KCNA via REUTERS
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Coreia do Norte volta ao jogo de gato e rato para demonstrar força

Lançamento de dois mísseis nesta semana foi a primeira provocação significativa contra o governo de Joe Biden

Choe Sang-Hun / The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 20h00
Atualizado 25 de março de 2021 | 21h06

SEUL - A Coreia do Norte emitiu advertências por mais de uma semana. Jurou que o governo de Joe Biden pagaria um "preço", acusou-o de criar "um fedor" na Península Coreana e chamou o esforço de Washington para abrir um canal de comunicação um "truque", prometendo lidar com os Estados Unidos "de potência para potência." Agora, parece que a Coreia do Norte acabou de falar.

Na quinta-feira e sexta-feira (hora local, quarta e quinta-feira de Brasília), emitiu seu último alerta ao lançar dois mísseis balísticos de curto alcance na costa leste e um novo "projétil tático guiado" com um motor de combustível sólido - o primeiro teste desse tipo pelo país em um ano e sua primeira provocação significativa contra os EUA sob o governo do presidente Joe Biden.

O lançamento, que desafiou a proibição do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre os testes de mísseis balísticos pela Coreia do Norte, indicou que o país estava mais uma vez recorrendo a uma demonstração de força, aumentando as tensões para ganhar vantagens enquanto o governo Biden finaliza sua revisão de política para a Coreia do Norte.

O teste também foi visto como um sinal para Washington de que Pyongyang realizará testes mais provocativos, envolvendo mísseis de longo alcance, se interpretar a política de Biden como “irracional”.

“A Coreia do Norte usa testes de armas estrategicamente, tanto para fazer as melhorias necessárias em suas armas quanto para atrair atenção global”, disse Jean H. Lee, especialista da Coreia do Norte no Woodrow Wilson International Center for Scholars. “Com os Estados Unidos insinuando que buscarão endurecer o regime de sanções, a Coreia do Norte buscará expandir seu arsenal intensificando os testes”.

O governo Biden está analisando se vai lidar com as crescentes ameaças nucleares e de mísseis da Coreia do Norte com mais sanções, uma nova rodada de diálogo ou uma mistura de ambos. À medida que a revisão da política continua - e aumenta a possibilidade de que o governo Biden abandone a diplomacia do presidente Donald Trump - a Coreia do Norte parece estar "voltando a um padrão familiar de usar provocações para aumentar as tensões", disse Lee.

As manobras do Norte deixam o governo Biden com uma escolha difícil. Mesmo que envolva a Coreia do Norte em outra rodada de negociações, não há garantia de que o país abrirá mão de seu arsenal nuclear, que continuou a se expandir nos últimos anos.

Em outubro, a Coreia do Norte exibiu o que parecia ser seu maior míssil balístico intercontinental durante um desfile militar noturno em Pyongyang. Hackers norte-coreanos roubaram US$ 316,4 milhões entre 2019 e novembro de 2020, atacando instituições financeiras e casas de câmbio virtuais para arrecadar dinheiro para seus programas de armas, de acordo com diplomatas da ONU familiarizados com o assunto.

Autoridades americanas temem que a Coreia do Norte use mais negociações para ganhar tempo para aperfeiçoar suas capacidades nucleares. Mas mais pressão dos Estados Unidos provavelmente levará a Coreia do Norte a tentar lançamentos de mísseis mais provocativos e, possivelmente, empurrar a Península Coreana à beira da guerra, como fez em 2017.

O regime em Pyongyang, que vê seu líder, Kim Jong-un, como uma figura divina, responde fortemente a qualquer possível desprezo dos EUA. O teste de míssil balístico na quinta ocorreu um dia depois que autoridades dos Estados Unidos consideraram um teste anterior de míssil norte-coreano como "atividade militar normal".

Esse teste, que ocorreu no domingo, envolveu dois mísseis de cruzeiro de curto alcance. Biden disse que isso não criou "nenhuma nova rusga". “Este último lançamento de míssil norte-coreano é provavelmente uma reação ao fato de o presidente dos EUA Joe Biden minimizar e parecer rir de seus testes de mísseis de fim de semana”, disse Harry J. Kazianis, diretor sênior de estudos coreanos do National Interest em Washington.

