Corruptos foram os primeiros a sair

Autoridades do PC teriam deixado o país no início do processo de abertura econômica levando milhões dos cofres públicos

, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Antes de os novos ricos chineses começarem a se mudar para o exterior, centenas de ocupantes de cargos de comando no governo já haviam deixado o país, carregando milhões de dólares desviados dos cofres públicos em atos de corrupção.

Não há dados confiáveis sobre quantas autoridades fugiram da China desde o início do processo de reforma e abertura econômica, em 1978, mas a estimativa citada com mais frequência fala em 4 mil funcionários, cada um dos quais teria embolsado, em média, US$ 14,7 milhões.

Os principais suspeitos nos casos de corrupção seguidos de fuga são os chamados "oficiais nus", que permanecem na China enquanto toda sua família se muda para o exterior. Muitos se juntam à mulher e ao filho mais tarde, levando consigo o que conseguiram amealhar em falcatruas.

No mês passado, o Comitê Central do Partido Comunista anunciou medidas disciplinares com o objetivo de aumentar a fiscalização de funcionários que possuem parentes no exterior. De acordo com as novas regras, os "oficiais nus" devem informar aos órgãos disciplinares a renda e as propriedades do cônjuge e dos filhos que vivem no exterior e comunicar todas as mudanças que ocorrerem em sua situação financeira.

Esses funcionários também passaram a ser alvo de uma avaliação mais rigorosa nos pedidos de visto para viagens internacionais. No entanto, muitos duvidam da eficácia das medidas, já que os recursos desviados são transferidos ao exterior por canais ilegais e nem sempre são usados em operações registradas em nome dos familiares diretos do funcionário corrupto.

Insegurança. As reviravoltas da história chinesa, desde a vitória dos comunistas de 1949, explicam grande parte da sensação de insegurança que acomete os novos ricos do país. Muitos passaram fome no Grande Salto Adiante (1958-1962) e cresceram durante os anos de terror da Revolução Cultural (1966-1976), quando até vender vegetais na calçada era considerado um desvio capitalista imperdoável.

Apesar da integração ao mundo, a China continua a ser governada por um Partido Comunista, que declara estar na primeira etapa de construção do socialismo, sem dar detalhes de como será a última. O nebuloso ambiente de negócios deixa os novos milionários inseguros. "Em razão da opacidade das leis comerciais e tributárias, muitos empresários acham prudente transferir parte de suas fortunas para países ocidentais", afirma o analista político Willy Lam.

Segundo Lam, os esforços do governo para reter talentos no país e atrair de volta os que emigraram enfrentam outro obstáculo: os limites para promoção dos que não pertencem ao Partido Comunista nas carreiras ligadas ao governo ou às poderosas empresas estatais. Sem uma longa folha corrida de serviços prestados ao partido, é pouco provável que esses funcionários cheguem a postos de comando, por mais talentosos que sejam.

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