Doug Mills/NYT
Doug Mills/NYT

Corrida pela vacina contra o coronavírus cria duelo entre agências de espionagem 

Pandemia fez com que todos os principais serviços de espionagem do mundo tentem descobrir o que todos os outros estão fazendo para coletar dados sobre uma vacina

Julian E. Barnes e Michael Venutolo-Mantovani, The New York Times , O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 12h00

WASHINGTON - Hackers da inteligência chinesa tinham o objetivo de roubar dados sobre a vacina contra o coronavírus. Eles então procuraram o que acreditavam ser um alvo fácil. Em vez de simplesmente ir atrás das empresas farmacêuticas, fizeram um reconhecimento digital da Universidade da Carolina do Norte e de outras universidades que estão conduzindo pesquisas de ponta.

Mas eles não foram os únicos espiões empenhados na tarefa. O principal serviço de inteligência da Rússia, o SVR, pôs seu alvo em redes de pesquisa de vacinas nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, esforços de espionagem que foram detectados pela primeira vez por uma agência de espionagem britânica que monitorava cabos de fibra óptica internacionais.

O Irã também intensificou drasticamente suas tentativas de roubar informações sobre pesquisas de vacinas, e os Estados Unidos aumentaram seus próprios esforços para rastrear a espionagem dos adversários e fortalecer suas defesas.

Em suma, todos os principais serviços de espionagem do mundo estão tentando descobrir o que todos os outros estão fazendo.

A pandemia de coronavírus provocou uma das mais rápidas mudanças de missão em tempos de paz das últimas décadas para as agências de inteligência de todo o mundo, colocando-as umas contra as outras em um novo grande jogo de espião contra espião, de acordo com entrevistas com agentes e ex-agentes de inteligência e outras pessoas que acompanham os esforços de espionagem.

Quase todos os adversários dos Estados Unidos intensificaram suas tentativas de roubar a pesquisa americana, enquanto Washington, por sua vez, movimentou-se para proteger as universidades e empresas que fazem o trabalho mais avançado. A inteligência da OTAN, normalmente preocupada com o movimento de tanques russos e células terroristas, expandiu-se para analisar os esforços do Kremlin para roubar pesquisas de vacinas, de acordo com um oficial ocidental informado sobre a inteligência.

Corrida geopolítica pela vacina contra coronavírus

A competição pela vacina é uma reminiscência da corrida espacial, em que a União Soviética e os Estados Unidos dependiam de seus serviços de espionagem para informá-los quando o outro parecia prestes a atingir um marco histórico. Mas, se a disputa da Guerra Fria para alcançar a órbita da Terra e a lua se desenrolou ao longo de décadas, a linha do tempo para ajudar a proteger os dados sobre os tratamentos do coronavírus é fortemente comprimida conforme a necessidade da vacina fica mais urgente a cada dia.

“Surpreendente seria se eles não estivessem tentando roubar a pesquisa biomédica mais valiosa que está sendo desenvolvida agora”, disse John C. Demers, alto funcionário do Departamento de Justiça, sobre a China no mês passado, durante um evento realizado pelo Center for Strategic and International Studies. “Valioso do ponto de vista financeiro e inestimável do ponto de vista geopolítico”.

O esforço da China é complexo. Seus operadores também usaram sub-repticiamente informações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para guiar suas tentativas de hackear vacinas, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, segundo um agente da ativa e um aposentado, ambos familiarizados com a inteligência.

Não está claro exatamente como a China vinha usando sua posição de influência na OMS para reunir informações sobre o trabalho com vacinas em todo o mundo. A organização coleta dados sobre vacinas em desenvolvimento e, embora muitos deles sejam eventualmente divulgados, os hackers chineses podem ter se beneficiado ao obter informações antecipadas sobre quais esforços de pesquisa de vacinas contra o coronavírus a OMS considerou mais promissores, de acordo com um ex-agente de inteligência.

Funcionários da inteligência americana souberam dos esforços da China no início de fevereiro, quando o vírus estava começando a se espalhar pelos Estados Unidos, de acordo com ex-funcionários americanos. A CIA e outras agências acompanham de perto os movimentos da China dentro das agências internacionais, incluindo a OMS.

A conclusão da inteligência ajudou a empurrar a Casa Branca para a direção linha dura que adotou em maio em relação à OMS, de acordo com o ex-agente da inteligência.

Além da Universidade da Carolina do Norte, hackers chineses também miraram outras universidades de todo o país, e algumas delas podem ter sofrido violações a suas redes, disseram autoridades americanas. Demers disse em seu discurso que a China havia conduzido “intrusões múltiplas” além daquela que o Departamento de Justiça revelara em uma denúncia em julho, a qual acusava dois hackers de trabalharem em nome do serviço de espionagem do Ministério de Segurança do Estado da China para roubar informações sobre vacinas e pesquisas de empresas de biotecnologia americanas.

O FBI alertou funcionários da Universidade da Carolina do Norte nas últimas semanas sobre as tentativas de invasão, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o assunto. As equipes de hackers chinesas estavam tentando invadir as redes de computadores do departamento de epidemiologia da universidade, mas não se infiltraram nelas.

