Coreia do Norte quer impor acordo de paz aos EUA, dizem analistas

Com a saúde fragilizada, Kim Jong-il usa programa nuclear como garantia de continuidade do regime comunista

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

A recente escalada retórica e militar da Coreia do Norte deixa claro que o país dirigido pelo ditador Kim Jong-il continuará com seu programa nuclear, que deverá ter como próximos passos um novo teste atômico e o desenvolvimento de mísseis balísticos de longo alcance, afirmam especialistas ouvidos pelo Estado.A rapidez com que os fatos recentes se sucederam mostra ainda que Kim tem pressa. Aos 67 anos e com a saúde fragilizada, ele teria como objetivo principal garantir a continuidade do regime comunista, para o qual o poder de dissuasão das armas nucleares seria essencial.Ao fortalecer seu poderio militar, os norte-coreanos tentam forçar os EUA a negociarem um acordo de paz que coloque um fim formal à Guerra da Coreia (1950-1953), que terminou com uma trégua - tecnicamente, os dois países ainda estariam em confronto. O tratado teria a garantia de que a Coreia do Norte não seria invadida pelos americanos. "Kim Jong-il quer normalizar o relacionamento com os EUA enquanto estiver vivo e quer que a questão da Coreia do Norte suba para o topo da agenda externa do presidente Barack Obama. Ele não está blefando", disse ao Estado o professor Phillip Park, do Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Universidade Kyungnam, da Coreia do Sul.Segundo ele, Pyongyang vê os EUA como o maior obstáculo para seu desenvolvimento econômico e político, além de ser a principal ameaça externa ao regime totalitário. Geun Lee, professor da Universidade Nacional de Seul, está convencido de que a Coreia do Norte pretende obter o status de potência nuclear e assumir uma posição similar à do Paquistão. "Será muito difícil convencê-los a abandonar seu programa com o uso de sanções ou resoluções do Conselho de Segurança da ONU", disse Lee.Em sua opinião, o desenvolvimento do programa nuclear cumpre duas funções: evitar um ataque contra o país e fortalecer a posição do provável herdeiro de Kim Jong-il - seu filho Kim Jong-un - no processo de sucessão. "Ele busca segurança, tanto interna quanto externamente.""Sob a ótica da Coreia do Norte, os benefícios com a continuidade do programa nuclear são maiores do que as perdas", afirma Shen Dingli, professor da Universidade Fudan, de Xangai. Para ele, o próximo teste atômico de Pyongyang ocorrerá em um prazo menor que os três anos que separaram o primeiro do segundo, realizado há uma semana. "Não é apenas uma necessidade técnica, mas também política", escreveu Dingli em artigo publicado no jornal Oriental Morning Post.MÍSSIL BALÍSTICOA mais recente explosão subterrânea da Coreia do Norte envolveu um artefato com potência estimada entre 10 e 20 quilotons, força comparável às bombas que os EUA jogaram sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Além de um novo teste nuclear, o país também poderá lançar um míssil balístico intercontinental com capacidade de alcançar os EUA. Esse estágio daria a Pyongyang o poder de transportar uma bomba nuclear e direcioná-la a um alvo distante. O primeiro míssil lançado pelo regime de Kim Jong-il, em 1998, alcançou 1.600 quilômetros. Em 5 de abril, o país disparou um foguete que voou cerca de 3.200 quilômetros e provocou a condenação do Conselho de Segurança da ONU. Para atingir o território continental americano, o alcance teria de ser de cerca de 10 mil quilômetros.A probabilidade de uma guerra na região é considerada pequena, mas os analistas acreditam que poderá haver confrontos isolados no mar, como já ocorreu em 1999 e 2002, quando navios das duas Coreias se enfrentaram em curtas batalhas navais.Na avaliação de Park, a guerra não é uma opção viável para os EUA, já que a Coreia do Norte teria condições de provocar danos em outras partes do mundo - um risco que Washington não pode correr. "Eles são um inimigo mais forte que o Afeganistão ou o Iraque e não têm medo do confronto."O caminho que Park defende é a negociação direta entre Washington e Pyongyang para a normalização das relações entre os dois países e a assinatura de um tratado de paz. Essa trilha foi percorrida durante o governo Bill Clinton, que chegou a cogitar uma visita à Coreia do Norte, ideia abandonada em 2000 diante da oposição do então presidente eleito George W.Bush.Apesar de ser favorável à negociação, Park avalia que a tese mais aceita em Washington hoje é a que defende "ignorar" a Coreia do Norte, já que o cenário atual continuará inalterado. "Se essa política prevalecer, acredito que a situação ficará cada vez mais difícil", afirmou Park.

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