Correa usa caso de Snowden para liderar bolivarianos

Presidente equatoriano aproveita-se da situação do ex-agente americano para se projetar em sua região, dizem analistas

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h04

Recém-empossado para seu terceiro mandato, o presidente do Equador, Rafael Correa, tem usado a conturbada fuga do ex-técnico da CIA Edward Snowden de Hong Kong para a Rússia e a retenção do avião do presidente boliviano, Evo Morales, na Áustria, para projetar-se regionalmente como líder bolivariano, avaliam analistas.

O governo de Correa, que desde o ano passado abriga o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, em sua embaixada em Londres, concedeu abrigo para a fonte dos vazamentos de um programa secreto de espionagem na capital britânica. Uma semana depois, liderou a resposta o incidente com Evo, quando o boliviano foi impedido de atravessar a Europa em seu avião presidencial, suspeito de transportar Snowden.

"Incrível! Negaram entrada no espaço europeu ao avião de Evo Morales. E depois nos falam de cúpulas UE /América Latina?", criticou Correa. "O que ocorreu é extremamente grave. Com o presidente temporário da Unasul, (o peruano) Ollanta Humala, estamos tratando de organizar uma reunião de presidentes sobre essa afronta à nossa América."

A reunião de emergência da Unasul exigiu um pedido de desculpas de Espanha, França, Itália e Portugal - que negaram a permissão de viagem a Evo sob a suspeita de que Snowden estaria a bordo rumo a um asilo na Bolívia.

As críticas mais duras vieram de Equador, Venezuela, Argentina e Uruguai. "São horas decisivas na Unasul: ou somos rotulados de colônias ou reivindicamos nossa independência, soberania e dignidade", declarou Correa. "A nossa solidariedade é com Evo e o povo boliviano. O que acontece com a Bolívia, acontece com todos nós."

Para o cientista político Simón Pachano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) do Equador, Correa tenta ganhar pontos perante a opinião pública com o asilo a Assange e o protagonismo no caso Snowden, além de tentar ocupar o vácuo deixado pela morte do venezuelano Hugo Chávez como líder da esquerda bolivariana. "Correa quer ter uma imagem de defensor de direitos humanos. Para isso, o caso Snowden é útil, mas é contraditório com a atitude dele com a imprensa no Equador", afirma.

Correa chegou a dizer que analisaria com cuidado o pedido de asilo político de Snowden e seu cônsul em Londres emitiu um salvo-conduto que permitiu que o americano, com o passaporte cassado, viajasse de Hong Kong para Moscou, na semana passada.

Depois da pressão americana, que envolveu um telefonema do vice-presidente Joe Biden com o pedido de não conceder o asilo, Correa voltou atrás e afirmou que não poderia conceder o asilo, a não ser que Snowden apresentasse um pedido numa representação diplomática equatoriana. Nesse meio tempo, os EUA ameaçaram romper com um programa de descontos alfandegários ao Equador, caso Snowden fosse asilado no país.

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