Costa do Marfim ainda tem seus diamantes de sangue

Contrabandistas burlam proibição das ONU e financiam conflito marfinense por meio do comércio ilegal de pedras preciosas

Paige Mcclanahan, The Christian Science Monitor, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

Os "diamantes de sangue" foram erradicados de todas as partes do mundo, com exceção de uma: a Costa do Marfim, a pequena nação da África Ocidental que está à beira da guerra civil.

Os contrabandistas da Costa do Marfim continuam com o tráfico de diamantes através das porosas fronteiras do país, embora a ONU proíba sua exportação. As receitas desse comércio ilegal provavelmente estão comprando armas para o grupo rebelde Novas Forças, do norte, embora o sul do país continue num impasse político cada vez mais violento enquanto o atual presidente, Laurent Gbagbo, insiste em não entregar o poder ao presidente eleito, Alassane Ouattara.

As exportações dos "diamantes de sangue" financiam horríveis conflitos civis na África há mais de 15 anos, como no notório caso de Angola, Sierra Leoa e Libéria. Para combater o comércio, foi criado em 2003 o Processo de Certificação de diamantes Kimberley, considerado em grande parte um sucesso. Mas enquanto os conflitos pagos pelos diamantes nos anos 90 acabaram e a maioria dos países envolvidos agora se dedica à mineração e exportação legal das pedras, a Costa do Marfim continua sendo a exceção. "A Costa do Marfim é o único país em que existem os diamantes do conflito", diz Stéphane Chardon, presidente do Grupo de Trabalho sobre Monitoramento do Processo de Certificação. "No momento, o principal objetivo é impedir que os diamantes do país contribuam para qualquer tipo de crime."

As Novas Forças controlam a metade setentrional da Costa do Marfim desde 2002. Quase todas as jazidas de diamantes do país se localizam no norte, onde o grupo rebelde cobra impostos sobre a exploração e o comércio das pedras.

Apesar da proibição, a extração de diamantes é muito grande na região de Seguela. O valor total da produção de diamantes na Costa do Marfim foi avaliado em algo entre US$ 18 milhões e US$ 20 milhões, diz Chardon. Ele destaca que o número representa apenas uma fração ínfima do comércio global das pedras de US$ 9 bilhões. O dado relativamente baixo é explicado pela pequena escala de sua mineração na Costa do Marfim. Mineiros artesanais que extraem manualmente os diamantes em rios são responsáveis pela maior parte da produção. As jazidas mais ricas estão muito abaixo da superfície, mas os mineiros não dispõem de tecnologia para chegar até elas.

Os valores da produção na Costa do Marfim podem ser baixos, mas não devem ser menosprezados, afirma Elly Harrowell, do grupo de defesa dos direitos humanos, Global Witness, de Londres. "O dinheiro das exportações pode comprar muitas armas", afirma.

Outras nações da África Ocidental provaram que é possível acabar com o fluxo de diamantes ilícitos, mas o processo leva tempo - e exige a cooperação das autoridades.

Ao mesmo tempo, segundo Chardon, os principais centros de comercialização de diamantes - União Europeia, Israel e Emirados Árabes - deveriam manter uma vigilância maior sobre a pedras da Costa do Marfim, por exemplo, treinando funcionários da alfândega para detectar diamantes de origem duvidosa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EDITORA DE TRADE NEGOTIATIONS INSIGHTS

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