Vasily Fedosenko/Reuters
Em meio à pandemia de coronavírus, campeonato de MMA não foi suspenso na Bielo-Rússia  Vasily Fedosenko/Reuters

Covid-19 desafia 3 autocratas de grupo cético apelidado ‘Aliança do Avestruz’

Líderes de Nicarágua, Turcomenistão e Bielo-Rússia – grupo em que a revista The Economist incluiu Brasil e ao qual acusou de ignorar pandemia – sofrem crítica interna incomum por ditar ordens contra isolamento

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 04h00

A maior parte do mundo tomou medidas para conter o coronavírus. Alguns países, porém, ignoram a pandemia. Na semana passada, a revista The Economist colocou Jair Bolsonaro ao lado de Alexander Lukashenko, que está há 26 anos no poder na Bielo-Rússia, do ditador do Turcomenistão, Gurbanguly Berdymukhamedov, e de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua. Segundo a publicação, eles não levam o vírus a sério.

Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, apelidou o grupo de “Aliança do Avestruz”, em referência ao mito de que o bicho enterra a cabeça na terra quando enfrenta perigo. Além dos riscos à saúde pública, a negação acarreta custos políticos. A dissidência na Nicarágua está fervilhando. Pela primeira vez em duas décadas, o presidente bielo-russo vem sendo criticado no país. A oposição no Turcomenistão, quase toda no exílio, também aumentou as críticas ao presidente.

Na Nicarágua, o comércio funciona, as crianças continuam frequentando as aulas e a bola segue rolando no campeonato nacional de futebol. Ortega esteve sumido por 34 dias, mas reapareceu na quinta-feira e disse que o vírus é um “sinal de Deus”. “Declarar quarentena é uma medida alarmante e extremista”, disse o presidente, que não explicou o que pretende fazer com os 28 mil kits de testes doados pelo Banco Centro-Americano de Integração Econômica – epidemiologistas dizem que o número de casos positivos não cresce, pois simplesmente não se testa ninguém no país. 

O mesmo filme se repete na Bielo-Rússia, governada por Lukashenko, que chamou a pandemia de “psicose” e decretou que ninguém morrerá de covid-19 sob o seu comando. “Declaro isso publicamente”, disse o autocrata, no dia 13, quando autoridades sanitárias já contabilizavam 29 mortes. Contra o vírus, ele recomendou à população sauna e 50 mililitros de vodca por dia.

 

No Turcomenistão, o presidente também promove uma solução inusitada. Berdymukhamedov determinou que seus ministros usem a fumaça de uma erva chamada “harmala”, um alcaloide, para matar os “vírus invisíveis aos olhos”. Nos próximos dias, além da Nicarágua, o Estado mostra como a pandemia está sendo tratada pelos líderes colocados pela revista The Economist entre os mais negacionistas do mundo.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Diante do vírus, ditador enfia a cabeça na areia

Gurbanguly Berdymukhamedov, do Turcomenistão, recomenda erva para matar vírus; país não relata casos de infecção

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 05h00

Em poucos lugares do mundo a negação da pandemia é mais evidente do que no Turcomenistão, onde coronavírus se tornou um palavrão evitado a todo custo. No dia 26 de março, a imprensa local relatou casos de pessoas presas por policiais à paisana por discutirem sobre o surto em público. A ordem vem do ditador Gurbanguly Berdymukhamedov, que garante que não há registro de casos no país – apesar de estar rodeado de vizinhos infestados.

É por isso que o autocrata turcomano faz parte da “Aliança dos Avestruzes”, termo cunhado pelo professor Oliver Stuenkel, da FGV, para designar o grupo de quatro países – Turcomenistão, Nicarágua, Bielo-Rússia e Brasil –, que a revista The Economist considerou como os mais negacionistas do mundo, na semana passada. 

“O Turcomenistão é um país cheio de mistério e dados não confiáveis. O fluxo de informações é rigidamente controlado, assim como qualquer coisa que possa prejudicar a estabilidade do regime de Berdymukhamedov”, explicou Alberto Turkstra, pesquisador do Instituto Europeu de Estudos Asiáticos (Eias), de Bruxelas. “Por isso, discussões públicas sobre o coronavírus têm sido evitadas.”

