Ulises Ruiz/AFP
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Coronavírus atinge os pilares da economia do México

Economistas preveem um colapso econômico pior do que a crise dos anos 90, quando a inflação disparou, a pobreza se agravou e a imigração aumentou

Kevin Sieff / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - A economia mexicana já estava em recessão, tendo contraído pela primeira vez em dez anos, em 2019, e projetando mais perdas para 2020. O peso mexicano estava entre as moedas com pior desempenho no mundo. Então, veio o coronavírus. A pandemia está causando devastação em todos os lugares. Mas, no México, afetou os pilares da economia: comércio, petróleo, remessas de imigrantes e turismo.

Os economistas preveem um colapso econômico pior do que a crise dos anos 90, quando a inflação disparou, a pobreza se agravou e a imigração aumentou. O Centro de Estudos Espinosa Yglesias alerta para uma recessão que pode jogar 22 milhões de mexicanos na pobreza este ano. O FMI estima uma contração do PIB de 6,6%, o que na América Latina só não é pior do que a Venezuela. O Bank of America prevê uma contração de 8%.

"O México é como alguém que estava prestes a cair da escada quando veio o coronavírus e deu um empurrão", disse Valeria Moy, economista do Instituto Tecnológico Autônomo do México. “Ele ia cair de qualquer maneira. Mas agora vai cair mais e mais rápido."

As crises dos anos 80 e  90 coincidiram com um aumento da violência no México e impulsionaram mais imigração para os EUA. Agora, o governo fez menos do que outros países da América Latina para estabilizar a economia. O presidente, Andrés Manuel López Obrador, preocupado com o aumento da dívida, elaborou apenas um modesto pacote de recuperação concentrado nos cidadãos mais pobres.

O objetivo limitado do plano de estímulo provocou preocupação do Banco Central do México. "Para dar liquidez às empresas, isso é o que o governo pode fazer. Mas parece que esse governo não está disposto a aceitar um déficit fiscal", disse Jonathan Heath, vice-diretor do BC. "O presidente falando em ajudar os pobres, mas não deixa muito espaço para o resgate de pequenas e médias empresas. Não é muito ortodoxo."

De todos os países da América Latina, segundo o FMI, apenas as Bahamas estão gastando menos em porcentagem do PIB para apoiar famílias e empresas durante a crise.

Mais da metade da força de trabalho do México depende de empregos informais -- são empregadas domésticas, vendedores, diaristas e pequenos empresários que estão fora da rede de segurança social, não têm direito a licença médica e nem aposentadorias.

Quando eles são demitidos, como muitos já foram, não há sistema de apoio para salvá-los da miséria. O tamanho da economia informal significa que não há estimativa confiável da taxa real de desemprego.

A economia informal está sofrendo. Em Monterrey, terceira maior cidade do México, a Sastrería Garibaldi faz há 30 anos roupas de mariachi. Os proprietários Otilio Cruz e seu filho, Eduardo, acreditam que podem sobreviver mais um mês sem renda antes de fechar. Eles não receberam ajuda do governo. "O que importa se sobrevivermos à covid-19 se depois morreremos de fome?", diz Otilio.

Obrador assumiu em  2018 prometendo acabar com a corrupção e melhorar a vida dos pobres. De fato, ele tentou fazer as duas coisas. Mas, no processo, tomou decisões que afetaram o setor privado, deprimindo investimentos domésticos e estrangeiros.

No exemplo mais conhecido, Obrador cancelou os planos para um novo aeroporto na capital mexicana após o início da construção. E não parou por aí: ele desmantelou a reforma energética, insistiu na construção de uma refinaria, mesmo contra o conselho de engenheiros e economistas, e interrompeu, no mês passado, o projeto de cervejaria de US $ 1 bilhão. "Não há confiança entre Obrador e os empresários", afirma Duncan Wood, do Woodrow Wilson Center. "Vimos o impacto disso nos investimentos."

O México é o maior parceiro comercial dos EUA, mas economistas dizem que as empresas relutam em investir até que Obrador ofereça mais certeza. Se o México demora a se recuperar do surto, muitos temem que muito mais comércio possa ser perdido para  os chineses. "A China está começando a abrir sua economia, e os EUA estão um pouco à frente do México na curva da pandemia. Portanto, quando eles começarem a procurar fornecedores no México, que ainda poderá estar fechado, eles se voltarão para a China", disse Moy. "Essas cadeias de produção, que levaram anos para serem construídas, correm o risco de serem destruídas."

No norte do México, trabalhadores de fábricas de empresas americanas se recusam a trabalhar durante a pandemia. Lear Corp., Regal Beloit e Honeywell International relataram mortes de covid-19.

Esta semana, pela primeira vez na história, o preço das exportações de petróleo do México entrou no negativo -- um golpe para uma das indústrias mais importantes do país. Na semana passada, a Moody rebaixou a dívida da Pemex, a estatal do petróleo, para a catergoria "lixo". A empresa tem mais de US$ 100 bilhões em dívidas. Agora, fechará novos poços de petróleo que o governo já considerava como motor de crescimento.

O turismo é outro problema, porque representa 17% do PIB do México - mais do que qualquer país emergente, exceto a Tailândia. Com bloqueios e cancelamentos de voos e de reservas de hotéis, o setor foi atingido com mais força do que qualquer outro durante a pandemia. Globalmente, o Conselho Mundial de Viagens e Turismo alerta que 75 milhões de empregos estão em risco. Em Cancún, a ocupação dos hotéis chegou a 2,8% na semana passada.

O Ministério do Turismo do México começou uma campanha de marketing voltada para EUA, Europa e partes da Ásia, que será lançada à medida que o vírus desacelere. O slogan será "O México precisa de você".

As remessas de imigrantes - dinheiro enviado de volta para os mexicanos por parentes no exterior - representam cerca de 3% do PIB. É uma receita crucial para algumas das comunidades mais pobres do país. No Estado de Michoacán, contribuem para 11% da economia. Em todo o país, 1,65 milhão de famílias dependem dessas transferências. O banco BBVA diz que as remessas podem cair 20%, entre 2020 e 2021.

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O que não se sabe é se uma nova crise aumentaria a imigração para os EUA, como em 1982 e 1995, após a desvalorização do peso. Isto porque os americanos também passam por um momento delicado. "Em meados dos anos 90, quando a economia do México entrou em colapso, a dos EUA estava voando. Os mexicanos migraram em grande número", diz Andrew Selee, presidente do Migration Policy Institute, em Washington. “Mas, durante a recessão global, em 2007 e 2008, eles não foram, porque não havia empregos nos EUA. Essa crise será como em 2008. Muitos mexicanos podem querer ir, mas não conseguirão emprego."

A crise dos anos 90 também coincidiu com um aumento da criminalidade. Agora, os cartéis já parecem estar capitalizando com a resposta limitada do governo e distribuindo cestas básicas em territórios que controlam.

Outra diferença é que, na década de 90, quando o México entrou em crise, o presidente americano Bill Clinton, preocupado com a explosão de crimes e da imigração, oferceu US$ 20 bilhões ao México. Agora, Trump promete construir um muro na fronteira -- e ainda diz que os mexicanos pagarão por ele. "Se houver crescimento da imigração e o México não conseguir responder à pandemia, as coisas caminharão na direção oposta."

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