Coreia do Norte desafia mundo e faz segundo ensaio atômico

Nações Unidas condenam explosão, que teria a potência das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2009 | 00h00

A Coreia do Norte desafiou ontem o Conselho de Segurança da ONU e realizou seu segundo teste nuclear em menos de três anos, condenado de maneira veemente e unânime pela comunidade internacional, incluindo a China, aliada mais próxima do regime de Pyongyang. Jornalista do ''Estado'' Roberto Godoy analisa o novo teste nuclear da Coreia do NorteA explosão de ontem foi muito mais potente que a realizada em 9 de outubro de 2006. Ao mesmo tempo em que acentua o isolamento do mais fechado país do mundo, o anúncio do teste nuclear amplia o cacife do ditador Kim Jong-il.O Conselho de Segurança da ONU, em uma reunião convocada pelo Japão, condenou o teste como uma clara violação da resolução aprovada em 2006, depois que Pyongyang realizou seu primeiro ensaio nuclear. Em uma nota, o Conselho de Segurança disse que seus membros decidiram trabalhar imediatamente em uma resolução.O Ministério da Defesa da Rússia estimou que a explosão teve uma potência entre 10 e 20 quilotons. Se a estimativa mais alta for confirmada, a bomba teria poder comparável às que foram lançadas pelos EUA nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. O primeiro teste nuclear de Pyongyang teve impacto inferior a 1 quiloton, o que indica uma dramática elevação do poderio nuclear norte-coreano - 1 quiloton tem potência equivalente a 1 mil toneladas de dinamite. Pyongyang também lançou ontem três mísseis de curto alcance (131 quilômetros) e se preparava para lançar outro hoje ou amanhã.A agência oficial norte-coreana afirmou que o teste faz parte das medidas para aumentar o poder de dissuasão nuclear para autodefesa. "O atual teste nuclear foi conduzido de maneira segura em um nível mais alto em termos de poder explosivo e de tecnologia de controle, e os resultados ajudaram a resolver os problemas científicos e tecnológicos surgidos com o aumento da potência das armas nucleares e do progressivo desenvolvimento da tecnologia nuclear", dizia o texto. Pyongyang declarou ontem que o governo americano sob Barack Obama continua hostil e está preparado para enfrentar um ataque dos EUA.Aliado histórico de Pyongyang, Pequim só se manifestou no fim da tarde e disse que se opunha de maneira "resoluta" ao teste. Segundo nota da chancelaria, a Coreia do Norte "ignorou a oposição universal da comunidade internacional e uma vez mais conduziu um teste nuclear". Pequim ressaltou seu "firme e consistente" compromisso com a busca da eliminação de armas nucleares da Península Coreana, com o objetivo de manter a "paz e a estabilidade" no nordeste da Ásia.Japão e Coreia do Sul condenaram a explosão e defenderam uma resposta enfática do Conselho de Segurança. Seul divulgou uma nota criticando a decisão do país vizinho. "O teste nuclear é uma séria ameaça à paz e à estabilidade da Península Coreana e um grave desafio ao regime internacional de não-proliferação nuclear", afirma o texto. Tecnicamente, as Coreias continuam em guerra, pois o tratado que colocou fim à guerra em 1953 declarou uma trégua e não a paz. A grande dúvida é saber o que mais a comunidade internacional pode fazer contra um regime já amplamente isolado. Em 13 de abril, o Conselho de Segurança já havia condenado o lançamento de um foguete por Pyongyang oito dias antes. A Coreia do Norte assegurou que o foguete colocou um satélite de comunicação em órbita. Mas a comunidade internacional teme que Pyongyang tenha testado um míssil. A resolução teve um tom mais ameno que o proposto por EUA e aliados, por causa da oposição de China e Rússia. Ainda assim, sua aprovação enfureceu Pyongyang. Em 14 de abril, o ditador Kim Jong-il anunciou o abandono das negociações de desarmamento e a reativação de instalações nucleares que haviam sido desabilitadas. O Conselho de Segurança impôs sanções a três empresas norte-coreanas em resposta ao lançamento do foguete. Em 29 de abril, Pyongyang anunciou que realizaria testes nucleares e de mísseis intercontinentais a menos que o Conselho de Segurança se desculpasse pelas críticas e levantasse as sanções. A ameaça foi concretizada ontem, bem antes do que se esperava.

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