O Turcomenistão vive um isolamento ao estilo norte-coreano, mas relegado ao esquecimento no meio da Ásia Central. Quando vira notícia, é sempre por algum motivo bizarro, como em 2015, quando o ditador inaugurou uma estátua de ouro de 20 metros de altura dele mesmo montado em um cavalo.

Berdymukhamedov está no poder desde 2006 e foi reeleito três vezes, a última em 2017, com mais de 97% dos votos. Mas, se fraudar eleições e desmantelar a oposição virou sua especialidade, combater uma pandemia é uma ameaça aterrorizante para um regime que não consegue identificar o inimigo. 

Aos 63 anos, dentista de formação, ele gosta de se passar por DJ, compositor e escritor – é autor de sucesso, segundo a imprensa local, de vários best sellers sobre ervas medicinais. Por isso, Berdymukhamedov se sentiu obrigado a palpitar e recomendou à população inalar fumaça de harmala, uma planta alcaloide, para matar qualquer vírus invisível. 

Uma das poucas medidas concretas foi cancelar voos da China, Tailândia e Malásia, em fevereiro. E foi só. Para comemorar o Dia Mundial da Saúde, no início do mês, seu governo ignorou as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e promoveu um tour de bicicleta por 25 quilômetros na capital. 

Epidemiologistas e opositores temem um desastre, mas nada que a máquina de propaganda oficial não resolva. Normalmente, as TVs e a imprensa turcomana não reportam problemas, mesmo desastres naturais, como furacões, terremotos ou enchentes. “A mesma tática foi escolhida para a epidemia do coronavírus”, explica Ruslan Tuhbatullin, dissidente que vive na Europa e é editor do site Chronicles of Turkmenistan. 

Tuhbatullin conta que, no início do ano, as autoridades ignoraram o vírus. Depois, quando a crise ganhou estatura global, a imprensa estatal começou a tratar a pandemia com cautela, mas evitando o máximo possível a palavra coronavírus.

“Agora, a mídia local informa periodicamente sobre o coronavírus, mas como um problema global e sempre lembrando que não há casos no Turcomenistão graças à política do presidente e às medidas preliminares tomadas pelo governo”, afirmou. “Mas duvido que não haja pessoas infectadas no país.”

Mas o vírus não se combate com decretos. No fim de março, fontes anônimas garantiram ao serviço local da Radio Free Europe que havia vários casos confirmados em um hospital de Choganly, nos arredores da capital. Há relatos também de moradores de Turkmenabat, cidade na fronteira com o Usbequistão, de muitos passageiros que chegaram com febre ao aeroporto local e pagaram até US$ 150 de suborno a policiais para escapar da quarentena obrigatória. 

Mas se o governo consegue controlar a pandemia não divulgando dados, conter os prejuízos econômicos é mais difícil. Apesar de bares e restaurantes funcionarem normalmente, os fluxos de mercadorias de Usbequistão e Irã foram interrompidos. Há redução na disponibilidade de alimentos e aumento dos preços. 

“As economias da Ásia Central – Casaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Usbequistão – serão inevitavelmente afetadas pela queda nos preços das commodities e pelo declínio nas remessas de dinheiro de imigrantes”, afirma Calum Thomson, também pesquisador do Instituto Europeu de Estudos Asiáticos, especializado em Ásia Central. 

Para muitos opositores, é difícil imaginar o resultado da negligência no longo prazo. “Claro que muita gente vai morrer”, disse Diana Serebryannik, ativista que fugiu do Turcomenistão em 2015 e dirige uma organização de defesa dos direitos humanos. “Eles serão enterrados e ninguém nunca vai saber se morreram de coronavírus ou qualquer outra doença.” Sem liberdade de imprensa e com um sistema de saúde inadequado, a única alternativa de Berdymukhamedov parece ser mesmo enfiar a cabeça na areia e esperar o perigo passar. 

