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Corrupção globalizada

Corrupção não tem pátria. Do comando das estatais ao Banco do Vaticano, não há santos. Já que corruptos todo mundo tem, a melhor forma de combatê-los é unirmos forças. Esse é um trabalho para a globalização. Claro que as fronteiras livres ainda sofrem desgaste publicitário. O sismo econômico provocado pelo estouro da bolha imobiliária em 2008 não ajudou. Afinal, por que escancarar as comportas nacionais e arriscar o contágio financeiro internacional? A reação contra fronteiras abertas corrói mercados comuns e turbina a extrema direita, que voltou com força em 2014.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2014 | 02h01

A corrupção, porém, faz escola. Os bandidos se globalizaram. O dinheiro do narcotráfico ou saqueado do erário é decantado por bancos internacionais e volta ensaboado, nos bolsos dos malfeitores. Assim como os criminosos, a lei também precisa responder. Não haveria Operação Lava Jato não fosse a internacionalização do cerco ao crime. Muito se fala das falhas institucionais que incubaram o desvio de dinheiro público no Brasil. A conversão da Petrobrás em propinoduto foi flagrada não pelo Ministério da Fazenda, mas pela prisão de doleiros que operavam a partir de um posto de gasolina. Da mesma forma, o mensalão estourou após um tiroteio entre comparsas do esquema, não por mérito de arapongas oficiais.

Se o "firewall" contra o crime não funcionou, as ferramentas anticorrupção implantadas no Brasil nas últimas décadas dão sinais de reação. Destaque para o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (COAF), braço do Ministério da Fazenda, criado nos anos 90 para detectar movimentos bancários suspeitos. Outra ferramenta é a delação premiada, que incentiva o criminoso arrependido a depor contra cúmplices em troca de castigo amenizado.

Mas a globalização também entrou em campo. A Petrobrás tornou-se uma multinacional que marcha à toada de Brasília, mas responde a acionistas internacionais. As revelações da Lava Jato, assim, disparam cobranças de fundos de investimento em Ohio e respingam nos tribunais dos EUA. Vários escritórios de advocacia já abriram processos contra a empresa.

A globalização, porém, não é a bala de prata. Mesmo a luta contra o crime transnacional ainda depende de vontade política e da engenharia jurídica de cada país. Mas, ao reivindicar um espaço maior, países emergentes como o Brasil se sujeitam às regras do jogo. Pior para os roedores das instituições republicanas. Melhor para os brasileiros.

*Mac Margolis é colaborador da 'Bloomberg View' e colunista do 'Estado' 

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