Korean Central News Agency via The New York Times
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Coreia do Norte divulga fotos de Kim Jong-un cavalgando em montanha

Mídia oficial informou que gesto pode significar 'uma grande operação' futura; imagens são comparadas a fotografias do presidente russo Vladimir Putin

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 18h02

SEUL - A mídia estatal da Coreia do Norte divulgou nesta quarta-feira, 16, várias fotos do líder Kim Jong-un montado em um cavalo branco, ao cavalgar na neve em uma montanha considerada sagrada pelo governo norte-coreano. Segundo a Agência Central de Notícias da Coreia, o objetivo seria divulgar “uma grande operação” que estaria por vir.

Especialistas em Coreia do Norte dizem que as imagens podem ser o sinal de algum grande anúncio de Kim. Na mitologia da Coreia do Norte, o Monte Paektu é o lar espiritual da dinastia Kim e o berço do pai de Kim Jong-un.

A Agência Central informou que “sua marcha a cavalo [de Kim Jong-un] no Monte Paektu é um evento de grande importância na história da revolução coreana. Todos os oficiais que o acompanharam até o topo da montanha sentiram uma emoção e uma alegria transbordantes e [estavam] convencidos de que haverá uma grande operação para atacar novamente o mundo com admiração, e avançar a revolução coreana um passo à frente”, consta na nota.

O governante norte-coreano teria escalado o pico de quase três quilômetros em “sapatos de couro preto brilhante” em dezembro de 2017, cerca de 10 dias após o lançamento do maior míssil balístico intercontinental do país e menos de um mês antes de fazer um discurso importante que abriu uma janela diplomática para um possível diálogo com a Coreia do Sul.

Em setembro do ano passado, Kim Jong-un levou o presidente sul-coreano Moon Jae-in ao vulcão ativo que fica na fronteira da Coreia do Norte com a China, depois de uma cúpula. Agora, Kim montou o cavalo para subir a montanha.

A mídia oficial informou que Kim subiu a montanha para relembrar “com profunda emoção o caminho de árdua luta que ele cobriu pela grande causa de construir o país mais poderoso, com fé e vontade tão firmes quanto o Monte Paektu”. Além disso, a vista panorâmica “parecia as montanhas altas e íngremes da revolução que ele tem que comandar em alto astral”, afirmou a agência.

Referências históricas

Especialistas avaliam que a viagem de Kim Jong-un ao Monte Paektu pode sinalizar um grande anúncio, no contexto da vacilante diplomacia nuclear com os Estados Unidos. A analista do site NK Pro de Seul, Rachel Minyoung Lee, afirmou ao jornal Washington Post que a cobertura da mídia estatal de Pyongyang sobre o passeio de Kim enfatiza o poder e uma linha dura contra concessões ao mundo exterior.

“A mídia estatal tem consistentemente representado a ascensão da Coreia do Norte às fileiras de estados poderosos como uma das principais realizações de Kim após o fracassado encontro de Hanói", disse a especialista, referindo-se à reunião de Kim com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em fevereiro deste ano.

Como o veículo oficial destacou o simbolismo da visita, Rachel Lee avalia que o ato seria uma meditação, sugerindo que o regime pode estar prestes a tomar decisões sobre questões-chave.

Histórias apontam que o avô de Kim Jong-un, Kim II-sung, teria sido visitado por um cavalo branco durante as batalhas contra a ocupação japonesa. Ele também era visto frequentemente montando um cavalo. Para Rachel Lee, as reportagens oficiais também sugerem semelhanças entre Kim e o avô, fundador da Coreia do Norte.

As fotos de Kim Jong-un a cavalo também são comparadas às imagens de exaltação usadas pelo presidente da Rússia,  Vladimir Putin, nas quais geralmente aparece de peito nu enquanto cavalga, nada, pesca ou pratica artes marciais.

As relações entre as duas Coreias se aprofundaram desde que Kim subiu a montanha no ano passado, ao mesmo tempo que as negociações com os Estados Unidos em Estocolmo terminaram com uma denúncia da Coreia do Norte contra Washington. Kim deu prazo aos Estados Unidos até o final do ano para mudar o que a Coreia do Norte chama de “política hostil”. Caso contrário, pode enfrentar consequências não especificadas. 

Em comentários divulgados após uma viagem a canteiros de obras no condado de Samjiyon, Kim enviou uma mensagem de desafio aos Estados Unidos e uma promessa de que seu país prosperaria apesar das sanções internacionais. Ele afirmou que a dor que as “forças hostis” lideradas pelos EUA infligiram ao povo coreano “não é mais dor, mas se transformará em raiva deles.” 

“Sempre que os inimigos tentam nos estrangular com a corrente de pressão, devemos pavimentar o caminho com nossos próprios esforços para continuar a viver bem sob a bandeira do grande espírito de autoconfiança, para que os inimigos sintam dores no estômago e na cabeça ”, continuou o ditador.

Para o especialista em economia norte-coreana da Universidade Kyungnam (Seul), Lim Eul-chul, a visita de Kim Jong-un a Samjiyon representa a tentativa de mostrar que a Coreia do Norte está firme, apesar das sanções econômicas. 

“Para o público interno, Kim pretende diminuir as expectativas de negociações nucleares com os Estados Unidos e dar um novo impulso à auto-suficiência. Para pessoas de fora da Coreia do Norte, Kim está mostrando que não cederá à pressão das sanções para fazer concessões nas negociações com Washington”, afirmou o analista. / WASHINGTON POST

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