Corrupção aumenta crise da democracia peruana

Corrupção aumenta crise da democracia peruana

Analistas temem que descrédito dos partidos e dos líderes políticos aumente a chance de um aventureiro chegar ao poder no Peru

Luiz Raatz, ENVIADO ESPECIAL A LIMA

21 de abril de 2019 | 04h05

“Que todos vão embora.” É assim que a grande maioria dos peruanos se expressa quando questionada sobre o impacto da corrupção no país. O pedido é reforçado pelos números. Segundo a última pesquisa do Instituto Datum sobre o impacto da Lava Jato no Peru, quase nove em cada dez peruanos consideram os ex-presidentes envolvidos em denúncias de corrupção culpados. O trabalho do Ministério Público é apoiado por 63% da população. 

Historicamente, os peruanos têm uma relação difícil com seus ex-presidentes. Desde a queda de Alberto Fujimori, raramente a aprovação dos últimos presidentes superou 50%. Segundo o instituto CPI, Alejandro Toledo deixou o cargo bem avaliado por 36% dos peruanos. Ollanta Humala, por 24%. Alan García, que se matou na semana passada ao receber um mandado de prisão, era o melhor avaliado, 46% de aprovação. 

A Lava Jato, que começou a afetar o país em 2016, apenas exacerbou a passividade dos peruanos em relação à política. “Desde o tempo de Fujimori todos roubam. O Cavalo Louco (apelido de García) deve ser o que mais roubou. E, além de tudo, era muito arrogante. Por isso, já não me importo mais com políticos”, diz Juan César Toche, gerente de uma loja de calçados de Lima. “Agora, pelo menos estão fazendo alguma coisa, mas duvido que condenem alguém.”

García e Toledo são os que têm a pior imagem junto à população: 93% e 92% os veem como corruptos, segundo o Datum. Em seguida, vêm Humala, com 88%, e Pedro Pablo Kuczynski (PPK), com 85%. Analistas veem o risco de essa passividade agravar ainda mais a crise política do país. 

“O Congresso é a casa da democracia e é a instituição mais mal avaliada do país”, diz o analista Arturo Maldonado. “Essa reação – de que todos devem ir embora – está se transformando num rechaço completo à política, com riscos para a ascensão de um aventureiro nas próximas eleições.”

PPK renunciou ao cargo no ano passado em meio a denúncias vinculadas ao caso Odebrecht. Ele foi eleito em 2016 numa disputa voto a voto com Keiko Fujimori, filha do ex-presidente, que também está presa por suspeitas de corrupção relacionadas à Lava Jato. Mesmo figuras políticas regionais, como os ex-prefeitos de Lima Susana Villarán e Luis Castañeda, também são alvos do MP. Com isso, a sucessão do presidente Martín Vizcarra, que substituiu PPK, está mais indefinida do que nunca.

“Dois anos na política peruana é uma eternidade. Aqui, as coisas se definem no último momento”, diz o analista Hugo Guerra, lembrando as duas últimas eleições, nas quais Keiko foi derrotada por PPK e Humala, nos últimos dias de campanha, por uma pequena margem.

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