Ganoo Essa/Reuters
Ganoo Essa/Reuters

Coronavírus causa enxurrada de notícias falsas no Oriente Médio 

Entre as notícias mais comuns estão as que dizem que os muçulmanos são imunes ao vírus e receitas para remédios milagrosos de eficiência não comprovada

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 14h00

BEIRUTE - O turbilhão internacional de notícias falsas desencadeadas pelo novo coronavírus levou os teóricos da conspiração no Oriente Médio a um excesso de religiosidade, propagando, por exemplo, que os muçulmanos são imunes ao coronavírus.

Alguns especialistas veem esse fenômeno como o resultado natural de uma sociedade que tenta lidar com a angústia causada pela crise global da saúde, de magnitude sem precedentes.

"Em tempos de crises inexplicáveis e de conflitos, as pessoas recorrem a mitos e a convicções culturais para dar sentido ao que está acontecendo", explica Nabil Dajani, especialista em mídia da Universidade Americana de Beirute (AUB).

"Isso ocorre em todos os lugares, não apenas no mundo muçulmano", acrescenta.

Em todo mundo, os mitos se espalharam como rastilho de pólvora na Internet, com remédios milagrosos contra o coronavírus, ou teorias conspiratórias sobre suas origens, compartilhadas por milhares de usuários nas redes sociais, incluindo políticos.

O fenômeno é de tamanha envergadura que, em fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou contra uma "infodemia".

Nem o mundo árabe escapou. Os "fact-checkers" da AFP observaram uma tendência similar, embora dominada pelo excesso de religiosidade.

Um vídeo que pretendia mostrar chineses se convertendo ao islamismo - porque o coronavírus "não afeta os muçulmanos" - foi amplamente compartilhado nas redes sociais em fevereiro.

Na verdade, eram filipinos que se converteram na Arábia Saudita em maio de 2019, ou seja, meses antes do início da epidemia na China.

Suicídios de italianos

Outro vídeo pretende mostrar chineses recebendo cópias do Alcorão, depois que a "censura" ao livro sagrado no país foi levantada, em plena pandemia. Foi tirado de uma reportagem sobre a distribuição de Bíblias na China que circula desde 2013.

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Aproveitando o fato de que o Al Ándalus (nome que os muçulmanos deram à península Ibérica) da Idade Média continua a provocar fantasias, as redes sociais ecoaram outro vídeo. Nele, afirma-se que o chamado à oração ressoou pela primeira vez em 500 anos na Espanha, muito afetada pela pandemia, mesmo que nunca tenha sido proibida no país.

"Em nossa região, as reivindicações religiosas às vezes entram em conflito com a ciência e a medicina", diz Sari Hanafi, professor de sociologia da AUB.

"Mas a religião também é uma fonte essencial de solidariedade social, que faz parte da resistência ao estresse psicológico da quarentena", completa. 

Além dessas invenções com matizes religiosos, os "fact-checkers" da AFP também identificaram várias publicações que preveem a queda dos países ocidentais, engajados na luta contra a pandemia.

"Italianos cometem suicídio" era o título de um vídeo em árabe compartilhado nas redes sociais, mostrando uma multidão reunida em uma praça na Itália. Na verdade, foi uma manifestação contra a extrema direita italiana, realizada meses antes da propagação do coronavírus. 

Os internautas também compartilharam declarações falsas atribuídas ao primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, segundo as quais apenas uma solução "caída do céu" poderia salvar a Itália.

Impotência

Referindo-se às teorias da conspiração, Dima Matar, da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) de Londres, rejeita qualquer "linguagem" que diga que o Oriente Médio é "diferente" do restante do mundo.

"A religião sempre foi usada no discurso político, e não apenas no Oriente Médio, mas também no Ocidente", frisou.

A desinformação no mundo árabe-muçulmano deve ser percebida, segundo Matar, "como as outras notícias falsas e teorias da conspiração que surgiram em torno do vírus e que foram promovidas até pelo (presidente dos EUA, Donald) Trump".

Essa propaganda e teorias alimentam o nacionalismo e exacerbam o estigma social e os estereótipos racistas, diz Hanafi. 

Ele menciona algumas teorias que dizem que o vírus foi produzido em laboratórios americanos para prejudicar a China e o Irã, ou outras que culpam refugiados e migrantes.

Esse fenômeno - acrescenta Hanafi - é sintomático dos períodos em que "nos sentimos impotentes diante da realidade e não sabemos como explicar algo de maneira científica" /AFP

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