novo e bem-sucedido teste de míssil hipersônico, o primeiro do ano

Trata-se do segundo teste notificado por Pyongyang de um míssil hipersônico, uma arma de última geração, que representa o avanço tecnológico do seu arsenal

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2022 | 23h13

SEUL - A  Coreia do Norte  testou com sucesso um míssil hipersônico, informou nesta quinta-feira, 6, (hora local, quarta-feira em Brasília) a imprensa estatal, no primeiro teste de armamento realizado pelo país neste ano, rapidamente criticado pelos Estados Unidos.

O míssil testado estava carregado com uma "ogiva hipersônica deslizante", que "atingiu com precisão um alvo a 700 km de distância", reportou a Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA, na sigla em inglês).

Trata-se do segundo teste notificado pela Coreia do Norte de um míssil hipersônico, uma arma de última geração, que representa o avanço tecnológico do seu arsenal. O primeiro foi realizado em setembro

O disparo de teste desta quinta-feira "reconfirmou o controle de voo e a estabilidade do míssil na etapa de voo ativo e avaliou o rendimento da nova técnica de movimento lateral aplicada à ogiva hipersônica", detalhou a KCNA.

A Coreia do Sul e o Japão detectaram o lançamento de um suposto míssil balístico da Coreia do Norte, que caiu nas águas ao leste da península coreana.

As armas hipersônicas geralmente voam em direção a alvos em altitudes mais baixas do que os mísseis balísticos e podem atingir mais de cinco vezes a velocidade do som - ou cerca de 6.200 km por hora. 

Apesar do nome, analistas dizem que a principal característica das armas hipersônicas não é a velocidade - que às vezes pode ser igualada ou superada por ogivas de mísseis balísticos tradicionais -, mas sua capacidade de manobra.

O lançamento veio na sequência de uma série de testes de armamentos realizados entre setembro e outubro pela Coreia do Norte e foi criticado por Seul, Tóquio e Washington.

"Esse lançamento viola múltiplas resoluções do Conselho de Segurança da ONU e representa uma ameaça aos vizinhos da RPDC (República Popular Democrática da Coreia) e à comunidade internacional", disse um porta-voz do Departamento de Estado americano. "Seguimos comprometidos com uma reaproximação diplomática com a RPDC e lhes pedimos que dialoguem", acrescentou.

O Exército da Coreia do Sul reportou que seu vizinho do norte lançou o que "presumivelmente era um míssil balístico" nas águas ao leste da península coreana, por volta das 8h10 (20h10 de terça-feira no horário de Brasília).

O lançamento foi feito da Província de Jagang, na fronteira com a China, de acordo com os militares sul-coreanos. Pyongyang não divulgou o local do lançamento. 

Após uma reunião de emergência, o Conselho de Segurança Nacional da Coreia do Sul expressou preocupação com o lançamento, de acordo com uma nota do gabinete presidencial.

Já o primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, descreveu o incidente como um possível lançamento de míssil balístico. "É realmente lamentável que a Coreia do Norte continue lançando mísseis desde o ano passado", disse Kishida, observando que seu governo estuda os detalhes da operação, incluindo o número de projéteis lançados. 

O porta-voz do governo japonês, Hirozaku Matsuno, informou que, se o artefato tiver seguido uma órbita normal, deve ter percorrido cerca de 500 quilômetros e caído fora da zona econômica exclusiva do Japão.

Em sua primeira década no poder, o ditador Kim Jong-un priorizou o desenvolvimento de armas do país, embora isso tenha levado a sanções internacionais significativas. 

Apesar de os problemas econômicos do país terem sido agravados pela pandemia do coronavírus, o isolado regime comunista manteve essa estratégia com uma série de testes militares entre setembro e outubro de 2021. Como afirmam os países vizinhos, estes testes foram retomados nesta quarta-feira.

O lançamento ocorre depois de Kim Jong-un manifestar, na semana passada, em uma reunião de seu partido, seu compromisso de continuar a desenvolver as capacidades militares do país.

"Acredito que a Coreia do Norte continuará a refinar seu arsenal como forma de melhorar sua posição estratégica em tempos de mudança política na região", disse à agência France Presse Jean Lee, do Woodrow Wilson International Center, de Washington.

As armas hipersônicas são consideradas a próxima geração de armas que visam roubar os adversários no tempo de reação e dos mecanismos tradicionais de defesa. No mês passado, os EUA concluíram a construção de um enorme radar de longo alcance de US$ 1,5 bilhão para um sistema de defesa antimísseis no Alasca que, segundo eles, pode rastrear mísseis balísticos e também armas hipersônicas de países como a Coreia do Norte.

Mensagem a Washington 

Entre setembro e outubro de 2021, o regime norte-coreano anunciou testes bem-sucedidos de mísseis de cruzeiro de longo alcance, mísseis balísticos de um submarino e de um trem, além do que definiu como um teste de míssil hipersônico.

Esses anúncios foram acompanhados por informações sobre o progresso militar da Coreia do Sul, no que pareciam ser sinais de uma corrida armamentista na península após o fracasso das negociações sobre uma possível desnuclearização na conturbada região.

As negociações entre Pyongyang e Washington foram interrompidas após o fracasso, em 2019, do diálogo entre Kim e o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Seu sucessor, o democrata Joe Biden, declarou em várias ocasiões a disposição do novo governo de se reunir com representantes norte-coreanos, mas Pyongyang se cala sobre o assunto e acusa Washington de manter sua política "hostil".

Em sua crítica ao lançamento, o Departamento de Estado americano reiterou seu compromisso de uma aproximação diplomática com o país comunista, isolado, e pediu a ele que também se comprometa com o diálogo.

"Pyongyang envia uma mensagem aos Estados Unidos de que não vai mudar e, portanto, Washington deve ceder", afirmou Shin Beom-chul, do Instituto de Pesquisa de Estratégia Nacional da Coreia.

Além das consequências econômicas das sanções internacionais, a Coreia do Norte sofre com o bloqueio autoimposto em suas fronteiras para impedir a entrada do coronavírus. O quadro atual levou a ONU a temer uma crise alimentar de grande magnitude neste país./AFP e REUTERS   

 

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