Corrupção deixa Honduras à beira do abismo

Policiais corrompidos no combate às drogas dizimam críticos de maneira violenta, deixando a impunidade reinar em país latino

FRANCES ROBES , THE MIAMI HERALD / TEGUCIGALPA, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h08

Sentado no pátio de sua casa na periferia da capital, o cruzado anticorrupção Gustavo Alfredo Landaverde disse o que poucas pessoas têm a coragem de dizer em voz alta em Honduras. "Estamos podres até o âmago", disse sobre a corrupção associada às drogas que infecta virtualmente cada camada do sistema de aplicação da lei no país. "Estamos à beira de um abismo. As organizações criminosas estão do lado de dentro e de fora."

O ex-vice czar da droga foi demitido, processado por calúnia e viu seu último chefe ser assassinado. "Eu me perguntei: 'Por que ainda estou vivo?'" Duas semanas depois, o especialista em segurança de 71 anos estava morto. Em 7 de dezembro, pistoleiros em uma motocicleta aproximaram-se do carro dele e o estilhaçaram a balas.

Landaverde tornou-se mais uma figura trágica na luta em curso em Honduras contra a corrupção que infesta praticamente todas as principais instituições do governo. Esse é um país onde o filho de uma reitora de universidade foi morto a tiros por policiais, e onde prisioneiros são obrigados a sair da prisão para traficar drogas e depois são mortos. Honduras tem hoje a mais alta taxa de homicídios do mundo - 82,1 assassinatos por 100 mil habitantes, ante 5,5 por 100 mil na Flórida e 9 por 100 mil na cidade de São Paulo, por exemplo.

Landaverde foi um dos poucos que ousou dizer que elementos da Polícia Nacional hondurenha estão estreitamente ligados a cartéis da droga, os quais, por sua vez, são protegidos por políticos, juízes e promotores. Segundo fontes policiais, militares e de direitos humanos, os crimes cometidos por autoridades variam de extorsão a roubo de carros.

"Nunca me ocorreu, quando assumi este ministério, que dentro das delegacias houvesse pessoas cometendo crimes e agindo contra a vida humana", disse o ministro de Segurança, Pompeyo Bonilla, nomeado para chefiar uma limpeza na polícia. A despeito do caos desenfreado, foi só em outubro - quando policiais assassinaram o filho de uma reitora universitária e depois tentaram apagar as evidências - que o departamento ficou, de fato, sob intensa observação. Essa morte e a posterior soltura dos suspeitos chocaram a nação e provocaram um abalo que custou os empregos do diretor da polícia e de dezenas de policiais.

Expurgo. Toda semana, repórteres investigativos publicam mais histórias sobre armas policiais desaparecidas e policiais dos altos escalões ligados a traficantes de drogas. O Congresso criou um departamento especial para "avaliar carreiras policiais" e fazer um expurgo na força de 14 mil homens. Mas fontes dizem que as pessoas designadas para chefiar o departamento têm algumas das piores reputações na polícia e são notórias por aceitar propinas, ordenar assassinatos e oferecer proteção a traficantes.

Maria Luísa Borja, ex-diretora da corregedoria da polícia foi posta na geladeira há oito anos após denunciar alguns policiais de alto escalão. "O ministro da Segurança cortou meu orçamento de combustível de modo que os carros não pudessem circular." Seu escritório acabou desprovido de fichários e ela foi suspensa por vazar informações. As pessoas que acusou de assassinato e ocultação de provas foram promovidas, uma delas a vice-ministro da Segurança.

Outro investigador policial de alto escalão disse que descobriu que seu supervisor permitia que membros do esquadrão de forças especiais atuassem também como guarda-costas de traficantes de drogas. Hoje, esse supervisor é comissário, o mais alto escalão do Departamento de Polícia. "A relação de honestos para corruptos na polícia talvez seja dez para um. Mas não ajuda que nove sejam limpos se o que é sujo está no comando", disse o investigador.

O nome mais controvertido na polícia é o comissário José Ricardo Ramírez del Cid, o recém-nomeado diretor da Polícia Nacional. Em uma instituição hierárquica, duas classes seniores de administradores policiais foram curiosamente ignoradas quando Ramírez foi nomeado para o cargo. Funcionários da embaixada americana, autoridades do governo hondurenho e promotores reconheceram que, mesmo em um país onde rumores repugnantes correm soltos, as alegações contra Ramírez são piores que a maioria.

"Essa é a primeira vez que ouço isso", disse Ramírez, quando questionado sobre sua reputação no departamento. "Se nos nomearam para nossos cargos, é porque confiam em nós." O chefe da unidade de corregedoria do Departamento de Polícia disse que há pelo menos quatro casos e várias caixas de relatórios contra Ramírez, envolvendo alegações como abuso de autoridade que nunca foram provadas.

"Fiquei surpreso quando ele foi nomeado, pois vi pessoas de escalão mais alto que foram ignoradas e pensei 'por que essas pessoas não foram nomeadas? O que está havendo aqui?'", disse o comissário da corregedoria Santos Simeon Flores. "Vamos reativar esses casos." Ele disse que seu departamento recebeu 580 queixas contra policiais em 2009. Em novembro, a contagem anual inchou para 1 mil. Cerca de 28% foram encaminhadas à Promotoria, mas ele disse que muitos casos foram derrubados pelos promotores ou por juízes.

Ramírez, que assumiu o cargo no fim de outubro, disse que ainda não teve tempo suficiente para expurgar a polícia de todos seus males. Ele insiste que a taxa de homicídios caiu desde que ele assumiu. Os críticos dizem que isso se deve ao fato de a polícia estar tão pressionada que parou de matar pessoas.

Muitos ativistas hondurenhos pediram aos EUA que intervenham e ajudem a gerir a polícia. Especialistas americanos em segurança técnica seguirão em breve para Honduras. A Organização dos Estados Americanos (OEA) enviou uma missão para imaginar que papel pode desempenhar. "Não estamos muito preocupados com nenhuma questão. É importante para o governo hondurenho fazer esse processo de limpeza e fazê-lo com deliberação e eficácia, o mais rápido que puder", disse a embaixadora americana Lisa Kubiske.

Essa questão de segurança é tão importante que o presidente hondurenho, Porfirio Lobo, seu ministro da Segurança e o presidente do Congresso hondurenho reuniram-se recentemente com autoridades do Conselho de Segurança Nacional e do Departamento de Estado dos EUA para discutir isso e uma proposta de mudança constitucional que autorize extradições.

Após a reunião, Washington elogiou as medidas de Honduras voltadas para a reforma, como nomear juízes com jurisdição nacional, aprovar um imposto de segurança, autorizar o grampo telefônico e restabelecer um adormecido conselho consultivo da polícia.

Queima de arquivo. Em Honduras, administrar prisões é um dos empregos mais lucrativos na hierarquia da polícia. Os presos pagam propinas por tudo, de telefones à liberdade, e recebem permissão para sair para cometer mais crimes em benefício de seus captores. "É difícil investigar os presídios", disse a procuradora de direitos humanos Sandra Ponce. "Eles costumam se autogovernar. Há presos com autoridade de facto." O diretor de presídio Danilo Orellana insistiu que ele limpou as prisões e as escapadas, assassinatos e crimes estão em declínio, apesar da superpopulação generalizada e da falta de recursos.

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