EFE/EPA/LEE KI-TAE
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Coreia do Sul tenta resolver problema da corrupção mas deixa de proteger quem denuncia

Promotores examinam cada vez mais a conduta dos executivos de corporações, mas acabam não dando suporte aos que relatam os casos

Choe Sang Hun, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2016 | 11h08

SEUL - A corrupção está se tornando uma questão premente na Coreia do Sul à medida que o crescimento econômico diminui e as pessoas começam a exigir padrões mais elevados de seus líderes e das grandes empresas. Depois de uma série de escândalos de corrupção envolvendo promotores e juízes, os partidos de oposição estão pedindo ao governo a criação de uma agência independente para investigar a corrupção entre os servidores públicos mais antigos.

Em setembro, entrou em vigor uma nova lei que, entre outras coisas, proíbe servidores públicos, professores e jornalistas de aceitarem refeições de valores maiores do que US$ 27 para prevenir conflitos de interesses. Enquanto isso, os promotores estão cada vez mais examinando a conduta dos executivos das corporações.

Para que esses esforços tenham resultado, segundo aqueles que os apoiam, é crucial dar suporte aos que fazem as denúncias. O governo já incentiva que caçadores de recompensas revelem, por meio de gravações, as evidências que colecionam de pequenos crimes e infrações graves, como suborno. O grupo cívico Fundação Horuragi e outros estão fazendo pressão no Parlamento para aumentar a cobertura das leis de proteção para os delatores atuais, que não são tão amplas quanto nos EUA e em outros países.

Mas os grupos acreditam que o progresso será lento em razão do amplo bloqueio político e das atitudes arraigadas em relação aos denunciantes, especialmente entre os funcionários do governo e os executivos de empresas. “Eles fazem o que for preciso para encontrar uma desculpa para expulsar aqueles que denunciam”, diz Lee Young-kee, advogado que lidera a Fundação Horuragi.

A antiga ditadura militar da Coreia do Sul originou uma rígida cultura hierárquica de trabalho que dificulta as denúncias. Com a “lealdade à organização” defendida como um valor importante, a denúncia é vista como uma traição. As regras foram rotineiramente ignoradas para se atingir os objetivos da administração, mas poucos acusavam os colegas porque a vida no escritório girava em torno das conexões na cidade natal, nas famílias e nas escolas, reforçadas por meio do nepotismo e de jantares caros.

Em uma pesquisa feita em 2013 com 42 denunciantes, a Fundação Horuragi descobriu que 60% deles foram demitidos depois de expor a corrupção em suas organizações. Essas pessoas relataram estresses financeiros, divórcios e impulsos suicidas por terem sido relegados ao ostracismo por seus colegas e assediados com difamação e outros processos pelos gerentes. Seus nomes também entraram em listas negras, tornando mais difícil encontrar empregos em suas áreas de atuação, segundo a pesquisa.

Em 1992, em um dos primeiros casos de denúncia na Coreia do Sul já democrática, um tenente do Exército revelou a manipulação de votos no quartel durante as eleições parlamentares. Ele foi rebaixado a soldado e demitido por desonra. Em 2003, quando quatro funcionários da Cruz Vermelha revelaram que seu grupo enviava sangue contaminado com o vírus da Aids, da hepatite e da malária para hospitais, a Cruz Vermelha o reprimiu por “comportamento desordeiro”.

Em 2005, um professor foi demitido depois de expor colegas de trabalho que estupraram estudantes surdos e com deficiências mentais. Ele só conseguiu seu emprego de volta após uma longa batalha judicial. Três anos depois, em razão das denúncias de Kim Yong-chul, um ex-assessor jurídico da Samsung, o maior conglomerado da Coreia do Sul, os investigadores descobriram 4,5 trilhões de uones (US$ 4 bilhões) que seu presidente, Lee Kun-hee, mantinha escondidos no nome de seus ajudantes e o condenaram por evasão fiscal. A Samsung transformou Kim em um vilão, dizendo que era um ex-funcionário que não merecia confiança. Mais tarde, Kim escreveu um livro sobre a empresa.

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