 

Tudo o que sabemos sobre:
coronavírusÁsia [continente]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Ortega reaparece após 34 dias e diz que ‘Nicarágua não pode parar’

Presidente alega que país morre no isolamento; oposição teme que contágios aumentem nos próximos dias

Paulo Beraldo, Rodrigo Turrer e Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 04h00

A Nicarágua é um dos poucos lugares do mundo onde ainda é possível fazer compras, levar as crianças às escolas, pegar um ônibus e ver um jogo de futebol. Não há isolamento social no país de 6 milhões de pessoas por decisão de seu presidente, Daniel Ortega, um ex-guerrilheiro que criou sua própria ditadura na América Central.

Oficialmente, a Nicarágua registra nove casos confirmados de covid-19 e uma morte. “A única coisa que podemos concluir é que estão jogando uma roleta russa com a população da Nicarágua, apostando na imunidade de grupo ou acreditando que se pode ocultar o verdadeiro impacto do coronavírus”, afirmou o engenheiro Félix Maradiaga, membro da plataforma de oposição Unidad Nacional.

 

Além de o governo de Ortega não tomar medidas para conter a disseminação do vírus, como em outros lugares do mundo, Maradiaga relata que as autoridades nicaraguenses estão promovendo ações que provocam aglomerações, como carnavais, festas e eventos políticos. “São medidas que promovem a propagação do vírus.”

A avaliação da oposição, que ouviu médicos e epidemiologistas, é que o país está na fase de incubação do vírus e os casos aumentarão nos próximos dias. “Há grande probabilidade de que haja uma explosão”, explica Maradiaga. “Mas ainda estamos em tempo de achatar essa curva de contágio por meio de uma quarentena e insistir que o Estado tome medidas de prevenção. Hoje não há dados confiáveis nem transparência pública.” 

Após ficar 34 dias desaparecido e ter levantado rumores sobre sua saúde, Ortega reapareceu na quinta-feira e manteve sua posição, afirmando que a Nicarágua “não pode parar”. “Se deixarmos de trabalhar, o país morre. O importante aqui é que se continuou trabalhando, respeitando as normas e com a disciplina que vai ditando o sistema de saúde.” 

As declarações do presidente contrariam a Organização Mundial da Saúde (OMS), que orientou a redução da circulação de pessoas para conter a disseminação do vírus, que já infectou mais de 2,1 milhões de pessoas no mundo inteiro. “O que acontece na Nicarágua vai além de qualquer distopia. Ortega acredita que não existe problema e não há qualquer preparativo para enfrentar a pandemia”, afirma o escritor Sergio Ramírez, de 77 anos, que já foi próximo do presidente. “Ele está desafiando alguma coisa que não compreende. Está fazendo tudo ao contrário e provocando deliberadamente o contágio.”

O governo alega que os casos de covid-19 são “importados” e não há motivos para mudar a rotina, fechar o comércio ou cancelar as aulas – embora os netos de Ortega tenham sumido do Colegio Alemán Nicaraguense, da capital Manágua, desde que a pandemia começou. 

Para o comerciante Arturo, que vive em Manágua e pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome por medo de retaliação do governo, o resumo é que as pessoas decidiram se cuidar por conta própria. Ele diz ter certeza que há mais casos no país, mas o governo não divulga. 

“Quanto mais alta a renda, maior o cuidado. O setor informal trabalha normalmente”, disse. Segundo ele, na capital e nas maiores cidades da Nicarágua, há cuidados como lavar as mãos com água e sabão, mas no campo e nas regiões mais afastadas, a preocupação com o vírus nem sempre faz parte da rotina. 

