Korea Summit Press Pool via AP
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Coreias prometem firmar paz este ano e desnuclearizar região, sem dizer como

Declaração assinada após cúpula histórica de Kim Jong-un e Moon Jae-in estabelece meta comum de 'uma península livre de armas nucleares', mas analistas duvidam do compromisso de Pyongyang

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2018 | 10h13

SEUL - Em uma reunião de cúpula histórica, marcada pelo simbolismo e referências à identidade comum, os líderes das duas Coreias prometeram nesta sexta-feira, 27, trabalhar pela “completa desnuclearização” da península e a aprovação, ainda neste ano, de um acordo de paz que coloque fim oficial à Guerra da Coreia (1950-1953). Não há referência de como o Norte eliminaria seu arsenal nuclear, promessa feita em outras ocasiões.

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No comunicado assinado pelo presidente sul-coreano, Moon Jae-in, e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, também não há menção ao preço que será cobrado por Pyongyang nem uma definição clara do que significa “desnuclearização”. Com isso, os temas mais espinhosos serão tratados na reunião de cúpula que Kim terá com o presidente dos EUA, Donald Trump, em data ainda a ser definida. 

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“A declaração é bastante semelhante à que os dois países aprovaram em 2007, na qual também falaram na busca de um acordo de paz”, disse Mark Tokola, vice-presidente do Korean Economic Institute of America. Em um sinal das potenciais divergências em torno do significado de “desnuclearização”, ele observou que a agência oficial norte-coreana descreveu o encontro como uma discussão sobre o fim das armas nucleares em todo o mundo, o que não está nos planos dos americanos.

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Ainda assim, Tokola ressaltou que o simbolismo e os gestos são importantes. “Havia uma atmosfera de ‘nós somos todos coreanos’, que ajudou a criar um clima de cooperação.”

Depois de um ano em que foi acusado de mandar matar seu meio-irmão com armas químicas e foi tratado como um pária por intensificar seus testes nucleares, Kim usou a cúpula para reforçar a nova face diplomática que cultiva desde seu discurso de ano-novo, no qual declarou a intenção de enviar uma delegação para a Olimpíada de Inverno na Coreia do Sul. Foi a senha para a reaproximação entre Pyongyang e Seul.

“Vim para pôr um fim à história de confrontação”, disse Kim durante o encontro com Moon. Os dois lados decidiram dar passos nessa direção, ainda que simbólicos, e concordaram em acabar com as transmissões e distribuição de folhetos de propaganda na direção do outro lado da fronteira. Antes do encontro, os líderes já haviam criado uma linha direta de comunicação, que prometeram usar com frequência a partir de agora.

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No jantar, as delegações dos dois países cantaram a canção folclórica Arirang, que tem centenas de anos e é considerada um hino informal da Coreia. A sobremesa que foi servida estava decorada com um mapa da península unificada, aspiração pela qual os dois lados prometeram trabalhar. 

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“Apesar da atmosfera positiva do encontro, o que está faltando nessa cúpula é uma clara indicação de qual a posição de Kim em relação à desnuclearização e se ele está disposto a abrir mão de suas armas nucleares desta vez ou se está interessado em “alugar” temporariamente um congelamento em troca de alívio de sanções, assistência energética e redução da pressão”, escreveu Victor Cha, do Center for Strategic & International Studies, que chegou a ser cotado por Trump para ser embaixador em Seul.

A Coreia do Norte prometeu acabar com seu programa nuclear no passado, mas nunca cumpriu o compromisso, apesar do recebimento de ajuda econômica dos EUA e do Sul. Em seu discurso de ano-novo, Kim disse ter atingido o objetivo de desenvolver um arsenal nuclear.

Na avaliação de Tokola, seu principal objetivo agora é o desenvolvimento econômico da Coreia do Norte e a redução da disparidade entre os dois lados da península. Em um gesto raro em representantes de sua dinastia, Kim reconheceu a precariedade da infraestrutura de seu país, segundo relato do porta-voz de Moon, especialmente quando comparada aos trens rápidos do país vizinho. Depois de o sul-coreano mencionar a visita que fará a Pyongyang, Kim observou: “Vai ser muito embaraçoso. O sistema de transportes não é bom.”

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