Coreia do Norte deixa armistício e ameaça Seul com ataque militar

Pyongyang qualifica líder da Coreia do Sul de ''traidor'' por causa de sua adesão à iniciativa contra proliferação

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

A Coreia do Norte ameaçou ontem atacar militarmente a Coreia do Sul em resposta à adesão do país vizinho à iniciativa liderada pelos EUA para interceptar navios que contenham armas ou materiais de destruição em massa. Em nota divulgada pelo Exército, o regime de Pyongyang afirmou que deixará de respeitar o armistício que pôs fim aos três anos de guerra com a Coreia do Sul, em 1953 (mais informações nesta página). A ameaça levou a Coreia do Sul e os EUA a elevar seu alerta militar."Do ponto de vista legal, a Península Coreana está fadada a retornar imediatamente a um estado de guerra e, portanto, nossas Forças Armadas revolucionárias promoverão as ações militares correspondentes", dizia texto divulgado pela agência de notícias norte-coreana. A declaração deixa claro que Pyongyang não tem intenção de retomar as negociações de seis partes realizadas com Coreia do Sul, China, EUA, Japão e Rússia. "Agora que o grupo adotou oficialmente o confronto e a guerra, as Forças Armadas revolucionárias vão optar por aumentar a capacidade de defesa nacional, incluindo a dissuasão militar em todas as formas, sem estar limitada por nenhum acordo adotado no âmbito das negociações de seis partes", ressaltou a agência. A nota do Exército refere-se ao presidente da Coreia do Sul, Lee Myung-bak, como "traidor" e diz que a plena adesão do país à Iniciativa de Segurança contra a Proliferação (PSI, na sigla em inglês) é uma declaração de guerra contra o norte. A decisão de integrar a iniciativa foi anunciada por Seul na terça-feira, um dia após a Coreia do Norte realizar seu segundo teste nuclear em três anos. O isolado país também lançou seis foguetes de curto alcance em dois dias, num claro desafio à quase unânime condenação internacional da explosão de segunda-feira. Pyongyang pode ainda ter reativado o reator nuclear de Yongbyon, desabilitado no ano passado no âmbito das negociações de seis partes. O jornal sul-coreano Chohun Ilbo afirmou que satélites americanos detectaram fumaça no complexo de Yongbyon, o que poderia ser um indício de processamento de combustível nuclear. Liderada pelos EUA, a PSI foi criada em 2003 e tem como um de seus principais alvos a ditadura de Pyongyang. Segundo a nota divulgada pelo Exército, a Coreia do Norte vai considerar qualquer eventual inspeção de seus navios como uma "imperdoável violação" de sua soberania e responderá com "imediata e forte ação militar". A Coreia do Sul havia anunciado sua intenção de aderir à PSI em abril, após o vizinho do norte ter lançado um foguete de longo alcance, mas adiou a decisão na esperança de manter o diálogo com Pyongyang. Na época, a Coreia do Norte declarou que abandonaria as negociações de desarmamento em reação à condenação internacional do que o regime sustenta ter sido a tentativa frustrada de colocar um satélite de comunicação em órbita. O jornal oficial norte-coreano, Minju Joson, qualificou de "ridícula" a ameaça dos EUA de impor sanções em retaliação ao teste de segunda-feira. "Nada vai mudar enquanto os EUA não alterarem sua posição hostil e de inata rejeição em relação a nós", ressalta o texto. "É uma ideia ridícula os EUA pensarem que podem nos derrotar com sanções. Temos vivido sob sanções americanas há décadas." O primeiro teste nuclear da Coreia do Norte ocorreu em outubro de 2006 e envolveu a explosão de um artefato com potência estimada de 6 quilotons - o equivalente a 6 mil toneladas de dinamite. O teste de segunda-feira indica avanço no poderio militar do regime chefiado por Kim Jong-il. Segundo estimativa do Ministério da Defesa russo, a bomba teve uma potência entre 10 e 20 quilotons. No maior patamar, ela seria comparável à que os americanos jogaram nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945.

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