No país vivem também brasileiros, entre eles jogadores de futebol que são dos poucos no mundo a não parar em razão do surto. “Aqui na Nicarágua está tranquilo. A vida está normal, como se fosse antes da pandemia. Tem poucos casos da doença e só uma morte. Somos privilegiados, pois podemos continuar jogando futebol”, disse o brasileiro Christiano Fernandes, de 34 anos, que atua pelo Manágua, principal time do país, e mora há quatro anos na Nicarágua.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

A brasileira Bruna Bessa, que foi fazer um mochilão pela América Central e “ficou presa” na Nicarágua também tem a sensação de que o ritmo de vida não mudou. Ela está na região de Popoyo, 100 quilômetros ao sul de Manágua, onde chegou após viajar por El Salvador e Costa Rica. 

“No dia 14, fecharam as fronteiras e o preço dos voos começou a aumentar muito. Minha ideia era pegar um voo da Costa Rica e voltar para o Brasil usando milhas, mas não tinha voo direto da Nicarágua”, relata. Bruna quer voltar, mas não consegue. Além da questão financeira, todos os aeroportos onde ela poderia tomar uma conexão estão fechados. 

A brasileira vem trabalhando em troca de moradia em um albergue no litoral. “Vim com muito pouco dinheiro, não contava com isso e nunca esperei que fosse fechar tudo.” Bruna diz que os restaurantes estão abertos, ninguém usa máscara e as pessoas têm certeza de que a pandemia nunca vai chegar. “A informação é muito pouca.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Entrevista: ‘Brasil negar pandemia provoca perplexidade internacional’

Para coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP, País rompe com histórico de batalhas importantes em termos de saúde pública internacional

Entrevista com

Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV-SP

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 04h00

Ao adotar posição semelhante à de nações como Turcomenistão, Nicarágua e Bielo-Rússia - três ditaduras -, o Brasil causa espanto e perplexidade na comunidade internacional, já que rompe a posição esperada para o País que já liderou batalhas importantes em termos de saúde pública internacional, como a quebra de patentes em caso de abuso por parte da indústria farmacêutica. 

"Estar com esses três simboliza que, cada vez mais, o Brasil é visto como um país com uma liderança vivendo em uma realidade paralela, fazendo coisas estranhíssimas, como negar a pandemia", avalia o pesquisador Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP. 

Como o sr. cunhou o termo Aliança dos Avestruzes?

Existe o mito de que o avestruz coloca a cabeça na areia quando encara uma ameaça. Quis dizer com essa metáfora que Brasil, Turcomenistão, Nicarágua e Bielorússia ativamente negam a ameaça do coronavírus. Isso gera um problema porque, mesmo se eles mudarem de postura no futuro, aumentou o número de pessoas que vão acreditar que o vírus é uma brincadeira e que não é uma ameaça séria. E realmente chama muita atenção: são três ditaduras e o Brasil. É um grupo muito inusitado. 

Quais as consequências disso para a imagem do Brasil no exterior?

Estamos falando da maior ameaça que a humanidade enfrenta neste momento e você tem quatro líderes que insistem em minimizar o problema. Isso chama a atenção do mundo. A imagem do Brasil é bastante associada à postura da negação. Os outros países já tinham essa imagem, eles já têm uma longuíssima história de decisões bizarras. 

O sr. pode detalhar um pouco mais cada um deles? 

O Turcomenistão é um país muito bizarro, sempre surgem notícias absurdas de lá. Que decidiu mudar os nomes dos dias da semana, que o último presidente escolhe seu dentista pessoal como seu sucessor. Sempre coisas muito estranhas. É um dos países mais fechados do mundo. A Bielorrússia é a única ditadura da Europa, tem censura, não tem liberdade. É também um país muito fechado, onde o presidente é uma espécie de líder da União Soviética (Aleksandr Lukashenko está no poder desde 1994). Um país que pouquíssimas pessoas conhecem.

Na Nicarágua, o Daniel Ortega é uma pessoa que lutou contra a ditadura e fez sua própria ditadura, reprimiu duramente manifestações contra ele. Internacionalmente, é a imagem de uma república de bananas. Então, para esses três, negar a pandemia até faz sentido para a comunidade internacional. Se alinha com as informações prévias que as pessoas têm em relação a essas nações. Esses líderes perderam completamente a conexão com sua população. 

O que mais chama a atenção da comunidade internacional? 

