Corrupção consome até 40% da ajuda externa ao Afeganistão

Desde invasão de 2001, ?construção do regime? teve prioridade sobre obras de infraestrutura

Lourival Sant?Anna, O Estadao de S.Paulo

20 de agosto de 2009 | 00h00

O que mais chama a atenção de quem esteve em Cabul cinco anos atrás é a falta de progresso. O esgoto continua a céu aberto, uma água fétida dos dois lados das ruas, para onde ainda vão os detritos que os afegãos jogam nas ruas. A maior parte das ruas continua de terra, ou da argila cinzenta do solo, levantando a poeira que faz os moradores proteger-se com cachecóis, indumentária do deserto necessária na cidade. Quando anoitece, a capital afegã, praticamente sem iluminação pública, mergulha numa penumbra lúgubre.De novidade, apenas alguns prédios privados, como o Safi Landmark, um hotel e shopping center que constitui o grande orgulho da cidade, por ter a sua primeira - e única - escada rolante. A telefonia melhorou, com quatro companhias disputando o mercado de celulares. Com exceção de algumas estradas construídas ou em construção no país, uma ou outra obra de infraestrutura, Cabul é um microcosmo do que acontece no restante do Afeganistão. Então, o que terá acontecido com os US$ 30 bilhões que a comunidade internacional desembolsou em ajuda civil para o Afeganistão? É o que muitos eleitores afegãos se perguntam.Entre 35% e 40% foram consumidos em corrupção e em outras formas de "falta de integridade" no uso do dinheiro, como superfaturamento de contratos, direcionamento de licitações, salários e aluguéis altos demais, veículos 4X4 blindados e toda forma de gastos perdulários, diz Lorenzo Delesgues, diretor da ONG Integrity Watch Afghanistan, que monitora o uso de verba pública no país.Delesgues, um cientista político francês que mora desde 2002 em Cabul, calcula que, dos US$ 30 bilhões, apenas US$ 10 bilhões ficaram no Afeganistão. O restante foi absorvido pelas empresas estrangeiras que ganharam os contratos nas áreas de construção civil, segurança e outros serviços. E desses US$ 10 bilhões, ele estima que apenas US$ 100 milhões movimentaram a economia afegã, injetados na forma de salários. Toda a matéria-prima e equipamentos usados na execução desses contratos vieram de fora.Para o cientista político Wadir Safi, da Universidade de Cabul, o problema é que a comunidade internacional priorizou a chamada "construção de regime" e negligenciou a reconstrução do país. A ONU montou em Cabul pesadas estruturas com grande número de funcionários, enormes prédios em complexos cercados de vigilância, dedicadas à abstrata tarefa de transformar o Afeganistão numa democracia. "Não há melhoria nenhuma na vida prática, nem o domínio da lei nem Justiça, e portanto não há respeito pelo governo", resume Safi.O Estado afegão continua dependente da ajuda internacional e frágil diante da economia do narcotráfico. Delesgues compara o orçamento anual de US$ 890 milhões do governo do Afeganistão, que tem 33 milhões de habitantes, com o de Timor Leste, US$ 309 milhões para 1 milhão de pessoas. "O Afeganistão tem um dos menores orçamentos per capita do mundo", diz o especialista. Dessa receita, US$ 450 milhões são arrecadação de impostos e royalties (como licenças de telefonia e tráfego aéreo). O restante é coberto por ajuda internacional.Só o que foi gasto nessa campanha eleitoral - US$ 300 milhões - equivale a um terço do orçamento. Já o dinheiro da droga, entre US$ 3 bilhões e US$ 3,5 bilhões por ano, é comparável com a ajuda não-militar dos EUA no Afeganistão: em torno de US$ 4 bilhões, diz Delesgues. Passados mais de sete anos, o Afeganistão está muito longe de criar condições de andar com as próprias pernas - pelo menos legalmente. O país dispõe de grandes riquezas naturais inexploradas: petróleo, gás, urânio, cobre, ferro, zinco, ouro, esmeralda, carvão etc. Companhias estrangeiras, chinesas à frente, estão movimentando-se para firmar contratos de exploração de 30 a 80 anos - num país com leis frágeis e sem sistema regulatório, observa Delesgues.A receita da exploração desses recursos substituirá a ajuda internacional. Para o especialista, o futuro do Estado afegão depende desses contratos, e da receita que possa extrair deles para prestar serviços à população. "É dos serviços públicos que o Estado extrai sua legitimidade, se ele bem o seu trabalho, ninguém mais vai querer o Taleban."

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