Corpo de escrava sexual é devolvido à África do Sul

A ossada de Sara Baartman, uma mulher khoi-khoi conhecida como a Vênus Hotentote e exibida pelos europeus do século 19 como curiosidade etnológica e sexual, será devolvida pelo governo francês à África do Sul na segunda-feira. "A triste história de Sara é a de uma mulher profundamente humilhada por uma sociedade que considerava os africanos seres inferiores", disse o professor Jattie Bredekamp, diretor do Instituto de Investigações Históricas da Universidade do Cabo Ocidental.Sara Baartman nasceu em 1789, ano da Declaração dos Direitos do Homem, na antiga colônia holandesa do Cabo da Boa Esperança e, como milhares de khoi-khois, foi escrava dos fazendeiros da região. Em 1810, era escrava na fazenda de Peter Cezar, irmão de Henrok e William Dunlop, médico inglês que visitou o Cabo que viu nela uma boa oportunidade de fazer dinheiro fácil exibindo-a na Europa como um dos casos assombrosos da natureza.A particularidade de Sara, comum a muitas mulheres da sua etnia, eram umas nádegas e coxas extremamente desenvolvidas (esteatopigia) e uma pronunciada hipertrofia dos lábios vaginais, que pareciam um pequeno avental. Sara foi convencida a viajar com a promessa de uma vida melhor, mas, ao chegar a Londres, aos 21 anos, descobriu que tinha de se exibir nua em museus, universidades, circos, bares e bordéis, como "besta selvagem", segundo uma descrição do "London Times".A Sociedade Inglesa contra a Escravatura descreveu as exibições como "um triste espetáculo, com laivos de prostituição". Cezar levou logo a jovem para Paris, onde as apresentações adotaram um caráter científico, devido ao elevado número de catedráticos que a queriam observar. Entre eles estava o famoso médico e naturalista francês Georges Cuvier, criador da anatomia comparada e honrado pela corte de Napoleão Bonaparte como "o pai da Paleontologia", cujas teorias contribuíram para o racismo científico do século 19, pois falava na "inferioridade da raça negra".Cuvier descrever Sara como algo "parecido com um orangotango" e, em 1815, quando a jovem morreu, aos 25 anos, reclamou o seu corpo em nome do "progresso do conhecimento humano". O cientista encarregou-se de fazer um molde em gesso do cadáver, dissecado minuciosamente, e guardou o esqueleto e alguns tecidos - incluindo o cérebro e os órgãos genitais -, que armazenou em frascos com formol.A exposição foi depois montada no Museu Nacional de História Natural e no Museu do Homem, onde permaneceu até 1974. A devolução dos despojos mortais teve de ser submetida ao Parlamento gaulês, porque, em 1815, foram declarados "patrimônio nacional e bem inalienável do Estado".A África do Sul ainda não decidiu qual o destino dará aos restos mortais de Sara. "Não queremos que o seu enterro se torne num circo", disse o professor Bredekamp.

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