No passado, o Brasil liderou a batalha contra o HIV no mundo em desenvolvimento. Trabalhou com África do Sul, com Índia, para quebrar as patentes, foi fundamental e ganhou a fama de ser um país líder na área de saúde pública. Tem o Sistema Único de Saúde (SUS), que é muito reconhecido em países em desenvolvimento. A medicina e a saúde pública do Brasil tem reconhecimento e admiração internacionais. Então esse agrupamento chama atenção. Para o Brasil, é uma quebra de paradigma muito grande. 

O Brasil está cada vez mais associado a posturas estranhas. Um ataque à primeira-dama francesa, xingamentos contra o governo argentino, um vídeo pornográfico no carnaval. Estar com esses três simboliza que, cada vez mais, o Brasil é visto como um país com uma liderança vivendo em uma realidade paralela, fazendo coisas estranhíssimas, como negar a pandemia. Um líder de um grande país democrático fazer isso é o que gera incompreensão e perplexidade da comunidade internacional. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

The Economist: Jair Bolsonaro se isola, no sentido errado

Imprudência do presidente brasileiro diante da covid-19 voltará para assombrá-lo

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2020 | 11h55

Um a um, os negacionistas fizeram as pazes com a ciência médica. Apenas quatro governantes do mundo continuam negando a ameaça à saúde pública que a covid-19 representa. Dois são de destroços da antiga União Soviética, os déspotas da Bielorrússia e do Turquemenistão. O terceiro é Daniel Ortega, ditador tropical da Nicarágua. O outro é o presidente eleito de uma grande - ainda que combalida - democracia. O esforço de Jair Bolsonaro para minar as iniciativas de seu próprio governo no combate ao vírus pode marcar o início do fim de sua presidência.

Desde que o novo coronavírus foi detectado pela primeira vez no Brasil, no final de fevereiro, Bolsonaro, um ex-capitão do exército que tem adoração pelos governantes militares, fez pouco caso da doença. Menosprezando seus efeitos como “só uma gripezinha”, ele disse que era preciso "enfrentar o vírus como homem, pô, não como moleque”. E acrescentou, num tom bastante consolador: “todos nós vamos morrer um dia”. Nos quinze meses desde sua chegada à presidência, os brasileiros se acostumaram às suas bravatas de machão e à sua ignorância em questões que vão desde a preservação da floresta amazônica até educação e policiamento. Mas, desta vez, o dano é imediato e óbvio: Bolsonaro juntou a retórica truculenta à sabotagem ativa da saúde pública.

Ele diz acreditar no “isolamento vertical”, na quarentena apenas para os brasileiros com mais de 60 anos, com o objetivo de limitar os danos à economia. Existem dois problemas nesse raciocínio. Os jovens também morrem de covid-19 (10% das vítimas no Brasil têm menos de 60 anos), e a imposição de uma quarentena desse tipo seria impossível.

Os governadores dos estados mais importantes do Brasil tomaram a frente e impuseram isolamento social utilizando seus próprios poderes. Bolsonaro encorajou os brasileiros a ignorá-los. Homem que teme traições e sente uma perpétua necessidade de provocar, ele recebeu com abraços e selfies seguidores que faziam uma manifestação contra o Congresso, em 15 de março. O presidente também lançou uma campanha incentivando as empresas a reabrirem as portas e pediu “jejum e manifestações” nas igrejas em 5 de abril. Ele cogitou decretar, ilegalmente, o fim do isolamento. E, por duas vezes, chegou perto de demitir seu próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, um médico conservador que se opôs publicamente ao clamor do presidente para afrouxar as restrições. Ao que parece, Bolsonaro está com ciúmes da ascensão de um ministro que, segundo ele, “não tem humildade”.

Mesmo para seus próprios padrões, a recusa de Bolsonaro em cumprir seu dever primordial de proteger vidas foi longe demais. Grande parte do governo o trata como um tio inconveniente que apresenta sinais de insanidade. Os principais ministros, entre eles o grupo de generais que faz parte do gabinete, bem como os presidentes das duas casas do Congresso, deram apoio ostensivo a Mandetta, que também tem a população ao seu lado. Uma pesquisa realizada neste mês pelo Datafolha apontou que 76% dos brasileiros aprovam a maneira como o Ministério da Saúde vem combatendo o vírus. Em comparação, 33% aprovam o gerenciamento da crise por Bolsonaro.

