Corredor humanitário é aberto para ajudar deslocados no Congo

Passagem deve levar suprimentos para milhares de pessoas que fugiram dos combates liderados pelos rebeldes

Agências internacionais,

31 de outubro de 2008 | 11h05

A ONU utilizará nesta sexta-feira, 31, um "pequeno corredor humanitário" que acaba de ser aberto de Goma até Kibali para levar ajuda a milhares de deslocados pelos combates dos últimos dias entre o Exército da República Democrática do Congo (RDC) e forças rebeldes. O anúncio foi feito pela porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Veronique Taveau, que afirmou que os voluntários darão a primeira ajuda de emergência à região de Kibali, a 10 quilômetros de Goma, capital da província Kivu Norte, cenário dos confrontos.   Veja também: Histórico dos conflitos armados no Congo   Taveau não pôde informar quem autorizou a passagem dos representantes da ONU, pois "ainda não se sabe precisamente quem controla o quê". Já a porta-voz do Escritório de Coordenação da Ajuda Humanitária da ONU (Ocha), Elisabeth Byrs, garantiu que a situação é "muito complexa e confusa" e confirmou que o cessar-fogo declarado há dois dias pelos rebeldes se mantém, apesar de "a situação de segurança ser tensa".   Byrs ressaltou que as últimas informações recebidas da área comprovam que as forças armadas da RDC deixaram Goma, enquanto os rebeldes do Congresso Nacional da defesa do Povo (CNDP) se mantêm "a alguns quilômetros da cidade". Informações de Kibali informam que nas últimas horas 45 mil deslocados haviam saído de dois acampamentos na cidade devido aos combates, uma situação que a ONU analisará hoje graças ao acesso que acaba de conseguir. Já o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) afirmou ter recebido informações alarmantes de que vários acampamentos de deslocados (com 50 mil pessoas) na cidade de Rutshuru, a 90 quilômetros de Goma, "foram esvaziados à força, saqueados e queimados".   Em entrevista à CNN, o ex-general rebelde Laurent Nkunda disse que estava disposto a criar o "corredor humanitário" para que a ajuda chegue aos milhares de refugiados, que aumentaram nos últimos quatro dias de luta no Leste do Congo. Nkunda disse em entrevista à CNN que quer começar a trabalhar com a missão da ONU no país nesta sexta, para permitir que as pessoas possam retornar para suas casas.   Apesar da trégua anunciada pelo grupo rebelde tutsi, houve uma onda de saques a casas e lojas, pelo menos nove pessoas foram assassinadas e três jovens foram estupradas na cidade de Goma, considerada estratégica no país. Um funcionário da missão de paz da ONU acusou os próprios soldados congoleses pelos atos, informação negada pelo coronel do Exército Jonas Padiri. Segundo Padiri, as pessoas foram mortas "por ladrões". Nkunda ameaçou romper a trégua e ocupar a cidade, caso a ONU não seja capaz de manter a paz. Segundo ele, a missão internacional falhou em proteger os civis dos soldados do governo. "Vamos entrar em Goma se não houver cessar-fogo, segurança e avanços no processo de paz", declarou Nkunda, um ex-general da etnia tutsi.   Segundo a BBC, a Cruz Vermelha afirmou que as forças rebeldes e o Exército no Congo causaram uma "catástrofe humanitária" no país. Esforços diplomáticos estão sendo feitos para tentar solucionar a crise, que pode se espalhar pelo país vizinho, Ruanda. Agências de ajuda humanitária como a Oxfam decidiram retirar seus funcionários estrangeiros de Goma. Michael Khambatta, do Comitê Intenacional da Cruz Vermelha, disse à BBC que a prioridade agora é fornecer comida, remédios, abrigo e alguma forma de segurança aos civis que foram forçados a deixar suas casas.   Na última quarta-feira, depois de dias de combates com as tropas governamentais, o general Nkunda declarou um cessar-fogo e suas tropas ficaram posicionadas a cerca de 15 quilômetros de Goma, capital da província de Kivu do Norte. A ONU está considerando reposicionar parte de seus 17 mil soldados no país para dar reforço aos 5 mil homens que estão na cidade. As tropas de de Nkunda são acusadas de receber apoio do governo de Ruanda, atualmente governada pelos tutsis, o que o país nega. Analistas afirmam que além das diferenças étnicas, o conflito também se deve à disputa pelas riquezas minerais da região.   O conflito no Congo é uma conseqüência do genocídio de Ruanda, que deixou 500 mil tutsis mortos em 1994. Mais de 1 milhão de hutus fugiram para o Congo, onde se reagruparam em uma milícia violenta. Em reação, Nkunda, da etnia tutsi, lidera o grupo de rebeldes. Ele acusa o governo de Joseph Kabila de fazer pouco para ajudar sua minoria étnica.   Histórico   O início do atual conflito no Congo se remonta a 1998, quando os rebeldes banyamulenges - tutsis de origem ruandesa - levantaram-se contra o governo de Laurent Kabila, quem tinha chegado ao poder em meados de 1997, apoiado pelos próprios tutsis. Desde então, o conflito entre os rebeldes do CNPD e os soldados congoleses não cessou, embora a situação tivesse se acalmado depois que Nkunda e o atual presidente, Joseph Kabila, assinassem um acordo de paz, em 23 de janeiro.   Em 10 de outubro, porém, Kabila exortou publicamente os congoleses a se mobilizarem "para apoiar as tropas e o governo e preservar a unidade e a paz de nosso país", enquanto Nkunda chamou os cidadãos a se levantarem "contra um governo que traiu seu povo."   Mais de 5,4 milhões de pessoas morreram na RDC por causa do conflito, no qual os governos de Kinshasa, Campala e Kigali se acusam mutuamente de apoiar os grupos rebeldes que atuam em seus países. Em um relatório divulgado no início deste ano em Kinshasa, pouco após a assinatura do último tratado de paz, a organização humanitária International Rescue Committee assinalou que os conflitos e as crises humanitárias continuam causando uma média de 45 mil no país a cada mês.   "Em termos de número de mortos, o conflito congolês e suas conseqüências ultrapassam qualquer outro desde a Segunda Guerra Mundial", indicava o documento.

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