KCNA via REUTERS
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Coreia do Norte exibe arsenal de mísseis em meio a impasses nas negociações com EUA

O líder do país, Kim Jong-un, diz que não acredita nas afirmações do governo Biden de que os EUA não têm planos de ofensivas contra seu país

Choe Sang-Hun, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2021 | 20h00

SEUL - A Coreia do Norte ostentou na segunda-feira seu crescente arsenal de mísseis em uma de suas maiores apresentações de equipamentos militares, uma vez que seu líder, Kim Jong-un, não acredita nas repetidas afirmações dos Estados Unidos de que o país não mantém secretamente planos de ofensivas contra Pyongyang.

A demonstração de poder ocorreu um dia depois de o Norte comemorar o 76º aniversário do partido que governa o país, o Partido dos Trabalhadores da Coreia. O país costumava celebrar esses aniversários com grandes desfiles militares. Mas este ano, em vez disso, organizou uma exibição interna do grande poder de seus mísseis na segunda-feira e, na terça-feira, a Agência Central de Notícias da Coreia do Norte (KCNA, na sigla em inglês) publicou o texto do discurso de Kim no evento. Ele prometeu aumentar ainda mais o poderio militar de seu país.

"Os EUA frequentemente sinalizam que não vão atacar nosso país, mas, com base nas ações, não há provas que nos façam acreditar nisso", disse ele.

Ele chamou os EUA de "hipócrita" por ajudarem a Coreia do Sul a reforçar seus mísseis e outras forças militares em nome da "dissuasão" da Coreia do Norte - ao mesmo tempo em que condenava o desenvolvimento do Norte e os testes de mísseis como "provocações". Ele disse que seus mísseis eram para autodefesa e paz, não para a guerra, acrescentando que não tinha intenção de desistir deles.

"Nosso inimigo é a própria guerra, não algum país ou exércitos, como a Coreia do Sul e os EUA", disse Kim. "Mas nossos esforços externos pela paz não significam, de modo algum, abrir mão de nossos direitos de autodefesa."

As fotos do evento mostravam uma série de novos mísseis que a Coreia do Norte testou ou apresentou pela primeira vez nos últimos cinco anos. A exibição incluiu o que parecia ser um míssil hipersônico, mísseis balísticos lançados por submarino e um novo míssil balístico intercontinental que ainda não foi testado e foi exibido em público pela primeira vez em um desfile militar em outubro de 2020. Este míssil parecia maior que os três mísseis de longo alcance lançados pela Coreia do Norte em 2017, antes de Kim iniciar suas conversas diplomáticas com Donald Trump, então presidente dos EUA.

Essa foi uma das maiores exibições de armas organizada pela Coreia do Norte nos últimos anos. Ela ocorreu enquanto Washington insiste repetidamente para que o país retome as negociações de desarmamento nuclear.

O governo Biden disse que as negociações podem ser realizadas "a qualquer momento, em qualquer lugar" e "sem pré-requisitos", acrescentando que os EUA "não têm intenções de ofensivas" contra o país isolado.

Mas a Coreia do Norte insiste que considerará retomar o diálogo apenas se Washington provar que não apresenta ameaças - e não apenas com palavras, mas "por meio de ações".

Essas exigências complicaram todos os esforços anteriores dos EUA e da Coreia do Sul para envolver o Norte no diálogo. Antes, os aliados tinham persuadido a Coreia do Norte a retornar à mesa de negociações, oferecendo ajuda humanitária e reduzindo ou cancelando seus exercícios militares conjuntos.

Mas várias rodadas de negociações entre a Coreia do Norte e diferentes governos dos EUA falharam em acabar com o programa de armas nucleares norte-coreano.

Kim e Trump se encontraram três vezes entre 2018 e 2019. Mas eles não chegaram a um acordo em relação a como retroceder o programa de armas nucleares do Norte. Kim ofereceu desmontar apenas uma parte das instalações nucleares de seu país em troca da revogação de sanções. Mas as negociações cessaram quando Trump rejeitou a proposta, exigindo um desmonte mais abrangente do arsenal nuclear do Norte.

Como a segunda reunião entre Kim e Trump terminou sem um acordo no início de 2019, a Coreia do Norte se recusou a iniciar outra vez as negociações. Em vez disso, o país retomou os testes com mísseis - principalmente com mísseis balísticos de curto-alcance - e revelou planos de construir o tipo de arma sofisticada que apenas as principais potências militares do mundo possuem, como um submarino de propulsão nuclear. 

No mês passado, o país realizou quatro testes de mísseis, lançando o que chamou de míssil de cruzeiro estratégico de longo alcance e um míssil hipersônico.

A exibição militar tinha a intenção de reassegurar aos norte-coreanos que o poderio militar de seu país tem sido ampliado rapidamente sob o governo de uma década de Kim. Nela foi possível ver um novo tanque, assim como novos mísseis de combustível sólido acoplados a lançadores móveis que o Norte tem testado desde 2019. Os mísseis de combustível sólido representam grandes avanços na tecnologia de mísseis do Norte porque são mais fáceis de transportar e esconder, além de precisarem de menos tempo para serem preparados para o lançamento.

A demonstração de poder acontece em um momento em que a economia de Pyongyang tem sido enfraquecida pela pandemia e pelos anos de sanções internacionais.

Do lado de fora do salão de exposições, soldados norte-coreanos exibiram suas habilidades em artes marciais enquanto um esquadrão da Força Aérea sobrevoava a área, deixando rastros de fumaça vermelha, azul e amarela, mostraram as fotos divulgadas pela agência estatal. Paraquedistas realizaram saltos com a bandeira do Partido dos Trabalhadores da Coreia.

"Somos uma potência nuclear com autossuficiência", lia-se em uma grande faixa. Outra dizia "Somos uma grande potência de mísseis". /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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