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Coronavírus e o sistema chinês

Xi advertiu altos funcionários do governo de que as medidas para conter a epidemia tinham sido severas demais e estavam ameaçando o crescimento econômico do país

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 05h00

O presidente Xi Jinping declarou que o surto de coronavírus representa um “teste para o sistema da China”. É verdade. A epidemia lança nova luz sobre um debate fundamental, do qual a China é o grande laboratório: é possível um país avançado sem democracia?

Como já escrevi aqui, a China obrigou a uma revisão dos manuais de economia e de ciência política. Sua combinação de regime autoritário e desenvolvimento econômico desafia a tese segundo a qual a democracia liberal é uma condição de possibilidade do capitalismo avançado.

A novidade no experimento chinês está no uso do algoritmo. Os chineses resolvem virtualmente tudo com seus celulares. Ao fazerem isso, permitem ao regime e às empresas controlar todos os aspectos de sua vida. A inteligência artificial levaria potencialmente a uma relação “perfeita” entre oferta e demanda, e ao fim dos ciclos que atormentam o capitalismo e a democracia. 

A capacidade de inovação das empresas chinesas em inúmeros segmentos parece desmentir também a noção segundo a qual o ambiente de liberdade seria uma condição para criações “disruptivas”. A China hoje tem não um, mas 17 “Vales do Silício”.

Entra o coronavírus em cena. A gestão do surto teve um início desastroso, quando estava a cargo das autoridades da cidade de Wuhan e da Província de Hubei. Os dirigentes do Partido Comunista nessas duas circunscrições foram demitidos na semana passada. Se a decisão foi mais movida pelas suas ações de encobrimento do surto ou pela sua incapacidade de contê-lo não está claro. O motivo mais provável, conhecendo o regime chinês, é o segundo.

Mas, pela natureza mesma da gestão da saúde pública, as duas coisas estão interligadas - e até o regime chinês já parece ter percebido isso, depois de o encobrimento haver prejudicado a contenção da epidemia de Sars em 2003. A informação - dentro da rede e para o público - é a principal arma das autoridades de saúde na guerra contra uma epidemia.

A atitude da polícia de Wuhan, de repreender o médico Li Wenlian por ter avisado seus colegas sobre o surgimento da doença, lembra o período do Grande Salto para Adiante (1958-60), quando milhões de pessoas morreram de fome porque autoridades locais enviaram para o governo central dados superestimados da safra agrícola, com receio de serem punidas.

Esse padrão nunca mudou entre os dirigentes locais, por mais que as autoridades centrais exijam informações fidedignas - ao menos no interior do governo, se não na forma de transparência pública. O atual surto de coronavírus parece ser uma trágica prova disso. 

Mesmo o governo central tem enviado sinais contraditórios quanto ao seu desejo de transparência. O presidente Xi advertiu altos funcionários do governo de que as medidas para conter a epidemia tinham sido severas demais, e estavam ameaçando o crescimento econômico do país, segundo a agência Reuters.

A capacidade do governo de entregar prosperidade crescente à população é vista pelo regime como essencial para o seu apoio popular e a sua sustentabilidade política. Mesmo não passando pelo crivo das urnas, o regime se preocupa com o humor da colossal população chinesa. A enorme indignação popular com o manejo da informação, simbolizado pela morte do médico Li, vítima do coronavírus, torna essa equação mais crítica.

Mesmo medidas na direção de maior transparência acabam aumentando a suspeição. As autoridades passaram a incluir nas estatísticas de contágios os diagnósticos clínicos, e não apenas os exames laboratoriais positivos. Isso levou na quinta-feira ao aumento de 44% no número de casos confirmados em Hubei (de 33.366 para 48.206). 

A credibilidade é um edifício que se constrói com esforço cotidiano alicerçado na transparência. A ausência desse alicerce é uma grande fratura no “sistema da China”.

 

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