Corpos em putrefação são encontrados em hospital abandonado

Médicos e enfermeiras fugiram de unidade médica após chegada de rebeldes; há suspeita de execuções

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Os confrontos armados pelo poder na Líbia produziram ontem, em Trípoli, uma das cenas mais atrozes em seis meses de violência. Dezenas de corpos abandonados e insepultos foram encontrados no Hospital de Abu Salim, na periferia da capital, depois que as tropas leais a Muamar Kadafi foram, enfim, expulsas da região.

No interior do prédio, o retrato cruel da guerra é completo: cadáveres em estado de decomposição indicam que os mortos foram deixados agonizando por médicos e enfermeiros. Há também suspeitas de que eles - a maioria negros e soldados - possam ter sido executados.

As cenas no hospital são chocantes. O Estado entrou na unidade médica na tarde de ontem e verificou o horror vivido pelas vítimas. Atirados em leitos, fechados em salas cujos pisos estavam cobertos de sangue, dezenas de corpos estavam largados em macas.

Inchados, vários deles não resistiam íntegros à remoção. O cheiro no interior do prédio era abominável. Moscas e larvas empesteavam o ambiente. "É um desastre", disse um voluntário sobre o que via.

No fim da tarde, voluntários tentavam, com o auxílio de poucos profissionais de saúde pública, retirar os cadáveres e iniciar a limpeza do hospital. Antes da transferência, os corpos eram cobertos por um pó branco para estabilizar o odor e protegê-los dos insetos.

Para removê-los, os voluntários viravam os leitos, deixando os corpos caírem sobre um saco plástico, no qual eram enrolados e colocados em caminhões abertos e sem refrigeração. Também sem receber nenhuma atenção, mais algumas dezenas de corpos estavam empilhados do lado de fora, em um terreno gramado, a cerca de 100 metros da entrada do hospital.

Vários mortos pareciam negros da África Subsaariana, talvez mercenários que lutavam ao lado das forças do ditador - muitos vestiam roupas militares. Segundo testemunhos colhidos pelo Estado em Abu Salim, o hospital foi transformado em pronto-socorro militar de Kadafi. Cercados, médicos e enfermeiros teriam abandonado o local, deixando os pacientes agonizando. Eles teriam morrido ao longo dos últimos três dias.

Segundo versão dos rebeldes que faziam a segurança durante a operação de remoção dos corpos, os mortos seriam soldados kadafistas ou mercenários. Havia também suspeitas de execuções sumárias praticadas no hospital. Essas duas versões não puderam ser verificadas pela reportagem.

Apesar do amplo apoio da população local ao regime, nenhum morador denunciou aos jornalistas nenhum tipo de violência no hospital. "Em Abu Salim, as pessoas são como camaleões. Apoiaram Kadafi até o último momento, mas, agora, são todos revolucionários", explicou Khaled Medhat, técnico em saúde que fez seu estágio ali.

Enquanto os voluntários trabalhavam no início da limpeza, do lado de fora, parentes se revezavam à procura de desaparecidos. Radia Selem, de 39 anos, encontrou seu filho entre os corpos. Desaparecido havia seis dias, Mahmoud Abdel Aziz, de 17 anos, tinha saído para ir ao comércio quando sumiu.

Os rebeldes também encontraram ontem corpos nas imediações do Aeroporto Internacional de Mitiga. Eles apresentavam os pulsos amarrados e sinais de execução.

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