NOAH SEELAM / AFP
NOAH SEELAM / AFP

Coronavírus aumenta preconceito contra islâmicos na Índia

Há 200 milhões de muçulmanos no país de 1,3 bilhão de habitantes

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2020 | 08h40

NOVA DÉLHI - Como o seu filho "deu uma curtida" em uma mensagem nas redes sociais, os vizinhos hindus de Gayur Hasan, um soldador muçulmano indiano, decidiram atirar pedras em sua casa e incendiar sua oficina. Qual foi o erro do filho de Gayur Hasan? "Curtir" uma mensagem denunciando os ataques contra muçulmanos neste país de 1,3 bilhão de habitantes, desde o início do confinamento. A medida está em vigor desde o final de março.

Na Índia dos nacionalistas hindus do primeiro-ministro Narendra Modi, os 200 milhões da minoria muçulmana são vítimas de hostilidade crescente há anos. Uma islamofobia que ganha terreno com a pandemia de coronavírus e a disseminação de informações falsas. 

"Meus ancestrais moravam aqui, e eu nasci aqui", disse o pai, que vive em uma cidade onde uma dúzia de famílias muçulmanas se estabeleceu em meio a cerca de 150 lares hindus no estado de Haryana, a oeste da capital Nova Délhi.

"Vivíamos como uma família, e a religião nunca foi um problema aqui", diz ele, mas agora "uma atmosfera de medo e ódio reina por toda parte".

Dois homens foram presos por este ataque. A família recebeu novas ameaças, se os homens não rasparem a barba e continuarem usando o turbante muçulmano, segundo a polícia local.

Esse incidente é um dos oito desse tipo registrados no estado de Haryana desde o início de abril. Em todo país, houve pelo menos 28 ataques contra muçulmanos entre 30 de março e 21 de abril, de acordo com o estudo de um professor da Universidade de Michigan.

Intocáveis

Em algumas cidades, placas de "muçulmano não" podem ser vistas. Um hospital anunciou que não aceitaria nenhum paciente muçulmano sem um certificado negativo para um teste de coronavírus. Em uma tentativa de aliviar a tensão, o primeiro-ministro Modi pediu no Twitter a "unidade e a irmandade" de indianos de diferentes religiões.

"A covid-19 não reconhece raça, religião, cor, casta, crença, idioma ou fronteiras", declarou o chefe de governo, no poder desde 2014.

A minoria muçulmana já estava "difamada e descrita como perigosa pela propaganda sistemática", diz Shahid Siddiqui, da organização Indian Muslims for Progress and Reforms, recém-criada para combater a islamofobia. O coronavírus deu uma nova dimensão a essa hostilidade, transformando os muçulmanos indianos em "intocáveis", afirmou.

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Centenas de milhares de tuítes denunciaram uma suposta #coronajihad. Vídeos falsos ou de origem duvidosa foram compartilhados em massa nas redes sociais mostrando muçulmanos lambendo frutas antes de vendê-las ou mesmo violando as regras do confinamento.

O discurso antimuçulmano aumentou ainda mais depois que um centro missionário muçulmano se tornou uma das principais fontes de propagação do vírus na Índia. Alguns apresentadores de televisão chegaram a dizer que seus membros eram "bombas humanas".

"É uma tentativa deliberada da mídia e do governo de desviar a atenção do país das crises e deflagrar a política do ódio", diz Shahid Siddiqui. / AFP

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