Melina Mara / W.P.
Melina Mara / W.P.

Coronavírus se torna mais um problema na fronteira entre México e EUA

Cidadãos americanos ou residentes dos EUA que passaram a viver em Estados mexicanos retornam para tratar covid-19

Kevin Sieff, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 03h00

EL CENTRO, CALIFÓRNIA - Quando Manuel Ochoa começou a se sentir doente - com o corpo dolorido e a respiração curta - ele dirigiu da casa de sua mãe em Mexicali, no México, para a fronteira com os Estados Unidos.

O aposentado de 65 anos estacionou seu carro na ponte internacional e tentou entrar no país onde tem residência permanente e onde seu seguro de saúde é válido. Pouco antes de se aproximar do posto de patrulha da fronteira, ele desmaiou ao sol.

Foi quando os funcionários do posto de imigração dos Estados Unidos fizeram uma ligação que se tornou cada vez mais comum durante o surto do novo coronavírus: para uma ambulância transportar um cidadão ou residente dos Estados Unidos da fronteira mexicana para o hospital americano mais próximo. 

À medida que o sistema de saúde do México se sobrecarrega com os casos de covid-19, pequenos hospitais comunitários no sul da Califórnia, alguns dos mais pobres do Estado, são abarrotados por americanos que adoeceram e atravessaram a fronteira. Eles são aposentados e pessoas com dupla cidadania, americanos trabalhando no México ou visitando parentes por lá. 

É um exemplo de quão facilmente o vírus se move entre países, mesmo quando os governos - e particularmente o governo Trump - tentam fechar suas fronteiras. E é uma vitrine de quantas vidas americanas atravessam a fronteira entre Estados Unidos e México, incluindo famílias que se movimentam livremente pela região desde antes dessa fronteira ter sido traçada e cujo movimento continuou durante a pandemia. 

As questões de saúde pública aqui sempre envolveram os dois lados da fronteira. O Texas realiza campanhas de pulverização contra mosquitos junto com o Estado mexicano de Tamaulipas durante surtos de dengue. O Arizona tem exercícios conjuntos de combate a incêndios com Sonora. Califórnia e Baja California há muito lutam juntos contra uma epidemia de tuberculose transfronteiriça. A Ponte Internacional San Ysidro, ao sul de San Diego, é o ponto de encontro de ambulâncias mais movimentado dos Estados Unidos.

Durante anos, a Comissão de Saúde de Fronteira entre Estados Unidos e México realizou simulações em relação a como os dois países reagiriam se uma pandemia se instalasse na fronteira. Um procedimento especial foi criado para as ambulâncias mexicanas transferirem pacientes para as americanas em território americano.

Então uma verdadeira pandemia ocorreu. Agora, aproximadamente metade dos pacientes com covid-19 em vários hospitais na fronteira da Califórnia, incluindo o Centro Médico Regional El Centro, é recém-chegado do México. Como resultado desse surto, o condado Imperial, cuja cidade mais populosa é El Centro, tem uma concentração muito maior de casos do novo coronavírus - 760 por 100 mil residentes - do que qualquer outro município da Califórnia. 

Sem fronteiras

"É incrível como essa doença nos ensinou que as fronteiras não existem", disse Adolphe Edward, CEO do El Centro Regional. A equipe do hospital inclui 60 pessoas que atravessam a fronteira de Mexicali todos os dias para trabalhar.

Cerca de 1,5 milhão de americanos vivem no México e mais de 250 mil deles vivem nas cidades ao sul da Califórnia. Essas cidades foram mais afetadas pelo novo coronavírus do que em qualquer outro lugar do México.

Mais de 300 profissionais da saúde em Tijuana e arredores foram infectadas, segundo Yanín Rendón Machuca, chefe do sindicato local dos trabalhadores da saúde. No hospital geral da cidade, apenas um quarto da equipe permanece no trabalho. Motoristas de ambulância em Mexicali às vezes esperam horas, enquanto os funcionários do hospital abrem espaço nos corredores para pacientes com covid-19. Algumas clínicas públicas sobrecarregadas na cidade de fronteira não estão mais aceitando pacientes.

