Ramon Espinosa/Pool via REUTERS
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Coronavírus leva cenário cinzento ao paraíso caribenho

Aeroportos fechados e hotéis vazios afetam economias frágeis que dependem do turismo

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2020 | 06h00

SAN JUAN - Com economias frágeis e dependentes do turismo, a pandemia de coronavírus ameaça devastar os países do Caribe. Aeroportos sem voos, hotéis fechados e cruzeiros ancorados fizeram o Banco de Desenvolvimento do Caribe prever uma contração de até 50% do PIB da região. 

Em Santa Lúcia, ilha com 178 mil habitantes nas Antilhas, 13 mil pessoas já perderam o trabalho. Em Porto Rico, território americano que já vinha sofrendo com as consequências do furacão Maria, de 2017, 93 dos 160 hotéis fecharam as portas, ameaçando cerca de 20 mil empregos. 

O turismo, um dos setores mais afetados pelo surto, representa de 30% a 50% do PIB de países como Bahamas, Barbados e Jamaica, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em alguns países, o setor responde por mais de 80% das receitas diretas e indiretas, como em Aruba.

Segundo a Organização de Turismo do Caribe, o setor emprega 2,5 milhões de pessoas na região, composta por pequenos Estados insulares já fortemente endividados e com economias pouco diversificadas. “Ninguém está preparado para o impacto social e econômico da covid-19, mas especialmente nós aqui no Caribe”, escreveu Angelique Nixon, professora da University of the West Indies, de Trinidad e Tobago.

Clarisa Jiménez, presidente da Associação de Hotéis de Porto Rico, disse que a situação é desesperadora. Segundo ela, a taxa de ocupação na ilha é de 8%, um número baixíssimo para o início da temporada. 

O presidente da Associação dos Proprietários de Albergues de Porto Rico, Jesús Ramos, disse que o setor está “completamente parado”. “A Semana Santa já foi um desastre completo. Agora temos medo do que vai acontecer no verão”, disse. “Ninguém vai querer viajar.”

As empresas de cruzeiro são fundamentais para as economias da região. São as paradas rápidas que os navios fazem nas ilhas que injetam milhões de dólares nos pequenos países caribenhos. A maior companhia de cruzeiros do mundo, a Carnival Cruise Line, cancelou todas as partidas até o final do mês que vem, enquanto a Royal Caribbean suspendeu as operações até o dia 11 também de junho. 

Para tentar responder à crise, a Jamaica anunciou um pacote financeiro de mais de US$ 8 bilhões (R$ 45 bilhões) para empresas e trabalhadores do setor. Alguns países, no entanto, não têm capacidade de reação.

O primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, Gaston Browne, pediu ajuda internacional e afirmou que não existe um plano local de resgate para o Caribe. Segundo ele, o país já perdeu 20 mil empregos – o que representa metade da força de trabalho.

O ministro do Turismo da Jamaica, Edmund Bartlett, disse que dos 20 países mais dependentes do turismo no mundo, 13 estão no Caribe. O topo da lista é ocupado pelas Ilhas Virgens Britânicas, que são seguidas de Bahamas, Santa Lúcia, Granada e São Cristóvão e Nevis. Segundo ele, o fechamento das fronteiras no Caribe deixou 300 mil pessoas na Jamaica sem trabalho. “Estamos diante de uma série de incógnitas, tentando descobrir uma nova maneira de fazer turismo”, disse.

Outro sinal de perigo para as pequenas economias da região é a queda brusca do envio de remessas de dinheiro de imigrantes que trabalham no exterior. As receitas representam em média cerca de 7% do PIB de muitos países – número que pode chegar a 15% no Haiti e na Jamaica. Com EUA, Reino Unido e Canadá em recessão, os fluxos secaram. 

Dada a alta dependência da região de bens importados, as interrupções na cadeia de suprimentos também afetam investimentos, restringindo a entrada de materiais e de mão de obra, além de comprometer a segurança alimentar e de saúde, atrasando a entrega de comida, de equipamentos e de suprimentos médicos.

Até a sexta-feira, a região tinha cerca de 15 mil casos confirmados de covid-19, com pouco mais de 830 mortes, a maioria da República Dominicana. Um dos locais mais afetados é Varadero, em Cuba. Na ausência de turistas, o único movimento nos resorts são dos lagartos que correm pelos jardins. 

“Quase toda a minha família, todos os meus primos trabalham no turismo”, disse Maria Elisa Torres, que aluga quartos em sua casa em Santa Marta, perto de Varadero. “Minha prima é lojista e está sem emprego. O meu marido trabalha com aluguel de carros. Ele está desempregado. Meu irmão trabalha com turistas na praia e também está parado.”

Alguns que ainda trabalham nos resorts da cidade fantasma tentam sobreviver da melhor maneira possível. Carlos Padron, cuida de 15 golfinhos em Varadero, usa um apito para chamá-los para os turistas. “Acho que eles sentem a falta do público”, disse. / REUTERS, NYT e AFP

 

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