Cresce a classe média virtual

Indianas recebem alerta de seus dias férteis no celular; milhões contam com informação, e não dinheiro, para melhorar de vida

THOMAS L. FRIEDMAN - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2013 | 02h02

Encontrei algo nesta viagem à Índia com que nunca me deparei antes: uma comunidade política inteiramente nova. "A classe média virtual" da Índia. Sua emergência explica muito a razão do aumento dos protestos sociais neste país, como também na China e Egito. É um das coisas mais estimulantes ocorrendo no planeta.

Historicamente, associamos as revoluções democráticas à uma classe média que alcança um certa renda per capita anual - digamos, US$ 10 mil -, de maneira que as pessoas se preocupam menos com alimentos básicos e habitação e mais em serem tratadas como cidadãos, com direitos e a poder opinar sobre o próprio futuro.

Na Índia encontrei algo fascinante: uma propagação impressionante da informática na última década, por meio de celulares e tabletes, reduziu os custos da conexão online e da educação - a tal ponto que muito mais indivíduos na Índia, China e Egito, mesmo ganhando poucos dólares por dia, têm acesso a tecnologias que eram privilégio da classe média.

É por isso que a Índia hoje tem uma classe média de 300 milhões de pessoas e outra classe média virtual de 300 milhões que, embora ainda muito pobres, vêm reivindicando cada vez mais direitos, estradas, eletricidade, uma polícia não corrupta e uma boa governança. E isso vem pressionando como nunca os políticos. "Graças à tecnologia e à difusão do ensino, um número cada vez maior de pessoas está se capacitando na população de baixa renda, e elas pensam e agem como se fossem da classe média, exigindo segurança e dignidade e direitos de cidadania", explica Khalid Malik, diretor do Human Development Report Office das Nações Unidas e autor do livro Why Has China Grown So Fast for So Long? (Por que a China cresceu tão rápido e por muito tempo?, em tradução livre). "É uma mudança espetacular. A Revolução Industrial envolveu 10 milhões de pessoas. Desta vez são alguns bilhões", diz.

E isso não está sendo estimulado somente pelos 900 milhões de celulares em uso na Índia ou pelos 400 milhões de blogueiros na China. O escritório da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA, em Nova Délhi, apresentou-me a um grupo de empreendedores sociais indianos que os EUA vêm ajudando e o poder das ferramentas que eles estão colocando nas mãos dessa classe média virtual da Índia a um preço baixíssimo é de cair o queixo.

A empresa Gram Power está criando microredes inteligentes e medidores inteligentes para fornecer energia segura e com capacidade de expansão para as áreas rurais do país, onde 600 milhões de indianos não dispõem de eletricidade regularmente (às vezes nenhuma) para trabalhar, ler e aprender. Ao preço de US$ 0,20 por dia, oferece aos camponeses um cartão pré-pago de eletricidade que garante energia elétrica para seus aparelhos domésticos. A Healthpoint Services fornece água potável para uma família de seis pessoas por US$ 0,05 por dia e também consultas via internet ao custo de US$ 0,20 a visita. A VisionSpring realiza exames e fornece óculos para a população pobre por US$ 2 a 3. O Institute for Reproductive Health, por meio de mensagens de texto, alerta as mulheres sobre seus dias férteis mensalmente, indicando quando o sexo sem proteção pode ser evitado para evitar uma gravidez indesejada. E a Digital Green está fornecendo sistemas de comunicação baratos para agricultores indianos e grupos de mulheres mostrando como conduzir melhor suas atividades por meio de filmes digitais projetados em terra batida.

Essas tecnologias ainda estão no começo, mas no caminho. E vêm permitindo a alguns milhões a mais de indianos sentir pelo menos que pertencem a uma classe média com o poder político que ela propicia, diz Nayan Chanda, que dirige o YaleGlobal Online Magazine e é coeditor do livro A World Connected: Globalization in the 21.º Century (Um mundo conectado: Globalização no século 21, em tradução livre).

Em dezembro, uma indiana de 21 anos, cujo pai trabalha em dois turnos como despachante de bagagens no aeroporto ganhando US$ 200 para sua filha se tornar psicoterapeuta, foi estuprada por uma gangue num ônibus depois de sair de um cinema com seu amigo. A jovem morreu em consequência dos ferimentos. Ela era mais uma que pretendia se tornar membro dessa nova classe média virtual. O seu brutal estupro e sua morte provocaram protestos em todo o país. "Foi um dos momentos decisivos na história, em que o cidadão, até agora satisfeito com os ganhos econômicos, quer mais do que apenas conforto material," afirma Chanda.

É também o caso da China. Em dezembro, observa Chanda, "quando um censor em Guangzou cometeu uma violação sem precedentes, alterando as premissas de um editorial de Ano Novo do jornal Southern Weekend e transformando-o num panegírico do Partido Comunista, os jornalistas chineses explodiram. Pela primeira vez, exigiram publicamente a renúncia do funcionário e o Twitter, o Weibo (rede social chinesa), pegaram fogo de raiva".

A Primavera Árabe foi desencadeada não por estudantes universitários da classe média, mas por um tunisiano vendedor de legumes que aspirava fazer parte dessa classe média e foi maltratado pela polícia corrupta.

Líderes, estejam atentos: seus concidadãos não precisam mais estar na classe média, em termos econômicos, para ter educação, instrumentos e uma mentalidade de classe média e achar que têm direito a um diálogo e a ser tratados como cidadãos com direitos reais e um governo decente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É COLUNISTA

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