Coreia do Norte revoga armistício que pôs fim à guerra com vizinho do Sul

'Provocação'. Decisão de não respeitar mais a trégua de 1953 foi anunciada em retaliação aos exercícios militares que as forças sul-coreanas e dos EUA realizam e Pyongyang considera como sendo preparativos para um ataque contra seu território

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2013 | 02h14

A Coreia do Norte anunciou ontem que deixará de reconhecer o armistício que colocou fim à Guerra da Coreia, em 1953, caso Estados Unidos e Coreia do Sul mantenham exercícios militares conjuntos que começaram na sexta-feira e deverão durar dois meses. Pyongyang considera as manobras uma preparação para a invasão de seu território e uma provocação dos adversários que enfrentou no conflito encerrado há quase 60 anos.

As ameaças norte-coreanas foram divulgadas horas antes de o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) se reunir em Nova York para discutir novas sanções contra o regime de Pyongyang, em represália ao teste nuclear realizado no dia 12 - o terceiro desde 2006 e o primeiro sob o comando de Kim Jong-un, que chegou ao comando do isolado país há pouco mais de um ano.

Com participação de 200 mil soldados sul-coreanos e 10 mil americanos, os exercícios militares estão entre os maiores do mundo e se repetem todos os anos. Seu principal objetivo é conter a Coreia do Norte, uma potência nuclear com a qual ambas as nações continuam tecnicamente em conflito.

Os envolvidos na Guerra da Coreia nunca chegaram a assinar um acordo de paz e colocaram fim ao conflito apenas com a assinatura de um armistício, que a Coreia do Norte ameaça rejeitar a partir do dia 11, caso as manobras militares conduzidas por Seul e Washington não sejam suspensas.

Nessa hipótese, Pyongyang afirmou que deixará de atuar nos termos do acordo e poderá realizar ataques militares contra alvos específicos para concretizar a reunificação com o Sul - a Península Coreana foi divida em áreas de influência da ex-União Soviética e dos EUA no fim da 2.ª Guerra.

O regime norte-coreano afirmou ainda que poderá suspender a linha direta de comunicação com Washington na zona desmilitarizada de Panmunjom, o único canal institucional de diálogo entre os dois países.

Insatisfação. Shi Yonhang, da universidade chinesa Fudan, e Paik Hak-soon, do sul-coreano Sejong Institute, afirmaram que a retórica da Coreia do Norte não pode ser interpretada como uma real declaração de guerra.

"A intenção é despertar a atenção internacional, mostrar uma posição de força em relação aos EUA e à Coreia do Sul e forçar os EUA a negociar e a admitir a Coreia do Norte no palco internacional", disse Shi ao Estado.

Na opinião de Paik, Pyongyang quis demonstrar sua extrema insatisfação com os exercícios militares, vistos pelo país como um ato de provocação. Segundo ele, é pouco provável que o regime de Kim Jong-un adote medidas concretas que levem à retomada do conflito, especialmente no momento em que as forças militares da Coreia do Sul e dos EUA estão em estado de alerta máximo na região.

"Todas as vezes que a Coreia do Norte enfrenta sanções ou pressões da comunidade internacional, reage dessa maneira, blefando", observou Shi. Em sua opinião, a intenção de Pyongyang não é provocar a guerra, mas a evitar. "É a maneira de o país se proteger."

A retórica e as ações da Coreia do Norte tornaram-se cada vez mais belicosas a partir de abril de 2009, quando o Conselho de Segurança da ONU censurou o fracassado lançamento de um foguete que, segundo Pyongyang, tinha o objetivo de colocar um satélite em órbita. Para os americanos e seus aliados no organismo, o disparo foi um teste disfarçado de míssil balístico.

Em resposta à censura, a Coreia do Norte abandonou em 14 de abril de 2009 as negociações sobre o desmantelamento de seu programa nuclear que eram mantidas com EUA, Coreia do Sul, Japão e Rússia, sob o comando da China.

Dias depois, o país expulsou inspetores estrangeiros de seu território e informou à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), braço da ONU que cuida de fiscalizar o setor nuclear, que retomaria sua atividade na área.

No mês seguinte, realizou seu segundo teste nuclear. O Conselho de Segurança respondeu com uma nova leva de sanções econômicas contra o país, ampliando as que já haviam sido adotadas por ocasião do primeiro teste nuclear, em 2006.

A Coreia do Norte ampliou sua capacidade militar em dezembro, com o bem-sucedido lançamento de um foguete para colocação de um satélite em órbita, depois de uma tentativa fracassada em abril.

Os americanos e seus aliados sustentaram mais uma vez que se tratava de um teste de míssil balístico, já que a tecnologia de foguetes destinados ao lançamento de armas nucleares é semelhante à dos destinados ao transporte de satélites.

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