Mohammad Ponir Hossain/Reuters
Mohammad Ponir Hossain/Reuters

Corruptos tiram vantagem de medo da pandemia

Sem licitações transparentes, alimentos e material médico estão sendo vendidos a preços exorbitantes em muitos países do mundo

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 05h00

BOGOTÁ - Quando as autoridades do seu Estado começaram a fornecer pacotes de alimentos às famílias afetadas pelo isolamento imposto pelo coronavírus na Colômbia, o deputado Ricardo Quintero ficou impressionado com os preços exorbitantes cobrados pelos vendedores. Por isso, fez uma visita à mercearia local.

Ali, ele adquiriu os mesmos produtos por cerca da metade do preço – supostamente de atacado – que o governo do Estado de Cesar estava pagando. A comparação deu origem a uma das atuais 11 investigações criminais em curso na Colômbia. O país é um dos muitos no mundo que apresentam um aumento das acusações de corrupção. “Sempre há corrupção”, afirmou Quintero. “Mas o que mais impressiona é vê-la em uma época como esta.”

Países grandes e pequenos estão desembolsando trilhões de dólares para combater a pandemia e suas brutais consequências econômicas nesta que os economistas definem como a maior reação financeira a uma crise global. Enquanto os governos correm para conseguir desde alimentos a máscaras faciais, eles priorizam a rapidez em relação à transparência, abandonando as licitações e outras salvaguardas a fim de acompanhar o ritmo da doença.

A maioria não tem outra escolha. Dada a rapidez da crise que continua se desenrolando ou compram rapidamente ou põem em risco a vida de milhões de pessoas. Mas já cresce a preocupação com a porcentagem de dinheiro dos contribuintes que forra os bolsos de burocratas corruptos, das fornecedoras beneficiadas e dos sindicatos do crime.

“Certos casos estão acontecendo neste momento, em tempo real,” afirmou Max Heywood, um dos diretores da Transparência Internacional, organismo de monitoração da corrupção. “Olhando as falhas dos sistemas e a quantidade de dinheiro que está sendo devidamente injetado no combate ao problema, nada mais correto do que afirmar que estamos muito preocupados”, disse.

A ajuda em alimentos aos trabalhadores que lutam com dificuldades, afastados de seus empregos, está se revelando um alvo particularmente atraente. Quando, neste mês, o governo de Bangladesh lançou uma iniciativa para a distribuição de arroz a seus cidadãos em condições mais vulneráveis, sumiram quase 300 mil quilos.

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Perto de 50 pessoas, incluindo burocratas e autoridades locais, foram acusadas de tentar revender o arroz a preços mais elevados. O governo de Bangladesh reformulou então o plano de ajudapara não precisar passar pelos burocratas.

“Esta crise nacional deveria fazer aflorar as melhores virtudes humanas – a empatia e a solidariedade”, disse Iftekharuzzan, o diretor executivo do programa de ajuda da Transparência Internacional de Bangladesh. “Mas, vergonhosamente, o que aflora também são os piores vícios do ser humano.”

Fernando Carrillo, inspetor-geral da Colômbia, falou que em 14 Estados do país, foram ordenadas investigações sobre aumentos de preços. No Estado de Cesar, Quintero obrigou a divulgação de contratos lucrativos de alimentos assinados no governo de Luis Alberto Monsalvo Gnecco.

Os preços elevados para produtos como máscaras e ventiladores se explicam em parte pela economia de mercado: a escassez e a elevada demanda provocam o aumento dos preços. Mas é a dimensão destes aumentos constantes dos contratos feitos com o Estado, com o tipo de fornecedoras, que está sendo questionada em todo o globo.

Acordos por baixo do pano

Na Romênia, onde os processos normais de licitação foram suspensos a fim de acelerar os fornecimentos, os críticos estão levantando bandeiras vermelhas contra acordos realizados por baixo do pano. A Romwine and Coffee SRI, que vende tabaco e licores, conseguiu dois contratos com o governo de Bucareste no valor de US$ 12,6 milhões (R$ 71,32 milhões) para o fornecimento de máscaras cirúrgicas especiais a um preço que é o dobro do praticado no mercado.

A Agência Federal de Gestão de Emergências dos EUA fez um contrato de US $ 55 milhões para a compra de máscaras de uma companhia de Delaware, que não é conhecida por fabricar ou vender equipamentos médicos, noticiou o Washington Post na semana passada. Selecionada sem licitação, a Panthera Worldwide está recebendo US$ 5,50 por máscara, várias vezes mais do que outras fornecedoras do governo. / W.POST, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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