Os clamores pela renúncia de Bolsonaro aumentaram. E não apenas na esquerda, mas também entre alguns de seus antigos aliados, como Janaina Paschoal, deputada estadual por São Paulo que Bolsonaro chegou a considerar para vice na chapa presidencial. Ela disse que o presidente era culpado de “um crime contra a saúde pública” e acrescentou: “não temos tempo para o impeachment”.

Não há dúvida de que as condutas do presidente justifiquem constitucionalmente um impeachment, destino que caiu sobre dois de seus antecessores, Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016. Mas, por enquanto, Bolsonaro mantém apoio público suficiente para sobreviver. Se, à época, as pesquisas apontaram que a maioria era a favor da deposição de Dilma (por violar a lei de responsabilidade fiscal para ganhar a reeleição), 59% dos brasileiros disseram ao Datafolha que não querem que Bolsonaro renuncie. O índice de aprovação de Dilma girava em torno de 10%; Bolsonaro mantém o apoio de um terço dos eleitores. Poucos em Brasília acreditam que o país queira ou possa arcar com a turbulência de um impeachment enquanto se vê tomado pela covid-19.

Bolsonaro é sustentado por um pequeno círculo de fanáticos ideológicos (entre eles, três de seus filhos), pela fé de muitos evangélicos e pela falta de informações sobre a covid-19 entre os brasileiros. Os dois últimos fatores podem mudar à medida que o vírus começar a ceifar vidas nos próximos meses. Em 8 de abril, o Brasil contava 14.049 casos confirmados e 688 mortos. E pode ser que o presidente não consiga se isolar da culpa pelo impacto econômico. Por sua imprudência com a vida dos brasileiros, Bolsonaro fez com que sua própria queda entrasse na agenda política. É bem provável que ela permaneça ali mesmo depois do fim da epidemia. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Tudo o que sabemos sobre:
Jair Bolsonarocoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O 'avestruz' da Bielo-Rússia: ditador recomenda vodca para evitar vírus

Para conter surto, Alexander Lukashenko ainda sugere sauna uma ou duas vezes por semana

Paulo Beraldo , O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 04h00

A Bielo-Rússia é governada desde 1994 por um ex-burocrata do Partido Comunista da União Soviética. Aos 65 anos, Alexander Lukashenko mostrou-se capaz de acabar com a oposição e vencer cinco eleições seguidas. Mas, diante de um inimigo invisível, como o novo coronavírus, sua melhor estratégia é fingir que nada está acontecendo. 

Considerado como o “último ditador da Europa”, Lukashenko faz parte da “Aliança do Avestruz”, termo cunhado pelo professor Oliver Stuenkel, da FGV, para designar o grupo de quatro países – Turcomenistão, Nicarágua, Bielo-Rússia e Brasil –, que a revista The Economist considerou como os mais negacionistas do mundo, na semana passada.

Lukashenko, agrônomo de formação, chama a pandemia de “coronopsicose”. Ex-diretor de um kolkhoz, uma fazenda coletiva do período soviético, nos anos 80, ele sugeriu à população lavar as mãos com vodca e tomar de 40 a 50 mililitros da bebida para matar o vírus. “Melhor morrer de pé do que viver de joelhos”, disse o autocrata bigodudo no dia 31 de março. “O melhor antiviral é praticar um esporte no gelo, além de sauna, uma ou duas vezes por semana. Os chineses nos disseram que o vírus morre em temperaturas acima de 60ºC.”

No dia 13, o soberano bielo-russo decretou que ninguém morreria de covid-19 sob o seu comando. “Declaro isso publicamente”, disse Lukashenko, no momento em que as autoridades sanitárias do país já contabilizavam 29 mortes. Um diagnóstico clássico de negacionismo. O país tem hoje 6,2 mil casos – mais do que a vizinha Ucrânia, que registrou 5,7 mil e tem quatro vezes mais população que a Bielo-Rússia. 

