Yonhap/AP
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Coreia do Sul ameaça retaliar ataque norte-coreano que matou 2 soldados

SEUL

AP, REUTERS e NYT, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

A Coreia do Norte disparou ontem cerca de 200 peças de artilharia contra a Ilha de Yeonpyeong, da Coreia do Sul. O bombardeio incendiou quase 70 casas, matou 2 soldados sul-coreanos e deixou outros 14 feridos. Militares em Seul entraram em alerta máximo. Tropas dos dois países trocaram disparos e o enfrentamento foi considerado um dos mais grave desde o fim da Guerra da Coreia (1950-1953).

Imediatamente após o ataque, o presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, reuniu-se com ministros e assessores no palácio presidencial e ordenou que "novas provocações" fossem respondidas com ataques às bases de mísseis norte-coreanas e suspendeu a ajuda ao país vizinho.

Falando a jornalistas, Lee prometeu "uma resposta firme". "Foi uma invasão do território sul-coreano", afirmou o presidente. A Ilha de Yeonpyeong fica a apenas 120 quilômetros da capital, Seul. Desde que foi eleito, há cerca de três anos, a Coreia do Sul adotou uma política dura em relação ao Norte. "Foi um ataque intencional e planejado. É claramente uma violação do armistício (de 1953, que interrompeu a Guerra da Coreia)", declarou Lee Hong-ki, chefe de operações do Exército sul-coreano.

A resposta à reação sul-coreana foi imediata. A KCNA, agência da Coreia do Norte, afirmou que Pyongyang atacaria "sem piedade" caso as forças sul-coreanas avançassem "um milímetro" em águas norte-coreanas.

Pyongyang também culpou Seul pelo incidente. A Coreia do Sul reconheceu que fez alguns disparos na região, mas negou que tivessem atingido o país vizinho. A região de Yeonpyeong foi palco de ao menos quatro conflitos recentes entre as Marinhas do Norte e do Sul: em 1999, em 2002, em 2009 e em março, quando os norte-coreanos afundaram a corveta sul-coreana Cheonan, matando 46 marinheiros.

Condenações. EUA, Grã-Bretanha, Japão, China, Brasil e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, condenaram o ataque. Mas o presidente do Conselho de Segurança, o britânico Mark Lyall Grant, disse que o órgão não se reuniria em razão do bombardeio. O aumento da tensão na Península Coreana também ajudou a derrubar as principais bolsas asiáticas.

As duas Coreias ainda estão tecnicamente em guerra, já que o conflito terminou com um armistício, e não após a assinatura de um acordo de paz. Desde o torpedeamento do Cheonan, a tensão na região aumentou, principalmente por causa da sucessão de Kim Jong-il, líder supremo da Coreia do Norte. O processo sucessório acelerou-se em setembro, após a promoção a general de Kim Jong-un, de 27 anos, terceiro filho do líder supremo. Segundo analistas, uma das explicações do ataque estaria no fato de Kim precisar fortalecer a posição de seu herdeiro. O bombardeio serviria como demonstração de força do regime diante de uma crise internacional, que lhe renderia o apoio da população e a lealdade dos militares.

Uma segunda linha de raciocínio justifica a escalada da tensão como sendo reflexo do crescente isolamento da Coreia do Norte, cujo governo mantém gastos militares e um caro programa nuclear ao mesmo tempo em que mal consegue alimentar a população.

"O Norte reage sempre agressivamente todas as vezes que se sente ameaçado", disse Yang Moonjin, professor de estudos norte-coreanos da Universidade de Seul. "Pyongyang está enviando, para americanos e sul-coreanos, a mensagem de que o país nunca se renderá." Nesse caso, o governo norte-coreano estaria tentando chamar a atenção de Washington e forçar uma negociação bilateral. O objetivo, segundo especialistas, seria obter ajuda financeira em troca do fim de seu programa nuclear ou garantias de que os EUA não desestabilizariam um eventual governo do filho de Kim.

Mas, até o momento, a opção de negociar com o regime norte-coreano foi rejeitada pelos americanos, tanto no governo do republicano George W. Bush quanto no do democrata Barack Obama. O general americano Walter Sharp, que comanda as forças americanas e da ONU na Coreia do Sul condenou o ataque e disse que ações como essa ameaçam a paz e a estabilidade na região.

SEIS DÉCADAS DE CONFRONTOS ENTRE AS COREIAS

1953

Guerra termina sem acordo de paz formal

1968

Pyongyang tenta matar o líder sul-coreano Park Chung-hee

1998

Coreia do Norte testa seu 1º míssil de longo alcance

2010

Seul acusa Pyongyang de afundar navio com 46 marinheiros

2009

2º teste nuclear e renúncia de Pyongyang ao armistício de 1953

2006

Coreia do Norte realiza o seu primeiro teste nuclear

2000

Primeiro encontro entre líderes do Norte e do Sul

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