Cortando amarras
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Cortando amarras

Trabalhistas têm três grandes desvantagens e uma é a falta de carisma de Corbyn

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2019 | 05h47

O Reino Unido vai hoje às urnas renovar a Câmara dos Comuns. Votação decisiva este ano, uma vez que define o destino do Brexit, do qual depende uma nova era na história britânica.

O Partido Conservador (tories) é atualmente o favorito, apesar de um declínio significativo nas últimas horas. Os conservadores têm um líder brilhante e famoso por seu humor, Boris Johnson. Em suas reuniões, ele o usa generosamente. Aqui está um exemplo. “As flechas de Cupido”, exclamou ele, “voarão assim que o Brexit for decidido, e haverá um boom de bebês como depois dos Jogos Olímpicos de Londres”. Essa gracinha fez toda a nobreza se contorcer. 

Ele adora as metáforas que se apoiam no corpo feminino (na França, as feministas já o teriam rejeitado). Alguns meses atrás, ele já havia recrutado os corpos das mulheres em sua eloquência: “Depois do Brexit, as mulheres terão seios maiores”, disse. (Eu sempre suspeitei que não havia entendido a requintada delicadeza do humor britânico, mas certamente estou errado. Vou me retratar.)

Ainda assim, Boris Johnson é um político muito refinado, astuto, manhoso e bastante popular. Como ele é um membro do Partido Conservador dominante e atual primeiro-ministro, ele tem todas as chances de sair vitorioso das eleições de hoje. E se ele obtiver a maioria absoluta, então o Brexit entrará em vigor a partir de 31 de janeiro de 2020.

Também à frente está outra grande formação, o Partido Trabalhista, mas ele tem três desvantagens. A primeira é que o líder dos trabalhistas, Jeremy Corbyn, não tem carisma, nem eloquência, nem o humor de seu rival conservador. Sua segunda fraqueza é a indecisão. 

Frente ao Brexit, ninguém sabe exatamente o que ele pensa. Ele escolheu a fuga: em vez de falar sobre o assunto real, a escolha de uma nova posição internacional do Reino Unido, ele se esquiva e começa a falar sobre um assunto diferente, por exemplo, a reforma do sistema de saúde britânico que está realmente deplorável e que ele promete reformar. 

Seu terceiro erro foi permitir que o antissemitismo se instalasse dentro do Partido Trabalhista. Fúria justificada de judeus britânicos. O rabino-chefe do Reino Unido manifestou sua indignação em termos violentos. Testemunhos estão chegando, afirmando que, nas reuniões do partido, o antissemitismo se espalha sem pudor, por exemplo, usando um vocabulário ofensivo aos olhos dos judeus, com expressões como “sionista” ou “sio”.

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Outra manobra de evasão foi tentada por Corbyn. Em seu desejo de silenciar o Brexit, ele prometeu que, se eleito, implementará um programa radical, com £ 600 bilhões em investimentos em cinco anos. Catástrofe! Má escolha. Esse plano foi muito mal recebido pelos círculos empresariais.

É compreensível que, até essas últimas semanas, a vitória de Boris Johnson, portanto do Brexit, tenha sido garantida pelas pesquisas de opinião e pelas casas de apostas. Eles deram aos conservadores e ao Brexit uma vantagem de até 14 pontos. Mas nos últimos dias a diferença entre os dois campeões teria se acirrado. The Times publicou uma pesquisa com base em uma amostra muito maior do que as outras sondagens – com mais de 100 mil pessoas – e, como resultado, Corbyn recuperaria terreno. 

Como explicar essa mudança na última hora? Talvez um certo número de britânicos, no momento de lançar o país em uma nova aventura, uma navegação solitária no imenso oceano, longe da Europa, detestado e amado, tenham sido tomados pelo pânico e quisessem brecar na beira do vácuo. Essa hipótese, porém, parece frágil. A maioria dos observadores continua convencida de que o Reino Unido cortará as amarras que o prendem à Europa. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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