Credibilidade da imprensa venezuelana sai arranhada

Os acontecimentos do sábado agravaram a já deteriorada situação dos meios de comunicação venezuelanos, acossados pelo governode Hugo Chávez e em crise de credibilidade. Durante toda a tarde e início da noite, enquanto os fatos evoluíam de maneira dramática, com aretomada do Palácio Miraflores pelos colaboradores de Chávez, os três principais canais de televisão privados e a maioria das emissoras de rádio não noticiavam o que se passava na sede do governo. As emissoras RCTV, Venevisón e Globovisión, tiradas do ar por Chávez na quinta-feira, e que voltaram a transmitir depois de sua queda, cobriam apenas as declarações do presidente interino, Pedro Carmona, e dos comandantes das Forças Armadas, no Forte Tiuna. E mostravam também seu próprio infortúnio: as sedes dos três canais foram cercadas por simpatizantes de Chávez, que apedrejaram e picharam a entrada dos prédios. A Polícia Metropolitana impediu que elesinvadissem os estúdios. Os dois principais jornais, El Universal e El Nacional, não circularam hoje. Os jornalistas deixaram as redações, alegando faltade segurança para trabalhar. El Nacional promoveu no sábado, na Praça Altamira, um abaixo-assinado contra a violência à imprensa. Já a emissora estatal VTV, cujos funcionários se retiraram depois da queda de Chávez, alegando falta de segurança, retomou as transmissões nosábado à noite, com mensagens de apoio ao presidente deposto.Os principais meios de comunicação locais justificaram a falta de cobertura do que se passava em Miraflores alegando que seus repórterescorriam riscos. De fato, alguns simpatizantes de Chávez abordavam os jornalistas com hostilidade, e se acalmavam quando constatavam que se tratava de enviados estrangeiros. Mas as agências de notícias internacionais e a rede de TV americana CNN cobriram os fatos, assim como os jornalistas estrangeiros.A imprensa estrangeira emergiu como heroína para os simpatizantes de Chávez, por ter sido a única que noticiou o que aconteceu em Miraflores. A notícia do abandono do palácio pelos membros do governo interino contribuiu para a mobilização dos colaboradores de Chávez. O presidente iniciou seu pronunciamento na madrugada de hoje agradecendo à imprensa estrangeira, sob aplausos intensos da platéia de integrantes do governo e militantes. Chávez fez também uma advertência aos meios de comunicação locais, de que terão de "emendar-se"."Se não fosse pelos jornalistas internacionais...", comentava ontem o médico Juan Carlos Marcano, que levou sua filha Maidi, de quatro anos, para a frente do palácio, com um cartaz em que agradecia à CNN. "Nosso problema não é com os jornalistas. Isso também foi manipulado aqui", disse o médico. "A parcialidade dos meios de comunicação também foi responsável pelo que aconteceu aqui. O povo saía às ruas e sesentia impotente, porque não era ouvido."Grandes Acontecimentos InternacionaisESPECIAL VENEZUELA

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