Corrupção e política

Na França e na China, países distantes em termos de geografia e ideologia, políticos outrora poderosos amargam duras acusações

GILLES, LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2014 | 02h02

A corrupção estende seu império sobre o mundo moderno. Imperceptível, astuta como uma raposa, glacial como uma serpente, ela expande seus pseudópodes por toda a parte, sem se intimidar por fronteiras.

Suas bactérias e seus micróbios saltam de país em país, contaminando sistemas políticos, bancos, empresas privadas, corações e mentes, centros do poder. À rapidez com que a corrupção avança, podemos prever que em alguns anos ela se tornará um dos grandes protagonistas da sociedades modernas.

Dois exemplos disso são oferecidos por dois países distantes um do outro em termos de geografia, história, psicologia e ideologia: China e França. Ontem, dois personagens poderosos caíram por terra, nos dois países, pelo mesmo fato terrível: a acusação de corrupção.

Na China, um dos mais influentes membros do Exército, Xu Caihou, foi destituído pelo presidente Xi Jinping, que o enviou à Comissão Central de Disciplina (braço anticorrupção do partido). Na França, o ex-presidente Nicolas Sarkozy foi indiciado por corrupção ativa, uma acusação inusitada, perigosa e difamatória.

Poderíamos dizer que os dois casos não se comparam, tão diferentes são os sistemas da China e da França. Mas é surpreendente o fato de a denúncia ser idêntica em ambas as situações: corrupção.

E há um outro ponto em comum. Nos dois processos trata-se de uma acusação sem precedentes. Jamais um presidente da França, apenas terminado seu mandato (Sarkozy era há dois anos o homem mais poderoso da França), caiu nas malhas da Justiça, acusado de corrupção.

Mesma coisa na China: o Exército chinês sempre foi uma área protegida. Havia inúmeros oficiais corruptos, mas se fechava os olhos para não fragilizar o instrumento da independência chinesa, suas Forças Armadas. Essa impunidade teve consequências desastrosas: nos quartéis e nos gabinetes militares, as propinas são abundantes.

Ora, o novo homem forte da China, Xi Jinping, decidiu agir com severidade. A corrupção, a prevaricação, o tráfico de influência, os presentes gigantescos, tudo isso a partir de agora submete-se à lei comum. E Xi Jinping tomou uma decisão ainda ontem inimaginável: o general Xi Caihou não está mais acima da lei. Foi preso.

A carreira política de Sarkozy, que recentemente insinuou que se candidataria nas eleições presidenciais de 2017, acabou? Não é certo. O indiciamento não é um julgamento. É apenas prenúncio de um processo muito duro. Que pode terminar em absolvição e, nesse caso, Sarkozy poderá renascer das cinzas e retomar sua pequena "epopeia".

Mas mesmo nesta hipótese ele terá dificuldade para se recuperar.

Em primeiro lugar sua popularidade desmoronou. As pessoas se cansaram de ver o nome de seu "ídolo" envolvido em tantos mistérios. Além disso, seus amigos políticos estão radiantes ao ver seu chefe colecionar golpes violentos". Agora que ele foi derrubado, todos procuram dar-lhe mais uma alfinetada.

Seu ex-primeiro-ministro, o gentil François Fillon, que serviu de mártir durante os cinco anos em que foi o braço direito de Sarkozy, não tem palavras mais pérfidas e venenosas para injetar veneno nas veias do seu antigo "mestre".

A maior parte dos políticos da direita, em primeiro lugar Alain Juppé, já preparou uma provisão de cascas de banana para jogar sob os sapatos de Sarkozy se ele provar aos juízes que não é um "bandido", mas um pobre cordeirinho vítima de sua inocência e do seu bom coração.

A sorte do general chinês Xu Caihou é mais simples de imaginar. Eis aí uma diferença fundamental entre Oriente e Ocidente. Aqui, às vezes perdoamos. Lá, jamais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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