Coreia do Norte testou 1ª bomba atômica em 2006

Explosão foi 20 vezes menor do que a realizada nesta segunda; artefato não tinha como ser levado em míssil

25 de maio de 2009 | 14h32

Em desafio a comunidade internacional, a Coreia do Norte realizou em outubro de 2006 o primeiro teste nuclear de sua história. A notícia de que Pyongyang tinha cumprido a ameaça feita de detonar uma bomba atômica foi divulgada primeiro pela Coreia do Sul, que detectou a explosão através do centro de vigilância sísmica do país.

 

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Na ocasião, o governo norte-coreano disse que o teste subterrâneo foi um sucesso e que não houve qualquer vazamento de radiação. Segundo informações de especialistas militares russos, a bomba nuclear que a Coreia do Norte anunciou e que provavelmente foi testada poderia matar 200 mil pessoas, se jogada sobre uma metrópole asiática. A bomba norte-coreana não poderia ser instalada nos mísseis que Pyongyang possui atualmente, segundo os russos. Os testes seriam subterrâneos, 1,5 quilômetro abaixo no nível do solo.

 

Cientistas americanos identificaram vestígios de gás radioativo no ar perto do local onde teria ocorrido o teste nuclear. Um eventual teste na superfície geraria a destruição de tudo numa área de 8 quilômetros quadrados. O teste subterrâneo realizado pela Coreia do Norte na ocasião foi cuidadoso, feito em uma área montanhosa, marcada por profundas formações rochosas.

 

Com cerca de 3,4 metros e quase 4 toneladas, bomba norte-coreana testada em 2006 não poderia ser acomodada em um míssil. Para ser acomodado na ogiva do míssil Taepodong, de longo alcance, precisaria diminuir de tamanho, chegar até 2 metros e perder 2 mil quilos. A detonação rendeu cerca de um terço da capacidade projetada, cerca de 20 quilotons, segundo os serviços de inteligência da Rússia. Um quiloton equivale a 1.000 toneladas de explosivo convencional. Na eventualidade de que tenha chegado a produzir 15 quilotons, poderia devastar uma área do tamanho da ilha de Manhattan, em Nova York. Com 5 quilotons, seria uma arma tática, para uso em zonas de combate, contra grandes concentrações de pessoal e equipamentos do inimigo, por exemplo.

 

A maioria dos especialistas em armamentos nucleares acreditava que o país não tinha um programa nuclear ativo - pelo menos até 1994, quando se assinou um tratado de suspensão de pesquisas relativas a esse tipo de armamentos. Mas, em dezembro de 2002, Pyongyang reativou o seu reator nuclear em Yongbyon e expulsou do país dois monitores nucleares das Nações Unidas.

 

A carga da arma era uma esfera metálica, de alta densidade e do tamanho de uma

laranja. A explosão atômica começa com a detonação de uma espécie de capa, formada por placas, geralmente de desenho sextavado e absolutamente iguais, de agentes químicos de ruptura. Cada seção da cobertura, ligada a um complexo gatilho eletrônico, é disparada simultaneamente de todas as direções, provocando uma enorme onda de pressão - entre 8.500 e 12.000 metros por segundo - sobre a bola de plutônio, que entra em fissão, liberando extraordinárias quantidades de energia; térmica principalmente.

 

Histórico

 

Os esforços diplomáticos dos EUA para conter as ambições nucleares da Coreia do Norte foram iniciados na década de 1980. Em 1985, o governo de Pyongyang aderiu ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e seis anos mais tarde as Coreias do Norte e do Sul assinaram uma declaração para livrar a Península Coreana de armas nucleares.

 

No entanto, em 1992, os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) descobriram discrepâncias no relatório norte-coreano sobre seu programa nuclear. As investigações da agência da ONU certificaram que a Coreia do Norte não estava cumprindo o TNP e posteriores investigações da inteligência dos EUA indicaram que Pyongyang teria entre uma e duas bombas nucleares.

Em 1994, após quatro meses de negociações, a Coreia do Norte concordou em congelar seu programa nuclear e aceitar as inspeções da AIEA para receber, em troca, dois reatores de água leve (com menos risco de serem usados em armas nucleares) e suprimentos de petróleo até a construção dos reatores. Mas, oito anos após o acordo, os reatores ainda não tinham sido construídos.

 

Os EUA, dizendo ter evidências de que a Coreia do Norte tinham um programa secreto de enriquecimento de urânio, suspenderam o envio de petróleo. Pyongyang expulsou os inspetores da AIEA e reativou seu reator de Yongbyon para, segundo o governo, gerar energia. Desde então, negociações foram mantidas, em meio a acusações entre EUA e a Coreia, sem que um acordo tenha sido obtido sobre o desmantelamento do programa nuclear norte-coreano.

 

A Coreia do Norte não deu detalhes da localização do teste nuclear. Mas representantes da Coreia do Sul disseram que o abalo sísmico desta segunda-feira foi detectado na região nordeste, perto da cidade de Kilju, onde os norte-coreanos realizaram o primeiro teste nuclear.

 

No mês passado, Pyongyang retirou-se da conversação multilateral (envolvendo Estados Unidos, China, Japão, Rússia e as duas Coreias) sobre seu programa nuclear, em protesto contra a condenação internacional do lançamento de um foguete no dia 5 de abril. O governo norte-coreano disse que o foguete transportava um satélite, mas vários países acreditam que se tratou de um acobertamento para o teste de um míssil. As conversações multilaterais emperraram porque a Coreia do Norte não confirmou o fechamento da usina nuclear de Yongbyon.

 

A Coreia do Norte concordou em desmantelar a usina como parte de um acordo que previa a concessão de ajuda internacional e, em resposta, os Estados Unidos retiraram a Coreia do Norte de sua lista de terrorismo.

 

(Com Roberto Godoy, de O Estado de S. Paulo)

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