Enquanto o vírus se espalha, Lukashenko diz que a Bielo-Rússia não pode parar. “Não há razão para pânico. Precisamos trabalhar, principalmente no campo. Os tratores vão curar todo mundo, as plantações vão curar todo mundo”, disse o presidente, sem explicar como. Por isso, os bielo-russos seguem vivendo como se quase nada estivesse acontecendo.

Tomar cerveja em um bar, comer em um restaurante e passear no parque são atividades liberadas. O futebol também não parou. O Campeonato Bielo-Russo é a única divisão de elite da Europa em que a bola continua rolando. Para analistas, há motivos racionais e irracionais para o governo ignorar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) na luta contra a covid-19. 

“Para ordenar uma quarentena, você precisa de reservas financeiras. Se o governo não tem, quem vai pagar os salários das pessoas? As empresas até podem por um momento, mas o período é curto”, explica Lev Lvovskiy, economista da Universidade de Iowa e pesquisador do Centro de Pesquisa e Divulgação Econômica da Bielo-Rússia (Beroc).

De acordo com Lvovskiy, medidas rigorosas de isolamento social trariam desemprego em massa e dificultariam muito a vida da população. Apesar de 47% dos empregos do país serem públicos, fechar cafés, restaurantes, bares e pequenos comércios tiraria o ganha-pão diário de uma parcela importante dos bielo-russos. 

“Muita gente não tem reservas financeiras. Eles não conseguiriam sobreviver sem ajuda do governo”, afirma Lvoskiy. Diante da baixa nos preços do petróleo, que prejudicou a Rússia, principal parceiro comercial, a Bielo-Rússia registrou uma queda nas exportações. Sua dívida externa deu um salto e a moeda, o rublo bielo-russo, sofreu uma desvalorização importante frente ao dólar e ao euro desde que a pandemia começou. 

Rival perigoso

Para Vadim Mojeiko, do Instituto Bielo-Russo de Estudos Estratégicos, a quarentena pode ser fatal para o regime. “Vão questionar por que não acumulamos recursos para um momento como esse e não haverá boas respostas para essa pergunta”, disse. “As declarações de Lukashenko parecem engraçadas, mas principalmente para quem não vive na Bielo-Rússia.”

Segundo Mojeiko, é comum que o líder diga coisas bizarras sobre temas sérios, que viram piada nas redes sociais e rodas de conversas, sem que isso provoque um escândalo nacional. As baboseiras de Lukashenko, diz Mojeiko, sempre serviram de argumento para seu séquito e eram encaradas como brincadeira pelos críticos. Agora, é diferente. “Nesta situação, as pessoas estão morrendo. Não é engraçado. Quantas vítimas precisamos para entender que isso é um problema?” 

A negligência do regime pode custar caro. Nas últimas semanas, surgiram algumas vozes incômodas para criticar Lukashenko, incluindo empresários e celebridades. Uma delas tem um nome pesado: Alexander Hleb, meia com passagens por Barcelona e Arsenal, um ídolo na Bielo-Rússia. “Todo mundo sabe o que está acontecendo na Itália e na Espanha. A coisa está feia”, disse o craque. “Mas os governantes acreditam que não é tão grave e muitos jovens pensam assim. Estou em casa com a minha família, preocupo-me com minha saúde e a deles. Estou evitando ao máximo o contato social.”

Ontem, mais de 3 mil escolas voltaram a funcionar na Bielo-Rússia, depois de duas semanas de recesso – uma rara medida preventiva adotada pelo governo. No entanto, muitos pais preferiram deixar os filhos em casa, um gesto de desconfiança coletiva. “O governo não pensa em nós”, reclamou Olga Naumenko, mãe e moradora da capital Minsk, que deixou as crianças em casa. “Por isso, eu mesma tenho de cuidar dos meus filhos.” / COM REUTERS 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.