Corrupção e conflitos prejudicam reconstrução pós-tsunami

Dois anos depois do tsunami que arrasou o Sul da Ásia, quase metade da população desabrigada no Sri Lanka ainda não recuperou seus lares e os trabalhos de reconstrução são prejudicados pelo conflito entre o governo e a guerrilha dos tigresTâmeis.O Sri Lanka foi, depois da Indonésia, o país com maior número de vítimas do tsunami, com cerca de 40 mil mortes, sofrendo devastações no leste, norte e sul da ilha do Oceano Índico. Como conseqüência das gigantescas ondas de nove metros que avançavam a 800 km/h, mais de meio milhão de pessoas tiveram que abandonar suas casas e cerca de 114 mil famílias perderam seus lares. Segundo dados do organismo encarregado da reconstrução, pertencente à Agência de Reconstrução e Desenvolvimento (Rada, sigla em inglês), apenas 63.469 casas foram construídas em projetos conjuntos entre o Governo, a ONG e o setor privado. A Rada afirma ainda que já começou a construção de mais 47.859 casas, o que indica que quase metade da população desabrigada pelo tsunami continua vivendo em abrigos provisórios. Além disso, a lentidão dos trabalhos de reconstrução está envolta em polêmica depois que um comitê parlamentar encarregado pelo governo de supervisionar a situação acusou as ONGs de não terem concluído nem 10% do trabalho. Apesar dos indícios de corrupção, nada está sendo tão prejudicial aos refugiados quanto o conflito travado desde 1983 entre o governo e a guerrilha dos Tigres de Libertação da Pátria Tâmil (LTTE), que causou 65 mil mortes e segue latente apesar do processo de paz emandamento. O Banco Asiático de Desenvolvimento, que concedeu ajuda no valor de ? 120 milhões para a reconstrução do Sri Lanka, lamentou que o conflito esteja prejudicando os projetos no norte e no leste do país, áreas mais afetadas pelo tsunami e pelos combates. Após o cessar-fogo assinado em fevereiro de 2002, a catástrofe originada pela onda gigante aproximou governo e guerrilheiros, que concordaram em junho de 2005 em se unir para ajudar na reconstrução. O cessar-fogo, no entanto, parece não ter efeito, diante dofracasso das negociações de paz e o comprovado aumento dos confrontos no norte e leste do país. Há um mês, o líder dos LTTE, Velupillai Prabhakaran, considerou o acordo como "morto" em seu discurso anual de comemoração do Dia dos Mártires Tâmeis, no qual reivindicou a independência como única solução para o conflito. O Sri Lanka enfrenta ainda o drama dos sobreviventes obcecados com a perda de seus parentes e amigos há dois anos. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos Políticos (IPS, sigla em inglês) revelou que em 11% das famílias foram encontrados casos de suicídio em conseqüência do tsunami. O estudo revelou que, dois anos depois, 30% das crianças de famílias atingidas pela tragédia ainda não retomaram seus estudos em um país que se orgulhava de seu sistema educacional e de ter a maior taxa de alfabetização do Sul da Ásia, com 94%.

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