Khaled Abdullah/Reuters
Khaled Abdullah/Reuters

Coronavírus já tem impacto para alguns dos conflitos no Oriente Médio

Nas últimas semanas, as Nações Unidas pediram repetidamente um cessar-fogo em todo o mundo, incluindo no Oriente Médio, para ajudar a conter a propagação da covid-19 e impedir novas tragédias humanitárias

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 06h00

O coronavírus fez dezenas de milhares de mortos e forçou metade da humanidade ao confinamento. Mas o impacto da pandemia nas guerras no Oriente Médio permanece incerto, mesmo que a primeira consequência concreta tenha sido o anúncio saudita de um cessar-fogo unilateral no Iêmen.

Nas últimas semanas, as Nações Unidas pediram repetidamente um cessar-fogo em todo o mundo, incluindo no Oriente Médio, para ajudar a conter a propagação da covid-19 e impedir novas tragédias humanitárias para as populações vítimas desses conflitos.

Iêmen

A coalizão militar liderada pela Arábia Saudita, que opera no Iêmen em apoio às forças do governo, anunciou um cessar-fogo de duas semanas a partir das 6h desta quinta-feira, 9, afirmando que essa decisão unilateral visava impedir a propagação do coronavírus. Nas primeiras horas do cessar-fogo, os rebeldes huthis, apoiados pelo Irã, disseram que não havia ainda nenhuma trégua. "Estamos preparando o terreno para combater a covid-19", disse uma autoridade saudita na quarta-feira.

Apesar do pedido de cessar-fogo promovido pelas Nações Unidas em março, a violência aumentou recentemente no país. Nos últimos anos, as negociações fracassaram sucessivamente no Iêmen, que sofre com a pior crise humanitária do mundo, segundo a ONU.

ONGs temem uma catástrofe se o vírus se espalhar, uma vez que o Iêmen possui um sistema de saúde precário, e enquanto 24 milhões de pessoas, mais de dois terços da população, precisam de assistência humanitária.

Síria

O novo coronavírus começava a ganhar escala internacional no momento em que uma nova trégua entrava em vigor, no início de março, na Província de Idlib e arredores do noroeste da Síria.

Os 3 milhões de habitantes dessa região tinham poucas esperanças nessa nova trégua, exaustos pela última ofensiva mortal do regime de Damasco. Mas o medo da epidemia parece contribuir para a manutenção do cessar-fogo.

Em março, o número de vítimas civis caiu para o nível mais baixo desde o início do conflito em 2011, com 103 mortes, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

Para os vários atores no terreno - o regime, as forças curdas no nordeste e as facções anti-Damasco em Idlib - a boa gestão da epidemia consolidaria sua credibilidade.

"Essa epidemia é uma maneira de Damasco mostrar que apenas o Estado sírio é eficaz e, portanto, é necessário reintegrar os diferentes territórios", estima o especialista Fabrice Balanche.

A pandemia também pode precipitar a saída das tropas americanas. Mas isso contribuiria para um vácuo de segurança que incentivaria o ressurgimento do grupo Estado Islâmico (EI), cujo "califado" na Síria entrou em colapso em março de 2019.

Em nove anos, o conflito sírio matou mais de 380 mil pessoas e deslocou milhões, que são particularmente vulneráveis se a epidemia se espalhar.

Líbia

Os protagonistas do conflito líbio saudaram o pedido de cessar-fogo da ONU no mês passado... antes de retomarem as hostilidades.

Os combates se intensificaram recentemente, afetando várias áreas residenciais da capital. Desde o início do ano, a violência deslocou 200 mil pessoas, a grande maioria na capital, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

As hostilidades danificaram um hospital em Trípoli, onde pacientes com  covid-19 estão sendo tratados, informou a organização.

Nesse conflito, a Turquia apoia o governo de Trípoli, reconhecido pela ONU, que enfrenta há um ano o homem forte do leste líbio, o marechal Khalifa Haftar. 

Para Fabrice Balanche, um desengajamento ocidental dos conflitos na região poderia favorecer as forças pró-Haftar apoiadas pela Rússia, Egito e Emirados Árabes Unidos.

Os países ocidentais são duramente atingidos pela pandemia, o que poderia pressioná-los a desviar seus recursos militares dos conflitos estrangeiros, mas também enfraquecer os processos de negociações.

Segundo um relatório do International Crisis Group (ICG), os esforços para garantir o cessar-fogo na Líbia "não atraem mais atenção ao mais alto nível".

Iraque

No Iraque, se a guerra já terminou, o país continua ameaçado pelo ressurgimento do EI em certas regiões, enquanto as tensões entre os Estados Unidos e o Irã não mostram sinais de fadiga.

Washington acaba de implantar baterias de defesa antiaérea, aumentando o medo de uma nova escalada com o Irã. / AFP 

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