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"Vemos pacientes que estiveram em hospitais mexicanos por dois, três ou quatro dias antes de cruzarem a fronteira e chegarem até nós", disse Dennis Amundson, diretor médico da unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Scripps Mercy, em Chula Vista. 

Cidadãos dos Estados Unidos e portadores de green card no norte do México começaram a compartilhar mensagens e postagens no Facebook em grupos como "Rosarito Living" (Vivendo em Rosarito, em tradução livre) e "Expats in Mexico" (Expatriados no México, em tradução livre). Se você ficar doente, dizem eles, atravesse a fronteira.

Então foi isso que Ochoa fez. Ele é um residente permanente dos Estados Unidos desde 1978. Ele se aposentou alguns anos atrás, depois de uma carreira como motorista de caminhão em Los Angeles.

Numa manhã de domingo, a ambulância o levou para o El Centro Regional, a 16 quilômetros da ponte internacional, que já tratava 43 pacientes com covid-19 e onde uma equipe de resposta a desastres se preparava para montar uma barraca de estilo militar para acomodar os pacientes que já não tinham onde ficar dentro do hospital.

"É aqui que eu tenho seguro de saúde e é onde há melhor cuidado", disse ele no hospital. A máquina que lia sua frequência cardíaca em repouso saltava entre 128 e 135 batimentos por minuto.

Durante a pandemia, o fluxo de pacientes do México representou um desafio sem precedentes. O El Centro Regional normalmente atende a um município com uma população de cerca de 180 mil habitantes, muitos dos quais vivem abaixo da linha da pobreza. De repente, o hospital estava atendendo a uma comunidade adicional de americanos em Mexicali, com o número estimado de 100 mil pessoas.

Quando Edward postou uma atualização em vídeo no Facebook na semana passada, explicando que o hospital, por estar sobrecarregado, deixaria temporariamente de aceitar pacientes com covid-19, ele recebeu uma chuva de mensagens criticando-o por priorizar pacientes do outro lado da fronteira. 

"Envie-os de volta para o México", escreveu uma pessoa. "A fronteira deveria ter sido fechada desde o primeiro dia", escreveu outro.

Edward, um ex-médico da Força Aérea que ajudou a liderar a equipe médica de militares americanos em Bagdá, tentou explicar que esses eram americanos que ele estava tratando. "Podemos fingir que os 275 mil aposentados americanos em Baja Califórnia não existem, mas eles existem. Assim como os 35 mil militares", disse ele. 

Reabertura 

O aumento no número de casos ao longo da fronteira ocorre quando a Califórnia está tentando reabrir (estabelecimentos até então fechados). Em San Diego, no fim de semana do Memorial Day (última semana de maio), restaurantes e bares estavam lotados de pessoas, muitas sem máscaras. Especialistas médicos alertam que o relaxamento dessas regras, além dos casos que atravessam a fronteira, podem levar a um aumento nas infecções.

"Espero que o México chegue ao pico de contaminação este mês, mas, quando San Diego abrir (estabelecimentos), veremos um aumento (de casos) também", disse Juan Tovar, médico chefe de operações médicas do hospital Scripps Mercy. "Nosso pico (de contaminação) vai depender de ambos os fatores".

Entre os pacientes que vieram do México nas últimas semanas está Patricia Gonzalez-Zuniga, uma médica de Tijuana que trabalha com frequência na Universidade da Califórnia em San Diego. Patricia e o marido foram diagnosticados com covid-19 no mês passado. A saúde do marido deteriorou-se rapidamente. "Não tenho dúvida de que ele teria morrido se tivéssemos ficado em Tijuana e ido para um hospital lá", disse ela.

Outros eram cidadãos americanos que levavam seus filhos ao México para ter acesso a creches com preços mais acessíveis. Alguns eram americanos que haviam perdido o emprego durante as primeiras semanas do surto nos Estados Unidos e foram morar com parentes no México para economizar dinheiro. "Foi onde eles foram infectados", disse Amundson, diretor médico da UTI do Scripps Mercy. "E eles voltaram para serem tratados aqui."

