Corrida armamentista é erro

Apesar da insistência do Pentágono, EUA não podem entrar em nova escalada nuclear

WALTER, PINCUS, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2015 | 02h03

A retórica sobre armas nucleares entre Washington e Moscou está esquentando, mas não há a menor necessidade de restabelecer a tola e perdulária corrida armamentista que dominou o período da Guerra Fria. Por uma razão: os desafios de segurança mudaram.

Ter 1,5 mil ou mais ogivas nucleares americanas instaladas em mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs, na sigla em inglês) ou aviões estratégicos com bombas atômicas não ajudará um presidente americano a derrotar terroristas ou a lidar com guerras "terceirizadas" em algum lugar do mundo - ou mesmo proteger ativos americanos nas novas arenas de confronto no espaço e no ciberespaço.

Além disso, seriam astronômicos os custos para modernizar a tríade atual de sistemas de transporte - submarinos estratégicos, bombardeiros e ICBMs -, mas também para dar continuidade aos programas de prolongamento da vida do estoque nuclear e modernizar o próprio complexo de produção de armas do tipo.

O vice-secretário de Defesa dos EUA, Robert Work, disse à Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados na quinta-feira que o custo de toda essa modernização seria, em média, US$ 18 bilhões por ano de 2021 a 2035 - ou US$ 252 bilhões em 14 anos.

Essa média anual é quase o dobro dos gastos propostos com armas nucleares para o próximo ano e significaria que 7% do orçamento do Departamento de Defesa seriam dedicados nesses anos apenas ao programa de armas nucleares, ante cerca de 3% atuais.

"Concretizar esse plano vai sair muito caro e nós reconhecemos isso", disse Work, acrescentando que ele "requererá escolhas muito duras e terá impacto em outras partes do portfólio de defesa, particularmente em nossa capacidade de missões convencionais". Ele também advertiu que essas "estimativas de custo em 20 anos são imprecisas".

A questão real agora deveria ser por que os Estados Unidos precisarão de todos os novos sistemas de transporte e todas as ogivas e bombas nucleares nas próximas décadas? Façamos uma pausa para ouvir as explicações dadas na semana passada ao Congresso por dirigentes do Pentágono.

Rússia. Work disse à comissão que "a única ameaça existencial a nossa nação é um ataque nuclear. A única medida é impedir um ataque catastrófico, que acreditamos que seria de uma ou duas armas nucleares disparadas contra os EUA continentais ou explodindo nos EUA continentais". Ele falou da "doutrina militar russa que às vezes é descrita como 'fazer a escalada para fazer a desescalada'" - que aparentemente significa que Moscou ameaçaria usar ou usaria realmente algumas armas nucleares numa situação em que estivesse perdendo para forças convencionais maiores. A ameaça ou o uso de armas nucleares faria o inimigo da Rússia se conter ou recuar.

"Observando a maneira como o ambiente internacional está se arranjando, em especial a maneira como a Rússia vem descrevendo sua posição de dissuasão nuclear, será preciso dizer: as armas nucleares continuam sendo a mais importante missão que temos", disse Work.

Mas isso é conversa de Guerra Fria. O almirante James Winnefeld Jr., vice-comandante do Estado-Maior Conjunto americano, foi questionado na audiência de quinta-feira sobre a modernização pelos russos de seus sistemas de armas nucleares.

Ele respondeu que sua maior preocupação com o programa de Moscou era sua virada para ICBMs móveis instalados em terra. Por quê? Porque, disse ele, "eles seriam difíceis de ser atingidos por um primeiro ataque nosso". Isso só ocorreria se chegasse o momento em que os Estados Unidos quisessem preventivamente eliminar as forças nucleares da Rússia antes que Moscou atacasse - um cenário extremamente duvidoso, mas os temores do primeiro ataque da Guerra Fria levaram os americanos a construir dezenas de milhares de ogivas.

Quanto ao restante das forças nucleares da Rússia, Winnefeld testemunhou que "seu bombardeiro não é tão bom quanto o nosso", e "sua força de mísseis balísticos lançada de submarinos, mesmo com suas melhorias, não é tão boa quanto a nossa."

Por que não reduzir as forças americanas? Winnefeld deu a resposta tradicional pós-Guerra Fria: "Ainda acreditamos que qualquer redução nas armas precisam ser feitas em coordenação com nossos potenciais antagonistas, pois gestos unilaterais de boa vontade pesam pouco para regimes autoritários".

Enquanto isso, cada comandante americano justifica a continuação do próprio papel na tríade.

"Se olharmos para o ambiente mundial de hoje, ele é mais perigoso do que na Guerra Fria e mais imprevisível - e a força ICBM é tão válida hoje quanto era nos anos 1960", disse o major general da Força Aérea Jack Weinstein, comandante do 20.º Grupamento da Força Aérea, à Comissão da Câmara na quinta-feira.

Um dos nossos submarinos estratégicos classe Ohio "estará na água até aproximadamente 2084", disse o vice-almirante Terry Benedict, diretor dos programas de sistemas estratégicos da Marinha.

"Quando tentamos projetar nossas ameaças por esse período de tempo, o foco principal era assegurar que não seríamos surpreendidos no futuro."

A frota de bombardeiros "é a parte mais visível e mais flexível da tríade nuclear. É isso que a frota de bombardeiros oferece. E eu penso que, do ponto de vista da flexibilidade, não há muito o que discutir aqui", foram as palavras do major general da Força Aérea Richard Clark, comandante do 8.º Grupamento da Força Aérea.

E para qualquer redução unilateral, Work forneceu a velha resposta de sempre, "Este não é o momento para dizermos que armas nucleares são inúteis".

Não estou dizendo que armas nucleares são inúteis. Estou sugerindo que os Estados Unidos não precisam de uma força nuclear grande o bastante para sobreviver a um primeiro ataque decapitador porque não existe tal ameaça - a ideia de um primeiro ataque soviético era um mito, mas mesmo assim acarretou a corrida armamentista nuclear da Guerra Fria. Não devemos repetir isso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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