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Presidential Press Service via AP
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Corte anula eleição para prefeitura de Istambul após derrota do partido de Erdogan

Ekrem Imamoglu, do opositor Partido Republicano do Povo, ganhou votação de março com estreita margem e ficou apenas 20 dias no cargo de prefeito; controvertida decisão do presidente pode desencadear agitação social e nova crise econômica

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2019 | 21h48

ISTAMBUL - Ekrem Imamoglu ocupava havia 20 dias a cadeira de prefeito de Istambul quando foi surpreendido pela notícia de que sua vitória não tinha valido. As autoridades eleitorais da Turquia ordenaram nesta segunda-feira, 6, uma nova eleição, anulando uma derrota do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), do presidente Recep Tayyip Erdogan. Há perspectiva de que a decisão altamente controvertida dê início a agitação social e a uma nova crise econômica.

Imamoglu, membro do Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata, o principal da oposição), qualificou como traição a ordem de se repetir a eleição municipal, que venceu em 31 de março. “Aqueles que tomam as decisões neste país podem estar cometendo traição, mas nunca nos renderemos, manteremos a esperança.” 

O CHP teve uma vitória estreita e contestada na votação. Mais de 57 milhões de pessoas estavam registradas para votar nas eleições de prefeitos e conselheiros pelo país e a participação foi de cerca de 85%. 

A comissão eleitoral turca afirmou que Imamoglu chegou a liderar a apuração por menos de 0,5%. Após uma recontagem dos votos, essa vantagem ficou ainda menor: 0,25%, o equivalente a cerca de 13 mil votos.

Imamoglu tomou posse no dia 17 de abril após duas semanas de recontagem de votos, apesar do recurso apresentado na véspera pelo partido de Erdogan, que exigia uma nova votação. A prefeitura de Istambul está há cerca de 25 anos sob o comando de representantes oriundos do movimento islâmico e Erdogan iniciou sua carreira política como prefeito da cidade.

Boicote

Os partidos opositores convocaram hoje uma reunião de emergência e disseram que boicotarão a nova eleição, marcada para 23 de junho. Um deputado da oposição, Mahmut Tanal, descreveu a decisão em um post no Twitter como um “assassinato da lei” e uma “mancha negra” para o país. 

Desde um fracassado golpe de Estado em 2016, o presidente tem endurecido sua posição com relação a opositores dentro e fora do país. No Brasil, o empresário turco naturalizado brasileiro Ali Sipahi está preso acusado de realizar transações bancárias para “financiar terroristas”.

Erdogan tem sido criticado por aliados ocidentais da Turquia assim como por seus opositores internos por minar a democracia turca ao perseguir e tomar as instituições independentes, como o próprio Judiciário. 

Perder a prefeitura de Istambul, a maior cidade e a capital econômica do país, foi especialmente duro para Erdogan, uma das maiores derrotas em sua longa carreira política. Em seus 18 anos no poder, a cidade sempre se manteve como sua base política e seu feudo privado, assim como fonte de grandes recursos e prestígio para sua família e colaboradores próximos. 

Referendo

Apesar de Erdogan ter assegurado outro mandato de cinco anos em 2018, ficou mais vulnerável após o pobre desempenho de seu partido nas eleições locais. O AKP também perdeu o controle da capital, Ancara, assim como de outras cidades industriais importantes no sul do país. Analistas disseram que a decisão de desafiar os resultados foi uma aposta alta para Erdogan, que forçou uma nova votação. A nova eleição tem sido vista como um referendo de sua liderança. 

Imamoglu e outros opositores que se saíram bem na votação se beneficiaram da insatisfação dos eleitores com o mau desempenho da economia. 

Analistas políticos próximos do governo, que falaram em condição de anonimato, descreveram um Erdogan furioso após a derrota em Istambul. Uma das fontes disse que ele teve um ataque de cólera na noite da eleição. 

Outra fonte assegurou que o candidato do governo, Binali Yildirim, ex-primeiro-ministro e um aliado próximo do presidente, estava pronto para reconhecer a derrota quando foi impedido no último minuto e convencido a proclamar vitória pelo próprio Erdogan. 

“Essa é a maior distorção das eleições democráticas na Turquia desde que o país teve uma votação livre e justa pela primeira vez, em 1950”, disse Soner Cagaptay, diretor do Programa de Pesquisa Turca do Washington Institute for Near East Policy. 

“Esse é um dia triste para a Turquia. Nunca antes um derrotado na Turquia se recusou a reconhecer os resultados de uma eleição. Essa decisão coloca em dúvida o consenso obtido com dificuldade na Turquia, construído ao longo de décadas, de que o poder e o governo mudam de mãos por eleições democráticas.”

Brasil

O presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT), Mustafa Goktepe, disse que a decisão de autoridades turcas de anular a eleição de Istambul deixou claro que o “problema” de Erdogan não são apenas o movimento Hizmet e seu líder, o clérigo Fethullah Gülen, considerados terroristas por Ancara, mas todos os seus críticos e opositores.  O Hizmet é representado no Brasil pelo CCBT. “Ele (Erdogan) jamais vai aceitar sair do poder de forma democrática”, afirmou, em declaração ao Estado.

Para Goktepe, o cancelamento das eleições e o fato de o presidente não reconhecer o vencedor demonstram que a única sustentação para sua descrição de democracia – o respeito ao voto – foi “demolida”. 

“Já não havia mais outros elementos de uma democracia na Turquia, como a separação dos poderes, a liberdade de expressão, um Judiciário independente”, argumentou. “Ficou claro mais uma vez que não existe mais nem a sombra de uma democracia na Turquia.” 

Segundo Goktepe, o que está acontecendo em seu país demonstrou que qualquer oposição na Turquia poderá ser vítima das ações do governo, como a decisão de Ancara de pedir a extradição de Sipahi. / NYT, W. POST e AFP, Colaborou Fernanda Simas  

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