A Coreia do Norte conduziu seus últimos grandes testes de armas no final de 2017, quando lançou um míssil balístico intercontinental que disse ser poderoso o suficiente para lançar uma ogiva nuclear nos EUA. Em seguida, absteve-se de testes de mísseis enquanto Kim se engajava em diplomacia com Trump.

Após o colapso de uma cúpula Kim-Trump sem acordo em Hanói em fevereiro de 2019, a Coreia do Norte retomou uma série de testes de mísseis balísticos de curto alcance de maio de 2019 até março do ano passado, quando os testes foram interrompidos em meio à pandemia do coronavírus.

Trump rejeitou esses testes de curto alcance, proclamando o fim dos testes de mísseis de longo alcance da Coreia do Norte como uma de suas maiores conquistas de política externa. Conforme os detalhes da política do governo Biden para a Coreia do Norte forem disponibilizados nas próximas semanas, o país deve retomar o aumento das tensões, disseram analistas.

“(Kim) irá mantê-lo durante a escalada gradativa culminando em uma demonstração enfática de força”, potencialmente incluindo o teste de vôo de um novo, maior e ainda não testado míssil balístico intercontinental que a Coreia do Norte exibiu durante um desfile militar em outubro passado, disse Lee Sung-yoon, um especialista da Coreia do Norte na Escola Fletcher da Universidade Tufts.

Em uma reunião do partido em janeiro, Kim prometeu avançar ainda mais as capacidades nucleares de seu país, declarando que construiria um novo míssil balístico intercontinental de combustível sólido e tornaria suas ogivas nucleares mais leves e precisas. Ele chamou o estabelecimento de uma força nuclear na Coreia do Norte de "um objetivo estratégico e predominante" contra os adversários.

Kim também disse que sua política externa se concentraria em "conter e subjugar" os Estados Unidos, "nosso principal inimigo". Ele ressaltou que sua política “nunca mudará, seja quem for que chegue ao poder nos EUA”.

E, nos últimos dias, a Coreia do Norte deixou bem claro seu aborrecimento com o governo Biden. Na semana passada, Kim Yo-jong, irmã de Kim e sua porta-voz nas relações com Washington e Seul, acusou os Estados Unidos e a Coreia do Sul de criarem “um fedor” na Península Coreana com seus exercícios militares anuais. A Coreia do Norte também disse que não sentia necessidade de responder às recentes tentativas do governo Biden de estabelecer um diálogo, descartando-as como um "truque do retardamento".

Na sexta-feira, depois que um empresário norte-coreano foi extraditado da Malásia para ser julgado em um tribunal americano sob a acusação de lavagem de dinheiro e violação de sanções internacionais, a Coreia do Norte avisou que Washington pagaria "o preço devido". A série de declarações deixou funcionários e analistas se perguntando o que viria a seguir.

Com seu teste de mísseis na quinta, "a Coreia do Norte estava acompanhando o aviso de Kim Yo-jong", disse Cheong Seong-chang, pesquisador sênior do Instituto Sejong, um centro de estudos perto de Seul.

Os analistas estão observando de perto Washington para ver se a abordagem de Biden para a Coreia do Norte se afastará do envolvimento mais direto favorecido por Trump e em direção à "paciência estratégica" do presidente Barack Obama, o que significa uma escalada gradual das sanções.

Quando o secretário de Estado Antony J. Blinken esteve em Seul na semana passada, ele disse que a revisão da política incluía “opções de pressão e potencial para futura diplomacia” e que seria concluída em estreita coordenação com a Coreia do Sul e o Japão. Também pediu que a China use sua vasta influência econômica sobre a Coreia do Norte para ajudar a reverter seu programa de armas nucleares.

As autoridades americanas frequentemente reclamam que a China não conseguiu reprimir as evasões às sanções norte-coreanas que ocorrem em águas territoriais chinesas. Também disseram que a China provavelmente estava ajudando a Coreia do Norte com o roubo cibernético que usou para financiar seu programa nuclear nos últimos anos.

Mas o teste do míssil na quinta-feira mostrou que a influência da China na Coreia do Norte permanece "limitada", disse Cheong. “A Coreia do Norte acredita que se os Estados Unidos tentarem impor sanções, a China dará cobertura para isso”, disse. 

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