Antes da pandemia, mais de 200 mil pessoas por dia cruzavam a fronteira do México com a Califórnia. O governo americano fechou a fronteira para "viagens não essenciais" em março, e o presidente Donald Trump prometeu "suspender a imigração" para impedir a propagação do vírus. Mas após uma queda inicial nas entradas, o ritmo começou a se recuperar rapidamente. 

Uma média de 86 mil pessoas por dia atravessou a fronteira durante a semana de 11 a 18 de maio, uma mistura de cidadãos e residentes dos Estados Unidos e mexicanos com vistos de trabalho legal cujos empregos são considerados essenciais.

Não há exames de saúde sendo realizados na fronteira. Quando um repórter do Washington Post fez a travessia na semana passada, um agente de imigração olhou para ele e perguntou: "Você não está doente, está?" antes de escanear seu passaporte.

O chefe médico de operações do Departamento de Segurança Interna, Alex Eastman, disse a profissionais médicos no sul da Califórnia este mês que eles devem estar preparados para que cidadãos americanos ou residentes permanentes continuem a atravessar a fronteira, inclusive para tratamento médico.

O governo federal enviou equipes do Sistema Médico Nacional de Desastres para a fronteira a fim de prestar socorro ao fluxo de pacientes. O Departamento de Saúde Pública da Califórnia enviou sua própria equipe. Alguns pacientes estão sendo transferidos para hospitais ao norte, como os de Los Angeles, para aliviar hospitais de fronteira, como o El Centro Regional.

Quarenta e oito por cento dos pacientes do Scripps Mercy em Chula Vista na semana passada visitaram o México na semana anterior a sua admissão. Na entrada do hospital há uma pintura da Virgem de Guadalupe, a padroeira do México.

“Não achamos que a fronteira deva ser fechada, mas acreditamos que exames de saúde e rastreamento de contatos fariam diferença", disse Chris Van Gorder, CEO do Scripps Health, que administra o hospital. "O que não queremos é que as pessoas atravessem a fronteira e infectem outras pessoas."

No mês passado, Van Gorder escreveu uma carta ao secretário de Segurança Interna, Chad Wolf, e ao secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, pedindo-lhes que pressionassem o México para melhorar sua resposta à saúde pública. "Também precisamos que o governo federal pressione o México para aplicar políticas de distanciamento social e que as pessoas fiquem em suas casas, como fizemos nos Estados Unidos", escreveu ele.

Na fronteira do Texas com o México, a dinâmica parece estar invertida. As autoridades mexicanas expressaram preocupação de que um surto crescente no sul do Texas esteja se espalhando para Tamaulipas, que foi amplamente poupado durante a pandemia.

Os Estados Unidos deportaram milhares de pessoas para Tamaulipas desde março. Em Reynosa, no México, a maior cidade do estado, pelo menos 16 deportados estavam infectados pelo novo coronavírus, segundo a prefeita Maki Ortiz. Antes de se tornar prefeita, ela era subsecretária de saúde do México.

"Por que eles continuam essas deportações no meio de uma pandemia mortal, incluindo pessoas que já estão doentes e quem sabe quantas pessoas assintomáticas?", disse. Entre os deportados e as milhares de pessoas com dupla cidadania que atravessam a fronteira todos os dias, Maki se preocupa que sua cidade acabe importando um grande surto do Texas.

"Vou dizer isso o quanto puder em meus pronunciamentos transmitidos pela televisão e pelo rádio: fiquem em suas casas e não atravessem a fronteira", disse ela. "Mas quando olho para as pontes internacionais, ainda vejo filas enormes." 

Na semana passada, na cidade vizinha de Matamoros, autoridades montaram um posto de controle para interrogar cidadãos americanos que queriam cruzar para o lado mexicano da fronteira e impediram a entrada daqueles cujas visitas não consideravam essenciais. 

Alguns especialistas em saúde dizem que as curvas epidemiológicas nas cidades fronteiriças de ambos os lados acabarão se sobrepondo. 

"Há tantas pessoas que andam de um lado para o outro que se torna uma taxa homogênea", disse Arturo Rodriguez, diretor de saúde pública de Brownsville, Texas. "Em outras palavras, você tem três taxas: a dos Estados Unidos, a do México e a de suas fronteiras". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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