Uma porta-voz da Universidade da Carolina do Norte, Leslie Minton, disse que a universidade “recebe regularmente alertas de ameaças de agências de segurança dos Estados Unidos”. Ela direcionou as outras perguntas ao governo federal, mas disse que a universidade havia investido em “monitoramento 24 horas” para “ajudar na proteção contra ataques persistentes de ameaças avançadas de organizações patrocinadas por estados”.

Além de hackear, a China tentou entrar nas universidades de outras maneiras. Alguns funcionários do governo acreditam que o país está tentando tirar proveito das parcerias de pesquisa que as universidades americanas estabeleceram com instituições chinesas.

Outros alertaram que agentes da inteligência chinesa nos Estados Unidos e em outros lugares tentaram coletar informações sobre os próprios pesquisadores. O governo Trump ordenou em 22 de julho que a China fechasse seu consulado em Houston, em parte porque agentes chineses o usaram como um posto avançado para tentar fazer incursões sobre especialistas médicos na cidade, segundo o FBI.

Oficiais de inteligência chineses estão focados nas universidades em parte porque consideram as proteções de dados dessas instituições menos robustas do que as das empresas farmacêuticas. Mas o trabalho de espionagem também está se intensificando à medida que os pesquisadores compartilham mais candidatos a vacinas e tratamentos antivirais no processo de revisão por pares, dando aos adversários uma chance melhor de obter acesso às formulações e estratégias de desenvolvimento de vacinas, disse um funcionário do governo americano informado sobre a inteligência.

Tentativas sem sucesso

As autoridades acreditam que, até agora, os espiões estrangeiros tiraram poucas informações das empresas americanas de biotecnologia que visavam: Gilead Sciences, Novavax e Moderna.

Ao mesmo tempo em que a agência britânica de vigilância eletrônica GCHQ estava descobrindo o esforço russo e a inteligência americana, o hacking chinês, o Departamento de Segurança Interna e o FBI enviavam equipes para trabalhar com grupos de biotecnologia americanos para reforçar as defesas de suas redes de computadores.

O esforço russo, anunciado em julho por agências de inteligência britânicas, americanas e canadenses, pôs o foco principalmente na coleta de informações sobre pesquisas pela Universidade de Oxford e sua corporação farmacêutica parceira, a AstraZeneca.

Os russos que foram pegos tentando obter informações sobre as vacinas faziam parte do grupo conhecido como Cozy Bear, um coletivo de hackers afiliados ao SVR. O Cozy Bear foi um dos grupos de hackers que em 2016 invadiram servidores de computadores do Partido Democrata.

Autoridades de segurança interna alertaram universidades e empresas farmacêuticas sobre os ataques e ajudaram as instituições a reavaliar sua segurança. Na maioria dos casos, as autoridades observaram que os potenciais hackers de vacinas estavam usando vulnerabilidades conhecidas que ainda não tinham sido corrigidas, e não as armas cibernéticas mais sofisticadas, as quais procuram lacunas desconhecidas na segurança dos computadores.

Nenhuma empresa ou universidade anunciou roubos de dados resultantes de esforços de hackers identificados publicamente. Mas algumas das tentativas dos hackers conseguiram pelo menos penetrar nas defesas para entrar nas redes de computadores, de acordo com um funcionário do governo americano. E os hackers da China e da Rússia vêm testando os pontos fracos todos os dias, de acordo com agentes da inteligência.

“É realmente uma corrida contra o tempo para que os mocinhos encontrem as vulnerabilidades, consigam corrigi-las e implantem essas correções antes que o adversário as encontre e as explore”, disse Bryan S. Ware, diretor assistente de segurança cibernética da Agência de Segurança Cibernética e Segurança de Infraestrutura do Departamento de Segurança Interna. “A corrida está mais acirrada do que nunca”.

Embora apenas duas equipes de hackers, uma da Rússia e outra da China, tenham sido identificadas publicamente, várias equipes de hackers de quase todos os serviços de inteligência desses dois países têm tentado roubar informações sobre vacinas, de acordo com autoridades policiais e de inteligência.

A Rússia anunciou em 11 de agosto que havia aprovado uma vacina, declaração que imediatamente levantou suspeitas de que seus cientistas tenham sido pelo menos ajudados pelo roubo de informações sobre as pesquisas de outros países, trabalho das agências de espionagem.

A Rússia tem um longo histórico de tentativas de aumentar as divisões na sociedade americana. Agentes e ex-agentes da segurança nacional disseram que o mais provável é que a Rússia acabe espalhando desinformação sobre qualquer vacina aprovada no Ocidente.

“Este caso parece ser um retrocesso à velha União Soviética”, disse Fiona Hill, ex-autoridade do Conselho de Segurança Nacional e especialista em Rússia que testemunhou nas audiências do impeachment contra o presidente Donald Trump. “A Rússia e os chineses têm promovido campanhas de desinformação. Quer melhor maneira de criar confusão e enfraquecer ainda mais os Estados Unidos do que estimular o movimento antivacina? Mas é claro que eles se certificam de que sua própria população está bem vacinada”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.