Corrupção e ascensão do extremismo

Existe uma evidente correlação entre a atividade corrupta de governos e o aumento do radicalismo militante

Walter Pincus*, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

14 Maio 2014 | 02h01

O presidente Barack Obama precisa contar com líderes confiáveis nos países que ele procura ajudar para o sucesso dos objetivos da política externa americana. Mais do que Obama, serão esses líderes que determinarão o resultado do esforço americano.

Antes de falarmos sobre a Ucrânia, vamos analisar os homens com os quais Obama teve de tratar até agora. No Iraque, o premiê xiita, Nuri al-Maliki, subiu ao poder em 2006 e vem usando sua autoridade para destruir a oposição e perpetuar-se no cargo, ignorando o conselho dos EUA de fazer um acordo com os sunitas e curdos do país. Consequentemente, ocorreu novo surto de violência e o retorno dos insurgentes sunitas ligados à Al-Qaeda.

No Afeganistão, o presidente Hamid Karzai, outro remanescente da era George W. Bush, deu publicamente as costas às forças militares americanas, que condena por matar e ferir civis afegãos. E, em particular, sugeriu que os americanos ajudaram a oposição taleban ao seu governo. A insatisfação é mútua, como demonstra o recente livro de memórias do ex-secretário da Defesa Robert Gates, segundo o qual Obama "não suporta Karzai".

No Egito, Obama tratava com Hosni Mubarak na época em que seus quase 30 anos ditadura estavam no fim. Agora, poderão surgir complicações para o apoio americano se o ex-comandante das Forças Armadas, Abdel Fatah al-Sissi, vencer as eleições dos dias 26 e 27 e cumprir a promessa de acabar com a Irmandade Muçulmana.

Na Líbia, as forças americanas, juntamente com a Otan, ajudaram a derrubar Muamar Kadafi há quase três anos. No entanto, o governo central da Líbia continua num constante estado de tumulto, porque seu Parlamento eleito, aparentemente, não tem condições de agir em razão da rivalidade política.

Na Síria, os EUA tiveram problemas para identificar e ajudar os grupos que pretendem financiar, porque a oposição ao regime de Bashar Assad inclui terroristas ligados à Al-Qaeda.

Mais recentemente, as atenções do mundo se concentraram na Nigéria e no sequestro de cerca de 300 estudantes pelo grupo Boko Haram, há um mês. O presidente Goodluck Jonathan demorou três semanas para admitir publicamente o sequestro e aceitar a ajuda americana na busca das meninas.

Um elemento comum liga esses líderes que caíram em desgraça: a corrupção dos seus governos. Sarah Chayes, do Carnegie Endowment for International Peace, vem estudando a correlação entre a corrupção e o aumento do extremismo militante. "Quase todos os países que enfrentam uma insurgência extremista, da Nigéria ao Afeganistão, são governados por uma camarilha de cleptomaníacos", escreveu ela em um artigo no Los Angeles Times.

Em fevereiro, Jonathan demitiu o presidente do banco central, que denunciara a falta de pelo menos US$ 20 bilhões das receitas do petróleo. "Acredita-se que a maior parte desses bilhões está sendo desviada para os bolsos do presidente e de seus apaniguados - com a ajuda do ministro do Petróleo, encarregado da contabilidade", escreveu Chayes.

Uma pesquisa de 2011, realizada pela Fundação Internacional de Sistemas Eleitorais, concluiu que mais de nove em cada dez ucranianos acreditam que a corrupção é comum na Ucrânia. O problema vai muito além da polícia, dos tribunais e dos políticos eleitos. Na Ucrânia, as pessoas precisam fazer um pagamento extra nos hospitais e escolas para garantir atendimento.

Na época da Revolução Laranja, todo candidato político prometeu acabar com a corrupção, incluindo Viktor Yanukovich, o presidente pró-Rússia, eleito em 2010 e recentemente destituído. Em 2012, ele assinou uma lei de combate à corrupção, mas, dois meses depois, firmou outra que acabava com a concorrência pública em contratos de estatais, facilitando o caminho para a fraude.

Faltando apenas 12 dias para as eleições presidenciais no país, o favorito é Petro Poroshenko, de 48 anos, um bilionário que há 16 anos entra e sai da composição dos governos. Ele se tornou um dos dez homens mais ricos da Ucrânia com uma holding que inclui as principais fábricas de chocolate do país, fábricas de automóveis, estaleiros e o canal de TV que teve um papel preponderante na cobertura dos protestos que levaram à saída de Yanukovich.

Numa entrevista para o Washington Post, Poroshenko disse: "Um desafio para o futuro da Ucrânia é a modernização do país e uma reforma que leve à tolerância zero para a corrupção". Parece excelente, mas não podemos esquecer da memorável tirada do procurador-geral John Mitchell, dos EUA, no governo Nixon. "Vejam o que fazemos e não o que dizemos".

*Walter Pincus é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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