OLI SCARFF / AFP
OLI SCARFF / AFP

Coronavírus obriga muçulmanos a celebrar um Ramadã em recolhimento

Data será difícil e triste para muitos fiéis na Ásia, Oriente Médio e Norte da África

Haeril Halim / AFP, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 14h00

Muçulmanos de todo mundo começaram nesta sexta-feira, 24, o mês de jejum e oração do Ramadã, em plena pandemia de coronavírus, que os privará de reuniões familiares e de orações em mesquitas, embora alguns países tenham decidido não aplicar essas medidas. Este ano, o Ramadã será particularmente difícil e triste para muitos fiéis na Ásia, Oriente Médio e Norte da África.

Por causa da pandemia, regras generalizadas foram impostas para forçar as mesquitas a fecharem suas portas. Ao anoitecer, o "iftar", o intervalo do jejum com uma refeição festiva e familiar, também deve ser comemorado de uma maneira muito mais íntima e menos alegre. Na Indonésia, o maior país muçulmano do mundo, onde o Ramadã gera entusiasmo generalizado, organizações religiosas pediram aos fiéis que fiquem em casa.

"Este Ramadã é muito diferente, basicamente porque não é festivo", resumiu Fitria Famela, uma dona de casa indonésia. "Estou decepcionada por não poder ir à mesquita, mas o que podemos fazer? O mundo está diferente agora", disse. No entanto, alguns líderes religiosos na Ásia - onde vivem quase um bilhão de muçulmanos - se recusaram a adotar regras para impedir a propagação do novo coronavírus. 

A organização islâmica na província conservadora de Aceh, na Indonésia, opôs-se publicamente às diretrizes nacionais para ficar em casa. Assim, vários milhares de fiéis assistiram às orações da noite de quinta-feira na maior mesquita da capital da região, Banda Aceh, embora a multidão fosse menor do que o normal.

"Não estou preocupado, porque estou usando uma máscara e mantenho distância", disse Cut Fitrah Riskiah, um dos participantes. A ameaça representada por reuniões religiosas em massa tem sido evidente nas últimas semanas, quando foram detectados vários surtos de infecção relacionados a grandes eventos religiosos na Malásia, no Paquistão e na Índia.

Por esse motivo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu que certas práticas comuns no Ramadã fossem suspensas, ou comemoradas de outra forma, a fim de limitar os riscos da propagação da pandemia. Em Bangladesh, por exemplo, as autoridades religiosas não deram ouvidos às recomendações das autoridades de limitar o número de fiéis nas mesquitas. No Paquistão, são comuns as imagens de mesquitas lotadas, com os fiéis sentados lado a lado, sem qualquer distância.

"Devemos aceitar"

Do outro lado da moeda, Mohamad Shukri Mohamad, a principal autoridade islâmica no conservador estado de Kelantan, na Malásia, decidiu anular orações públicas e refeições em família, mesmo que isso signifique não ver seus seis filhos e seus 18 netos.

"É a primeira vez na minha vida que não posso ir à mesquita", disse ele à AFP. "Mas devemos aceitar e obedecer às regras do distanciamento social para proteger nossas vidas", acrescentou.

A Malásia, país de maioria muçulmana, estendeu o confinamento rigoroso até meados de maio. Mesquitas, escolas e muitas empresas estão fechadas e a polícia monitora o respeito das regras. Até os populares bazares do Ramadã, onde os muçulmanos compram sobremesas para comer durante a quebra do jejum, foram proibidos.

Os malaios podem fazer pedidos on-line, em bazares eletrônicos, e a comida é entregue em suas casas. Na vizinha Indonésia, onde milhões de pessoas viajam para suas cidades quando o Ramadã termina, o governo proibiu esses movimentos.

Erik Febrian, que vive em Jacarta, depende, como muitos outros indonésios, de seu computador e de uma boa conexão de Internet para manter contato com sua família, que mora fora da capital. "Graças a isso, posso ligar para meus pais por vídeo todos os dias durante o Ramadã", comentou ele. "E para que eu também possa monitorar como eles são", acrescentou. 

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