KCNA/via REUTERS
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Coreias retomam diálogo após 2 anos e reduzem tensão sem consultar os EUA

Seul e Pyongyang se reúnem em vilarejo de Panmunjon para discutir participação de patinadores norte-coreanos na Olimpíada de Inverno; expectativa, porém, é a de que reunião sirva como pretexto para abrir canal de negociação

O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2018 | 21h16

Pela primeira vez em dois anos,  Coreia do Norte e a Coreia do Sul vão ter um encontro diplomático para discutir a participação do país liderado por Kim Jong-un na Olimpíada de inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul. A expectativa é a de que a reunião sirva para abrir um canal de diálogo entre os dois países. Para Pyongyang, a cúpula é também a chance de romper o isolamento internacional e afastar os sul-coreanos de um tradicional aliado, os EUA. 

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 A reunião no vilarejo de Panmunjon, localidade fronteiriça onde foi firmado o cessar-fogo que pôs fim à Guerra da Coreia, discutirá a participação da Coreia do Norte na Olimpíada de Inverno, em fevereiro. O governo da Coreia do Sul, no entanto, diz que não há limites para o que pode ser debatido. “Estamos preparados para conversar sobre a questão das famílias separadas e sobre a forma de reduzir a tensão militar”, afirmou o ministro sul-coreano da Unificação, Cho Myoung-gyon.

A tentativa de aproximação ocorre após o líder norte-coreano, Kim Jong-un, acenar com a possibilidade de conversações entre os dois países em seu discurso de ano-novo. Na ocasião, Kim disse que o botão nuclear estava em sua mesa e ele poderia “lançar uma bomba atômica em qualquer parte do território continental dos EUA”. 

Ao mesmo tempo, Kim anunciou que estava disposto a enviar uma delegação aos Jogos Olímpicos de Inverno do próximo mês, na Coreia do Sul. Seul respondeu com uma oferta para negociar e, na semana passada, foi restabelecida uma linha telefônica direta entre os líderes dos dois países, após ficar dois anos inativa.

Diplomacia. O gesto norte-coreano de retomar as conversações com a Coreia do Sul não foi totalmente inesperado. O país tem um longo histórico de “morder e assoprar”, na tentativa de ganhar concessões de seus rivais. Em 2017, a Coreia do Norte detonou seu dispositivo nuclear mais poderoso e testou mais de uma dúzia de mísseis. O endurecimento das sanções econômicas impostas pela ONU e pelos EUA, no entanto, vem castigando o país. 

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Por isso, durante o encontro, a Coreia do Norte deve adotar um tom conciliatório. A proposta de Pyongyang é que atletas dos dois países entrem juntos nas cerimônias de abertura e de encerramento, e participem de competições em conjunto. Os norte-coreanos não têm tradição em esportes de inverno e precisariam de ajuda para competir. O Comitê Olímpico Internacional participará da reunião.

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O aspecto esportivo, no entanto, é o que menos interessa. O grande interesse pelo encontro está em questões políticas. A Coreia do Sul quer negociar a reunião de famílias separadas pela guerra, medidas para aliviar a tensão militar e reduzir ameaças na fronteira. A Coreia do Norte deseja a retomada da ajuda econômica, do turismo e a reabertura de um parque industrial comum, além da suspensão dos exercícios militares com os EUA. 

Em qualquer dos casos, a Coreia do Sul pode enfrentar problemas se aceitar. Suspender os exercícios militares desagradaria aos EUA, principal aliado do país. Liberar o turismo ou reativar o parque industrial de Kaesong poderia violar as sanções recentes, atrapalhar a estratégia americana de isolar a Coreia do Norte e estrangular a economia do país.

A reunião, no entanto, é um importante primeiro passo na retomada do diálogo entre os dois vizinhos. “Kim Jong-un deu um sinal incomum e pouco usual para restabelecer o diálogo e a linguagem de seu discurso de ano-novo mostra um compromisso sério com esse diálogo”, disse Robert Carlin, professor da Universidade Johns Hopkins. “Parece que Kim está pessoalmente envolvido em restabelecer as conversações com o vizinho.” / AP e W.POST

 

 

 

 

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