Corpo de brasileiro foi encontrado semipreservado no Iraque

Para irmão, restos mortais possivelmente estavam em cova rasa de solo argiloso

Agencia Estado

19 Junho 2007 | 11h05

Peritos kwuaitianos que analisaram os restos mortais do brasileiro João José Vasconcellos Jr., seqüestrado por guerrilheiros no Iraque em janeiro de 2005, receberam não apenas ossos, mas um corpo em estado de "semimumificação", apesar do estágio avançado de decomposição. O material estava em uma embalagem plástica e tinha vestígios de argila. Para Luiz Henrique, irmão de Vasconcellos Jr., isso indica que o corpo provavelmente estava em uma cova rasa em solo argiloso, o que explicaria um certo grau de preservação. Segundo os familiares, o corpo do engenheiro foi enviado pelas tropas americanas ao Kwuait, onde a embaixada brasileira providenciou o exame de legistas daquele país. A identificação do corpo foi obtida no dia 11, depois de dois dias de trabalho, a partir de um estudo da arcada dentária do engenheiro que a família já havia espalhado pelas embaixadas brasileiras na região em agosto. Como João tinha muitas obturações e havia deixado muitas radiografias de um tratamento dentário complexo feito pouco antes do seqüestro, o exame foi relativamente fácil. A família manteve o processo em sigilo com medo de que algo pudesse dificultar a repatriação dos restos mortais.A análise dos kwuaitianos, no entanto, não investigou se o brasileiro morreu no dia do ataque ou se sobreviveu alguns dias. Para Luiz Henrique, essa informação não interessa mais à família e eles não pensam em fazer agora qualquer tipo de exumação do cadáver. "Para nós essa informação não tem nenhuma utilidade prática. Queríamos saber o que aconteceu com ele e agora podemos ficar aliviados. A gente achava que nunca teria esta resposta", disse o irmão. Isabel Vasconcellos, uma das irmãs do engenheiro, concordou: "Se pelo menos isso fosse numa país onde houvesse Justiça, onde as informações servissem para punição aos culpados ou uma reparação. Mas não é esse o caso. Não fizeram nem perícia no local do ataque", queixou-se. O atestado de óbito obtido a partir do laudo do Kwuait tem data de 11/06/2007 e indica como a causa da morte "ferimentos diversos", interpretados como provocados pelos tiros disparados na emboscada.O corpo do engenheiro chegou ao Brasil numa urna lacrada com revestimento metálico, por causa da decomposição, que pesava pelo menos 200 quilos. Durante o velório, era possível ver ainda inscrições em árabe e o nome do engenheiro acima do destino, o Aeroporto Internacional de São Paulo, onde chegou na quinta-feira. A urna foi transportada até o Brasil num avião de carga da Lufthansa e levada de carro até Juiz de Fora, terra natal do engenheiro e onde vivem seus pais. No início da madrugada, o corpo já estava sendo velado no Cemitério Parque da Saudade.Informação à famíliaOs parentes do engenheiro foram informados pelo Itamaraty no último dia 5 que um corpo fora entregue às tropas americanas. Na interpretação dos familiares, os autores do seqüestro que levou à morte do engenheiro esperavam o momento oportuno para devolver o corpo.Os emissários dos restos mortais teriam primeiro feito a entrega e depois enviado uma mensagem na qual diziam se tratar do engenheiro brasileiro. No entanto, os familiares não têm detalhes de como isso se deu, nem sabem precisar quem retinha o corpo. EnterroA família finalmente se despediu dele nesta sexta-feira, 15, em Juiz de Fora (MG), onde os restos mortais repatriados na quinta-feira para São Paulo foram enterrados, vinte e nove meses depois do desaparecimento. "As informações que temos são as mesmas que o Itamaraty divulgou. Sabemos muito pouco", disse Luiz Henrique de Vasconcellos, irmão do engenheiro. Durante os dois anos em que a família buscou contatos no Oriente Médio, chegaram muitas informações de que a ação, reivindicada pelas Brigadas Mujahedin e o grupo Ansar al-Suna, repercutiram mal dentro do Iraque. Um dos motivos seria a morte de um iraquiano, que seria um líder étnico, entre os seguranças do engenheiro assassinados no ataque, perto de Beiji. O outro seria o fato de João ser brasileiro e o Brasil ser uma nação querida, claramente contrária à invasão do Iraque, o que desqualificaria a motivação política do seqüestro. Para Luiz Henrique, os detentores do corpo podem ter se retraído por algum tempo por medo de sofrerem retaliação interna ao aparecer com o corpo.O irmão e o filho do engenheiro, Rodrigo Vasconcellos, disseram não ter informação de pagamento de qualquer resgate, seja pelo governo brasileiro ou pela construtora Norberto Odebrecht, que empregava João na reforma de uma termelétrica no Iraque. Eles atribuem a devolução dos restos mortais aos apelos humanitários que continuaram sendo feitos no Oriente Médio durante todo este tempo.

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