Corrupção e instabilidade

Os telegramas do WikiLeaks mostram também como o setor empresarial argelino estaria submetido aos militares. A empresa Sonatrach, gigante do setor de energia, teve sua cúpula destituída depois que o serviço secreto militar os investigou por corrupção. Segundo os americanos, a iniciativa foi a de dar um recado ao presidente: o poder deve também ser dado aos militares.

, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Um jornal local publicou em 2007 uma história mostrando o envolvimento de dois dos três irmãos do presidente Bouteflika com a corrupção, o que só ocorreu "o tácito estímulo e proteção dos serviços de inteligência".

Para o diplomata francês, o poder está nas mãos do general Toufik Mediene, chefe do serviço secreto que teria indicado que o problema da corrupção chega até a cúpula do regime. "A saúde de Bouteflika não vai bem; nem a da Argélia", disse o general. Para o embaixador americano, Robert Ford, "o regime argelino parece mais frágil que nunca, assolado por falta de visão e um nível sem precedentes de corrupção". No mesmo ano, Bajolet mostrou a preocupação de Paris. "O governo francês está preocupado porque a Argélia se encaminha gradualmente para uma maior instabilidade e não se vê alternativas a Buteflika", disse. Em 2009, o presidente foi reeleito.

Confissões à polícia de ex-membros do grupo Al-Qaeda também confirmam que a pobreza e a falta de uma ação social do governo hoje seria "o maior incentivo" para que jovens da região passem a simpatizar e apoiar o terrorismo. "A Al-Qaeda apoia-se essencialmente na região do Magreb para recrutar jovens, entusiastas da ideia de lutar contra o Ocidente. Mas a realidade é que esse trabalho de recrutamento apenas funciona graças ao desemprego que não para de subir, da pobreza e da frustração dos jovens da região", afirmou um ex-membro do grupo ao jornal Magharebia.

Se não bastasse, governos europeus responderam à pior crise em 70 anos fechando suas fronteiras, aumentando o número de deportações e usando imigrantes como bode expiatório para o desemprego recorde na Europa. Paradoxalmente, querem que os governos do Magreb insistam na luta contra o terror.

Na Argélia, um dos principais destinos era o sul da Espanha, para trabalhar na colheita de cidades como Almería, 130 quilômetros apenas da costa africana. "Não temos mais o que fazer por lá", disse um jovem desempregado de Baghlia. "A colheita é agora feita por espanhóis", diz. Nos últimos dez anos, os espanhóis haviam abandonado o campo.

Outra parte dos africanos viajava até a Europa sabendo que poderia encontrar trabalho na construção civil. Essa porta também foi fechada. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, 6 milhões de operários perderam seus empregos no setor entre 2008 e 2010 nos países ricos. Na Grã-Bretanha, os argelinos lideram os detidos pela polícia sem passaporte ou com vistos falsos. Segundo dados da Frontex, 8,8 mil argelinos foram expulsos da Europa em 2009 por estarem em situação irregular.

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA MISSÃO ARGELINA NA ONU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.