STR/KCNA VIA KNS/AFP
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Coreia do Norte está em alerta para possível escassez alimentar, adverte Kim

Ditador emitiu um raro aviso sobre a situação, provocada por grandes inundações, a pandemia do novo coronavírus e sanções internacionais

Choe Sang-Hun, do New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 10h00

A Coreia do Norte está se preparando para uma possível crise alimentar nos próximos meses. O líder do país, Kim Jong-un, emitiu um raro alerta a respeito de uma “tensa” situação alimentar provocada por grandes inundações, a pandemia do novo coronavírus e sanções internacionais, segundo informou a mídia estatal nesta quarta-feira.

Kim convocou o Comitê Central do Partido dos Trabalhadores, que comanda o país, na terça-feira, para avaliar a situação e disse que resolver a escassez de alimentos era “prioridade máxima”, de acordo com a agência de notícias oficial.

“Em particular, a situação alimentar do povo está ficando tensa porque o setor agrícola não conseguiu completar sua produção de grãos”, teria dito Kim durante a reunião. “É essencial para todo o partido e o Estado que se concentrem na agricultura.”

Apesar de não ser segredo o fato de a economia da Coreia do Norte estar em apuros,  é incomum que seu líder tornar publicamente conhecida a escassez de comida como ele fez nesta semana.

Em sua última análise da insegurança alimentar dos países, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) alertou que, se a escassez de alimentos na Coreia do Norte não for coberta por importações ou apoio estrangeiro, “famílias podem passar por um duro período de desabastecimento entre agosto e outubro”.

O alerta do líder norte-coreano ocorre dois meses depois de ele ter ordenado que seu partido fizesse uma "movimentação intensa" para aliviar a situação econômica de seu povo. As falas de abril chamaram atenção de alguns analistas externos, já que o termo “movimentação intensa" é geralmente usado pelo Norte para se referir a crises que já foram superadas, como a fome nos anos 1990 que matou milhares de pessoas.

Até agora, nenhum sinal foi dado pela Coreia do Norte de que o país esteja em perigo de outra fome devastadora, mas repórteres sul-coreanos que monitoram preços do país vizinho afirmaram que o preço do arroz tem crescido drasticamente nas últimas semanas.

Muitos bens essenciais, como medicamentos, também estão mais escassos, à medida que a pandemia forçou a Coreia do Norte a fechar suas fronteiras com a China, seu maior parceiro comercial, como explica o editor-chefe do Asia Press International, Jiro Ishimaru, um site no Japão que monitora a Coreia do Norte com a ajuda de correspondentes clandestinos dentro do país.

Segundo Ishimaru, algumas famílias têm vendido mobília para aumentar a renda destinada à comida.

Quando Kim chegou ao poder há uma década, uma de suas primeiras promessas foi garantir que o povo “não precisaria mais apertar o cinto”. No entanto, esses planos econômicos sofreram um baque quando o crescimento do arsenal nuclear do país foi recebido com sanções internacionais.

Os esforços de Kim para levantar as sanções entraram em colpaso quando as conversas com o ex-presidente dos EUA Donald Trump foram interrompidas em 2019. Trump exigia o desmantelamento do arsenal nuclear norte-coreano antes de suspender as sanções, enquanto Pyongiang propunha medidas escalonadas dos dois lados.

Quando a pandemia e inundações afetaram o país no ano passado, Kim ordenou que a Coreia do Norte rejeitasse qualquer apoio internacional por temer que essa ajuda externa levasse a um possível surto de covid-19.

Em outubro, quando ele discursou a uma grande multidão durante um desfile militar em comemoração ao seu aniversário, Kim pareceu conter as lágrimas ao pedir desculpas por não ter melhorado a vida de seu povo. Meses depois, em janeiro, ele mais uma vez admitiu seus erros econômicos, anunciando um novo plano de cinco anos e prometendo fortalecer a capacidade nuclear e de mísseis do país.

Desde então ele tem promerido construir uma "economia autossuficiente" que produz mais bens internamente e depende menos do comércio com o mundo exterior. Na quarta-feira, a Coreia do Norte alegou que sua produção industrial havia crescido 25% este ano.

Estima-se que a produção de grãos do país teve uma queda de 4,64 milhões de toneladas em 2019 para 4,4 milhões no ano passado, segundo um relatório publicado pelo Instituto de Desenvolvimento da Coreia do Sul (KDI, em inglês) neste mês. Isso gera uma escassez geral de grãos de 1,35 milhão de toneladas neste ano. A Coreia do Norte sempre sofreu com isso, embora tenha tentado preencher a lacuna com comércio e ajuda internacional, especialmente da China.

“Neste ano, a falta de alimentos do Norte está em uma escala com a qual ele não pode lidar sozinho”, disse o autor do relatório do KDI, Kwon Tae-jin.

Para ele, a Coreia do Norte deve relaxar seu controle do mercado e pedir “apoio alimentar em larga escala” para Pequim.

O país também indicou, nesta quarta-feira, que a reunião do partido incluiria uma discussão sobre como responder aos posicionamentos do governo Biden sobre a Coreia do Norte, afirmando que a agenda inclui “analisar a situação internacional atual e a direção do nosso partido”.

Durante uma cúpula em Washington no mês passado, os presidentes Biden e Moon Jae-in, dos EUA e Coreia do Sul respectivamente, concordaram em buscar "diplomacia e diálogo" com o Norte, e em desenvolver o acordo de Cingapura de 2018, que Trump assinou com Kim. Washington disse também que adotaria uma política "equilibrada" e "prática" em relação ao país e nomeou um novo enviado especial para a Coréia do Norte. O governo de Kim ainda não respondeu às propostas.

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